1 Pedro 4.12-14. “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus.”
“Nos lugares onde a igreja é perseguida, ela está crescendo e se fortalecendo. Naqueles lugares onde a igreja é livre ela esta enfraquecendo e encolhendo.”
O paradoxo da fornalha ardente
“A igreja que não sofre não pode ser a igreja verdadeira, porque ela não pode ser a igreja que segue Cristo. O sofrimento é o preço inevitável da fidelidade cristã em um mundo caído. Quando a igreja é popular, deveria questionar se ainda é cristã.” Dietrich Bonhoeffer, O Custo do Discipulado
Existe uma pergunta que assombra o coração de todo cristão sincero quando as chamas da perseguição começam a lamber as bordas de sua vida: por que o Deus que nos ama permite que sua igreja seja refinada no fogo do sofrimento? Pedro, o apóstolo que um dia negou Cristo por medo da rejeição, agora escreve com a autoridade de quem conheceu tanto a vergonha da covardia quanto a glória da restauração. Suas palavras ecoam desde as províncias hostis da Ásia Menor, onde cristãos enfrentavam o dilema diário entre a fidelidade a Cristo e a segurança social.
O que há de tão extraordinário no sofrimento cristão que Pedro precisa nos advertir para “não estranharmos”? Por que nossa natureza instintivamente recua diante da dor, como se ela fosse intrusa em nossa jornada de fé? A resposta revela um dos paradoxos mais belos e perturbadores do evangelho: a igreja perseguida não é uma igreja abandonada, mas uma igreja escolhida para participar da própria experiência de seu Salvador.
“Há um sofrimento que não tem sentido, que é produto da maldade humana e da desordem cósmica. Mas há outro sofrimento, mais misterioso e sagrado, que participa do próprio coração da redenção divina.” C.S. Lewis, O Problema da Dor
A metalurgia divina da santidade
“A verdadeira grandeza da igreja não se mede pela aceitação que recebe do mundo, mas pela fidelidade que mantém a Cristo em meio à rejeição do mundo.” D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte
Pedro não estava escrevendo teoria teológica abstrata quando empregou a metáfora do “fogo ardente”. Ele escrevia para cristãos que sentiam literalmente o calor das chamas da perseguição: a perda de empregos, o ostracismo social, a pressão familiar, e por vezes, a ameaça física real. O apóstolo escolheu deliberadamente a linguagem da metalurgia – pýrōsis – para revelar que o sofrimento cristão não é acidental, mas artesanal.
Nas oficinas dos ourives da antiguidade, o fogo não destruía o ouro; ele revelava o ouro. O calor intenso separava o precioso do impuro, o eterno do temporal, o autêntico do falsificado. Pedro está nos dizendo que a igreja perseguida está passando por um processo semelhante: não está sendo punida, mas purificada. Não está sendo rejeitada, mas refinada. A fornalha da perseguição não consome nossa fé; ela a consagra.
“O sofrimento é a escola onde aprendemos que nossa esperança não está neste mundo, mas em Cristo. É uma educação dolorosa, mas indispensável para a formação do caráter cristão.” João Calvino, Institutas da Religião Cristã
Mas há algo ainda mais profundo nesta imagem. Quando Pedro fala de “co-participação nos sofrimentos de Cristo”, ele não está sugerindo que nossos sofrimentos sejam expiatórios – Cristo cumpriu perfeitamente essa obra na cruz. Ele está revelando que existe uma união mística tão íntima entre Cristo e sua igreja que, quando ela sofre por sua causa, ele sofre com ela. A Igreja Perseguida carrega as marcas do Cristo crucificado não como fardo, mas como credencial.
Esta é a grande inversão do evangelho: o que o mundo considera vergonha, Deus considera glória. O que a sociedade classifica como derrota, o Reino identifica como vitória. A igreja que é “injuriada pelo nome de Cristo” não está sendo humilhada; está sendo coroada. Sobre ela repousa “o Espírito da glória e de Deus” – a mesma presença que habitou o tabernáculo e o templo agora habita nos corações dos cristãos perseguidos.
“Existe uma diferença fundamental entre sofrer como vítima e sofrer como testemunha. A vítima sofre sem propósito; a testemunha sofre com missão.” Victor Hugo, Os Miseráveis
O eco da ressurreição no sofrimento
A promessa de Pedro culmina numa visão escatológica que transfigura completamente nossa perspectiva sobre o sofrimento presente. “Na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” – essa não é consolação barata ou otimismo ingênuo. É a certeza teológica de que a história caminha inevitavelmente para um desfecho onde toda lágrima será enxugada, toda injustiça será corrigida, e toda fidelidade será recompensada.
A igreja perseguida vive na tensão entre o “já” e o “ainda não” do Reino. Já somos participantes dos sofrimentos de Cristo, já temos o Espírito da glória repousando sobre nós, já somos bem-aventurados em nossa aflição. Mas ainda não vimos a revelação plena dessa glória, ainda não experimentamos a alegria exultante da consumação, ainda não fomos completamente libertos da dor.
Esta tensão não é defeito do evangelho; é sua dinâmica essencial. O sofrimento presente da igreja perseguida é a antessala da glória futura, assim como a cruz de Cristo foi o prelúdio de sua ressurreição. Não sofremos para ganhar a glória – sofremos porque já fomos escolhidos para ela. O fogo que nos prova hoje é o mesmo que nos preparará para brilhar como ouro refinado na presença do Rei.
Cristo não nos chama apenas para crermos nele, mas para sofrermos por ele. E nessa participação em seus sofrimentos, descobrimos que não estamos sozinhos na fornalha. Como os três jovens hebreus na fornalha de Nabucodonosor, descobrimos que há um quarto homem caminhando conosco nas chamas – e este tem a aparência do Filho de Deus.
E agora, como viveremos?
A igreja hoje precisa redescobrir sua identidade bíblica. Em uma cultura que frequentemente domestica o cristianismo, transformando-o em terapia espiritual ou moralismo social, precisamos retornar à perspectiva radical de Pedro: seguir a Cristo implica necessariamente em sofrimento.
Devemos parar de nos surpreender quando enfrentamos oposição por nossa fé. Pedro nos adverte explicitamente: “não estranheis”. Se nossa versão do cristianismo nunca gera tensão com o mundo, devemos questionar se ainda é cristianismo bíblico. A igreja que nunca sofre oposição pode ter perdido sua distinção profética.
Devemos reavaliar nossa teologia da prosperidade. Se esperamos que seguir Cristo nos traga apenas bênçãos materiais e aceitação social, estamos seguindo um Cristo diferente daquele que foi crucificado. A cruz não é apenas o meio de nossa salvação; é também o modelo de nossa existência cristã. O discípulo não é maior que seu mestre.
Devemos cultivar uma mentalidade escatológica que nos permita suportar o sofrimento presente à luz da glória futura. Isso não significa escapismo ou passividade, mas perspectiva correta. Vivemos para uma audiência de Um, e sua aprovação é mais valiosa que a aceitação de multidões.
Praticamente, isso se manifesta quando mantemos nossa confissão de fé mesmo quando ela nos custa socialmente. Quando permanecemos fiéis aos princípios cristãos no trabalho, mesmo que isso limite nossa ascensão profissional e amamos nossos perseguidores ao invés de retribuir com ódio. Quando encontramos alegria genuína em nossa identificação com Cristo, mesmo quando essa identificação nos traz lágrimas.
Para a igreja perseguida ao redor do mundo hoje – nossos irmãos na Coreia do Norte, China, Sudão, Irã – nossa solidariedade deve ir além de orações ocasionais. Devemos apoiá-los concretamente, amplificar suas vozes, e aprender com sua fidelidade. Sua perseverança em meio ao fogo nos ensina o que significa ser igreja autêntica.
Oremos
Pai celestial, reconhecemos que nossa tendência natural é fugir da dor e buscar apenas o conforto. Perdoa-nos por quando transformamos tua cruz em ornamento decorativo, esvaziando-a de seu poder transformador. Perdoa-nos, por quando preferimos um cristianismo conveniente a um discipulado custoso.
Concede-nos graça para não nos surpreendermos quando o fogo ardente da perseguição surge em nossas vidas. Ajuda-nos a compreender que não somos vítimas de circunstâncias, mas participantes de tua obra redentora. Quando formos injuriados pelo nome de Cristo, lembra-nos de que sobre nós repousa o Espírito da glória.
Fortalece nossos irmãos ao redor do mundo que hoje sofrem perseguição física por sua fé. Sustenta-os com tua presença, consola-os com tua promessa, e usa seu testemunho fiel para avivar nossa própria devoção.
Que suas vidas sejam como ouro refinado que reflete tua glória. Purifica nossa igreja através das provações que enfrentamos. Remove de nós tudo que não é de Ti, nosso orgulho, nossa busca por aprovação humana, nossa covardia espiritual. Que emergimos das fornalhas da vida com fé mais pura e amor mais ardente por ti.
Concede-nos visão da glória que nos aguarda, para podermos suportar alegremente qualquer sofrimento presente. Que nossa esperança na revelação futura de tua glória seja âncora segura para nossa alma em toda tempestade. Em nome de Jesus, que por nós suportou a cruz e agora está assentado à tua direita, onde intercede por nós em todos os nossos sofrimentos. Amém.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
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Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!