Mateus 5:10-11. “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, pois deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.”
“Nos lugares onde a igreja é perseguida, ela está crescendo e se fortalecendo. Naqueles lugares onde a igreja é livre ela esta enfraquecendo e encolhendo.”
O Oxigênio Puro da Fé Autêntica
A fé que não pode ser testada é uma fé que não pode ser confiada. É na fornalha da aflição que o ouro da fé verdadeira é purificado e revelado em todo o seu esplendor. Charles Haddon Spurgeon, Sermões do Tabernáculo Metropolitano, vol. 12, p. 156.
Há algo profundamente perturbador na comodidade de nossa fé ocidental quando ela é confrontada com a realidade cristalina daqueles que pagaram o preço completo do discipulado. Como num espelho que revela nossa palidez espiritual, o encontro com a igreja perseguida desperta-nos de um sono dogmático que nem sabíamos estar dormindo. Que tipo de cristianismo é este que conhecemos, quando comparado àquele que emerge das fornalhas da perseguição?
O sofrimento não é apenas um acidente infeliz na vida cristã; é parte integrante do chamado divino. Através das lágrimas, vemos mais claramente a glória de Cristo. John Piper, Desiring God, p. 243.
Cristo no centro de tudo
Na penumbra de um hotel discreto em país hostil ao evangelho, a eternidade irrompeu no tempo através de um homem de 93 anos, 26 dos quais passados em prisões por amor a Jesus. Aqui estava o cristianismo em sua forma mais pura – não negociado, não diluído, não adaptado às conveniências culturais. Quando ele se levantou para falar, era como se Cristo mesmo entrasse na sala, carregando consigo o aroma de um sacrifício perfeito.
A verdadeira medida de nossa fé não é o que confessamos em momentos de tranquilidade, mas o que proclamamos quando tudo ao nosso redor desmorona. É na escuridão da provação que a luz do evangelho brilha com maior intensidade. D. Martyn Lloyd-Jones, Pregação e Pregadores, p. 189
Este ancião, fisicamente comprometido pela tortura, havia desenvolvido algo que nosso cristianismo confortável raramente produz: um cristocentrismo absoluto. Durante duas horas, ele compartilhou o evangelho sem mencionar suas prisões, perseguições ou torturas. Jesus estava no centro – não como tema teológico, mas como realidade viva que havia sustentado cada dia de sofrimento.
A coragem não é a ausência do medo, mas a capacidade de agir corretamente apesar dele. É a virtude que permite ao homem enfrentar a dor e a morte com dignidade e esperança. C.S. Lewis, Mero Cristianismo, p. 145.
Quando soubemos que Jesus havia levado nosso irmão para casa e nos encontramos com sua viúva, a história se completou em cores ainda mais vívidas. Ao completar 20 dos 26 anos consecutivos de prisão, uma cova de um metro por um metro foi aberta, longe da luz solar. Por causa da forma como esse irmão expressava seu amor por Jesus, ele foi submetido a um tipo de punição: colocado de joelhos dentro dessa cova e mantido naquela mesma posição por seis meses.
As fezes eram retiradas apenas quando se tornavam insuportáveis. De forma recorrente, ele recebia água, alimento e a oportunidade de ser libertado — desde que renunciasse à fé que proclamava. Ele foi mantido ali por seis meses. Quando finalmente foi retirado da cova, havia desaprendido a andar. Seus membros inferiores tinham sido gravemente comprometidos pela posição contínua e forçada.
O filho, que não via há 20 anos, recebeu autorização para visitá-lo. Isso fazia parte de uma tentativa das autoridades de desestimular a igreja a continuar perseverando, a ideia era que o filho visse o estado do pai, voltasse para a comunidade e dissesse: “Não vale a pena.” O menino tinha 6 anos quando o pai foi preso; agora era um homem de 26. A viúva nos contou que a situação financeira deles era tão precária que o rapaz precisou se vestir com roupas da mãe para conseguir visitar o pai.
Quando ele chegou, se deparou com uma cena impactante: o pai estava em terra, com a pigmentação da pele comprometida pela ausência prolongada da luz solar. Num ímpeto, o jovem caiu ao lado do pai e disse: “Pai, nega! Depois o senhor conserta isso com Jesus.” Num primeiro momento, o pai não reconheceu o filho — afinal, eram 20 anos de distância. Quando finalmente entendeu que se tratava do filho, a viúva nos conta que ele ergueu a cabeça e respondeu ao conselho de negação de seu filho com as palavras de um hino:
Sim, eu amo a mensagem da cruz
Até morrer eu a vou proclamar
Levarei eu também minha cruz
Até por uma coroa trocar.A Mensagem da Cruz – Harpa Cristã.
Não era performance religiosa. Era paixão, obediência e submissão ao Cristo, uma declaração que custou mais seis anos de prisão. Aqui estava um homem completamente anônimo, sem holofotes ou aplausos, construindo uma história que nosso cristianismo confortável não consegue construir.
A verdadeira igreja perseguida não se jacta de seus sofrimentos. Ela não exibe suas cicatrizes como medalhas de honra. Ela simplesmente vive, e ao viver, testifica da suficiência de Cristo em todas as circunstâncias. Richard Wurmbrand, Torturado por Cristo, p. 67
A Chaga Aberta no Coração de Deus
O sofrimento é a escola mais rigorosa da fé. Nela, todas as ilusões são despedaçadas, todas as superficialidades são expostas, e apenas o que é genuinamente de Deus permanece de pé. John Piper, Desiring God, p. 287.
A igreja perseguida trouxe-nos um prumo para nosso modo de viver como cristãos. Ela nos provocou a entender que talvez não tenhamos a honra de sermos mártires por amor ao nosso Cristo, mas que precisamos ser maturados no processo de desenvolver uma mentalidade de martírio, acatando as pequenas mortes que Ele nos convida todos os dias.
Este é o oxigênio puro da fé: um cristianismo que não negocia, que não se adapta, que não se curva diante das pressões do mundo. É o cristianismo que emerge quando todas as camadas de conveniência são removidas, revelando apenas Cristo e a alma que O ama acima de todas as coisas.
O martírio não é apenas morrer por Cristo, mas viver completamente para Ele. É a entrega total de nossa vontade à Sua vontade, nossa vida à Sua vida, nosso amor ao Seu amor. Augustine de Hipona, Confissões, p. 234.
E agora, como viveremos?
Diante dessa realidade, como podemos responder?
Permitindo que essas histórias marquem nosso coração e reconfigurem nossa perspectiva sobre o que significa ser cristão.
Desenvolver uma mentalidade de martírio em nosso contexto – morrendo para o ego nas pequenas escolhas diárias, escolhendo Cristo sobre conveniência, verdade sobre popularidade.
Em nossos relacionamentos, isso significa amar como Cristo amou, mesmo quando custoso. No trabalho, significa integridade mesmo quando prejudicial. Em nossa piedade pessoal, significa buscar a Cristo mesmo quando outras vozes clamam por nossa atenção.
A igreja perseguida nos ensina que amar a Deus tem um cunho de obediência. Como disse Jesus: “Aquele que me ama guarda os meus mandamentos.” Não podemos declarar que amamos se nossa vida de obediência não for real. Temos uma responsabilidade para com esta geração que Lutero não responderá, que David Brainerd não responderá, é nossa responsabilidade.
Que possamos ser transformados pelo oxigênio puro da fé autêntica, lembrando sempre que não são “eles” somos “nós”. Não há duas igrejas. A igreja perseguida somos nós também, e ter contato com essa realidade deve nos transformar cada vez mais.
Testemunho do Pastor Luiz Maia
Tenho algumas dificuldades em lidar com certos problemas aqui na igreja brasileira. Depois de mais de 10 anos trabalhando com a Igreja Perseguida, algumas coisas que as pessoas falam me soam estranhas. Dizem: “Ah, não, isso é um problema.” Cara, eu não consigo chamar isso de problema perto do que eu vejo. Simplesmente não consigo.
A gente ajudou um menino na Ásia Central, de 16 anos de idade. Ele foi preso porque pregou o evangelho para o melhor amigo dele na escola. O amigo se converteu. Mas a mãe do menino descobriu, entregou o filho para as autoridades e ele foi executado. Olha essa realidade: 16 anos de idade.
O garoto que pregou para o amigo foi preso. Eles eram amigos, cresceram juntos. Ele discipulou o amigo, o menino estava firme na fé. Mas, por causa da denúncia, virou essa confusão toda. E aí o nosso irmão foi preso. Com 16 anos, ele era torturado todos os dias.
A mãe dele contou pra gente: “Tenho dois sentimentos em relação ao meu filho. Primeiro, muito orgulho — porque meu menino está preso por amar Jesus, não porque cometeu um crime. Segundo, uma dor profunda — porque sou mãe, e sei que meu filho está sofrendo.”
Uma vez por dia, passava um torturador na cela. Agulhas quentes debaixo das unhas. Choques elétricos em partes íntimas. Banho gelado de madrugada. Outras atrocidades. E tudo o que eles queriam dele era uma frase: “Eu nego Cristo.” Se ele dissesse isso, assinaria um documento de renúncia da fé, e ele seria solto.
Mas ele não negou. Com 16 anos de idade, esse menino ficou 9 meses preso. E a única coisa que os torturadores conseguiram foi ver mais 122 pessoas se convertendo dentro da prisão. Ele continuou pregando o evangelho.
Aí você lembra dos seus 16 anos. Eu fico com vergonha quando penso nos meus. Eu já tinha certeza que queria ser missionário, já tinha decidido isso, tinha convicção. Mas ainda era um menino. Eu não sei se, se minha fé fosse provada nesse nível, eu suportaria.
E sabe o que é mais louco? Você sabia mais Bíblia que ele. Mais teologia. Você participa de mais cultos. Esses meninos não têm um culto como o nosso, numa igreja livre. Não têm louvor congregacional como a gente. Não têm pregações de 40 ou 50 minutos.
E aí você começa a pensar: Cara… meus problemas, minhas dificuldades… Dá até vergonha de chamar isso de problema quando comparo com o que esses irmãos enfrentam.
E aqui, não estou querendo minimizar o sofrimento de ninguém — cada um tem a sua cruz. Mas a pergunta que me consome é: o que eles têm que, muitas vezes, nos falta?
Porque a gente tem mais Bíblia, mais teologia, mais cultos, mais música. O que eles têm?
Eles têm comprometimento com a verdade. Acho que é isso. O que neles transborda e, em nós, tantas vezes falta, é um compromisso inegociável com a verdade.
Oremos
Pai celestial, diante das histórias de nossos irmãos perseguidos, reconhecemos a pobreza de nossa fé e a superficialidade de nosso compromisso. Perdoa-nos pela comodidade que muitas vezes confundimos com bênção, e pela facilidade que mistificamos por graça. Concede-nos o oxigênio puro da fé autêntica. Desenvolve em nós uma mentalidade de martírio, não porque desejamos o sofrimento, mas porque ansiamos pela pureza de coração que ele produz. Ajuda-nos a morrer diariamente para nós mesmos, a escolher Cristo sobre nossa conveniência, a verdade sobre nossa popularidade.
Fortalece nossos irmãos que hoje sofrem por Teu nome. Que eles sintam nossa solidariedade através da oração e do apoio prático, suas histórias continuem a nos desafiar e transformar e possamos viver de tal forma que, se chamados a dar nossa vida por Ti, já estejamos preparados, pois teremos aprendido a viver como mortos para o mundo e vivos para Ti. Em nome de Jesus, que nos amou e se entregou por nós. Amém.
Este devocional se baseia nos testemunhos de Ariadna de Oliveira e Pr. Luiz Renato Maia.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
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Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!