Mateus 16:18. “E eu também te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”
“Nos lugares onde a igreja é perseguida, ela está crescendo e se fortalecendo. Naqueles lugares onde a igreja é livre ela esta enfraquecendo e encolhendo.”
Quando a promessa encontra a perseguição
A declaração de nosso Senhor Jesus Cristo sobre sua Igreja é muito impactante. Como um arquiteto contemplando os ventos furiosos que açoitarão sua construção, Jesus não apenas prometeu edificar, mas antecipou a guerra. As palavras “as portas do inferno não prevalecerão” não são um consolo gentil para tempos pacíficos, mas uma declaração de guerra em tempos de tribulação.
Quando olhamos para os primeiros séculos da Igreja Perseguida, encontramos não uma comunidade resguardada em santuários seguros, mas homens e mulheres que descobriram que seguir a Cristo significava, literalmente, carregar uma cruz. Observe como foi a história dos primeiros martires:
- Estevão. Primeiro mártir cristão, foi apedrejado fora de Jerusalém após confrontar os líderes judeus com ousadia. Sua morte desencadeou uma grande perseguição (Atos 7–8).
- Tiago, o Maior. Filho de Zebedeu, foi decapitado em Jerusalém por ordem de Herodes Agripa em 44 d.C. Seu acusador se converteu e morreu ao seu lado.
- Filipe. Pregou na Frígia, onde foi açoitado, preso e depois crucificado em Heliópolis, no ano 54 d.C., permanecendo fiel até o fim.
- Mateus. Evangelista e ex-cobrador de impostos, foi morto com uma lança na Etiópia, na cidade de Nadaba, por proclamar o Evangelho (60 d.C.).
- Tiago, o Menor. Possível irmão do Senhor, foi líder em Jerusalém. Com 99 anos, foi espancado, apedrejado e morto com um cacetete por judeus hostis.
- Matias. Escolhido para substituir Judas Iscariotes, foi apedrejado e, em seguida, decapitado em Jerusalém por causa de sua fé em Cristo.
- André. Irmão de Pedro, morreu crucificado em forma de X (cruz de Santo André) em Edessa, após evangelizar na Ásia Menor.
- Marcos. Autor do segundo Evangelho, foi arrastado e dilacerado por uma multidão em Alexandria durante uma celebração pagã ao deus Serapis.
- Pedro. Crucificado em Roma de cabeça para baixo, a seu pedido, por se considerar indigno de morrer como Cristo. Possível martírio sob Nero.
- Paulo. Decapitado fora de Roma sob ordem de Nero. Antes de morrer, orou por seus executores, que depois creram e foram batizados.
- Judas (Tadeu). Pregou em Edessa e foi crucificado no ano 72 d.C. por proclamar o Evangelho naquela região hostil à fé cristã.
- Bartolomeu. Evangelizou na Índia, onde traduziu o Evangelho. Foi brutalmente açoitado e depois crucificado por pagãos enfurecidos.
- Tomé. Pregou na Índia, onde foi transpassado por uma lança por sacerdotes pagãos, tornando-se mártir pela fé em Cristo.
- Lucas. Autor de Lucas e Atos, acompanhou Paulo em várias viagens missionárias. Foi enforcado por sacerdotes idólatras na Grécia.
- Simão, o Zelote. Evangelizou na África e Grã-Bretanha, onde foi crucificado por sua fé em 74 d.C., sendo firme até a morte.
- João. Lançado num caldeirão de óleo em Roma, saiu ileso. Foi exilado em Patmos, onde escreveu Apocalipse. Morreu de velhice, o único apóstolo não martirizado.
- Barnabé. Natural de Chipre, missionário ao lado de Paulo. Morreu por volta de 73 d.C., supostamente martirizado por judeus hostis ao Evangelho.

Como pode uma instituição florescer sob perseguição? A resposta não reside em estratégias humanas, mas na natureza sobrenatural da promessa divina.
A questão que nos confronta hoje não é se a Igreja enfrentará oposição – Cristo já nos advertiu que isso aconteceria – mas se nossa fé possui raízes suficientemente profundas para resistir quando as tempestades vierem. Estamos construídos sobre a rocha, ou sobre a areia das conveniências temporais?
A narrativa dos primeiros mártires cristãos não é simplesmente uma crônica de sofrimento, mas uma demonstração teológica profunda da natureza da Igreja. Quando observamos Estevão orando por seus algozes enquanto as pedras esmagavam sua vida, ou Tiago caminhando resoluto para a decapitação, não testemunhamos apenas coragem humana, mas a manifestação do próprio caráter de Cristo em Seus seguidores.
O martírio da Igreja Perseguida e a vitória através da derrota
A doutrina reformada nos ensina que a Igreja é tanto visível quanto invisível, tanto militante quanto triunfante. Nos primeiros séculos, essa distinção tornou-se dramaticamente evidente. A Igreja visível sofria, sangrava e morria. Mas a Igreja invisível – a realidade espiritual que transcende as circunstâncias físicas – crescia com cada gota de sangue derramado.
Este crescimento não era resultado de marketing religioso ou estratégias evangelísticas sofisticadas. Era o cumprimento da lei espiritual que Jesus estabeleceu: “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto” (João 12:24). Os mártires entenderam que suas mortes não eram o fim de suas vidas, mas a multiplicação da influência do mestre e de seu reino através de suas próprias vidas.
A perseguição revelou algo fundamental sobre a natureza da Igreja: ela não pertence a este mundo. Quando Pilatos interrogou Jesus sobre Seu reino, Cristo respondeu: “O meu Reino não é deste mundo” (João 18:36). Esta verdade tornou-se visceralmente real para os primeiros cristãos. Eles descobriram que servir a um Rei celestial inevitavelmente os colocaria em conflito com os reinos terrenos.
Mas há uma ironia divina nesta tensão. Quanto mais os poderes deste mundo tentavam destruir a Igreja, mais ela se multiplicava, espalhavando-se pelo mundo. Lucas registra que após a morte de Estevão, “todos foram dispersos pelas terras da Judeia e de Samaria” (Atos 8:1). A perseguição tornou-se o método de Deus para a expansão missionária. Os cristãos, fugindo da morte, levavam consigo a mensagem da vida eterna.
A teologia por trás desta realidade é profunda. A Igreja não existe para si mesma, mas para o Reino de Deus. Quando ela aceita o sofrimento como parte de sua vocação, ela se alinha com o próprio Cristo, que “sendo em forma de Deus… se esvaziou… e foi obediente até à morte e morte de cruz” (Filipenses 2:6-8). Os mártires não apenas imitaram Cristo; eles participaram de Seus sofrimentos de uma maneira que transformou suas mortes em vitórias.
João Calvino observa que “é impossível que aqueles que estão unidos a Cristo pela fé verdadeira não sejam também participantes de suas aflições” (Institutas, III.8.1).
D. Martyn Lloyd-Jones nos adverte: “A Igreja que não sofre perseguição não está pregando o verdadeiro Evangelho” (Sermões sobre Efésios, p. 234).
O sofrimento não é um acidente na vida cristã; é uma credencial de autenticidade. Esta declaração ressoa poderosamente quando consideramos que durante os primeiros três séculos, ser cristão significava viver com uma sentença de morte suspensa sobre a cabeça.
Cristo, o fundamento inabalável da Igreja perseguida
Ao contemplarmos a galeria dos mártires – Estevão com seu rosto como o de um anjo, Tiago bebendo o cálice que havia prometido beber, Pedro insistindo em ser crucificado de cabeça para baixo por sentir-se indigno de morrer como seu Senhor – descobrimos que a promessa de Cristo não era apenas sobre sobrevivência institucional, mas sobre vitória espiritual.
A Igreja Perseguida dos primeiros séculos nos ensina que a rocha sobre a qual Cristo edifica Sua Igreja não é meramente a confissão de Pedro sobre a divindade de Cristo, mas a própria pessoa de Cristo manifestada através de Seus seguidores. Cada mártir que morreu proclamando “Jesus é Senhor” adicionou outra pedra a esta construção inabalável.
As “portas do inferno” que não prevaleceriam contra a Igreja incluem a perseguição, o martírio e todas as forças que buscam silenciar o testemunho cristão. Mas a promessa de Cristo provou ser profética de maneiras que nem mesmo os discípulos poderiam ter imaginado. A Igreja não apenas sobreviveu; ela conquistou o próprio império que tentou destruí-la.
Esta vitória não veio através de poder político ou influência social, mas através da fidelidade até a morte. Os mártires sabiam que havia algo pior que morrer por Cristo: viver negando aquele que por eles morreu no calvário. Eles consideraram a morte temporal infinitamente menor que a vida eterna, e nesta escolha, demonstraram que a Igreja possui recursos que transcendem as limitações deste mundo.
O sangue dos santos não clamou por vingança, como o sangue de Abel, mas por perdão, como o sangue de Cristo. E este clamor ecoou através dos séculos, transformando perseguidores em convertidos e inimigos em irmãos.
E agora, como viveremos?
O ttestemunho da Igreja Perseguida não é apenas um registro histórico fascinante; é um espelho que reflete nossa própria fidelidade. Vivemos em uma época em que o cristianismo ocidental raramente enfrenta perseguição física, mas isso não significa que estamos isentos de termos de escolher entre Cristo e o mundo no futuro.
Em nossa vida pessoal, devemos perguntar-nos: estou disposto a perder reputação, oportunidades ou relacionamentos por causa de minha fé? Os primeiros cristãos perderam suas vidas; nós frequentemente hesitamos em perder nossa conveniência. A aplicação prática começa com o reconhecimento de que seguir a Cristo ainda custa algo.
Em nossos relacionamentos, o exemplo dos mártires nos desafia a amar nossos inimigos de maneira prática. Estevão orou por aqueles que o apedrejavam. Tiago perdoou seu acusador. Como estamos respondendo àqueles que se opõem à nossa fé? Com amargura ou com intercesção?
Em nosso trabalho e estudos, a Igreja Perseguida nos ensina que não existe neutralidade espiritual. Cada esfera da vida é território disputado entre o Reino de Deus e os reinos deste mundo. Estamos vivendo como embaixadores de Cristo ou como cidadãos conformados com este século?
Em nossa piedade pessoal, os mártires nos mostram que a preparação para grandes testes começa na disciplina diária. Eles não improvisaram coragem na hora da morte; eles a cultivaram através de anos de comunhão com Cristo. Nossa devoção privada está nos preparando para os desafios públicos?
Em nossa perspectiva cultural, devemos lembrar que a Igreja sempre foi mais forte na margem que no centro do poder. Quando nos sentimos ameaçados pela secularização crescente, lembremos que a Igreja nasceu como uma minoria perseguida e conquistou o mundo não através de privilégios, mas através de testemunho fiel.
Ao ouvirmos sobre “Igreja Perseguida” isso não deve apenas evocar simpatia pelos cristãos que sofrem em outras partes do mundo – embora isso seja importante – mas deve nos desafiar a examinar se nossa fé possui a mesma qualidade que permitiu aos primeiros cristãos preferirem a morte à apostasia.
Oremos
Pai celestial, diante da galeria dos santos mártires, reconhecemos nossa própria fragilidade e dependência de Tua graça. Tu edificaste Tua Igreja sobre a rocha que é Cristo, e as portas do inferno não prevaleceram contra ela, nem mesmo quando o sangue dos fiéis encharcou o solo do império romano.
Concede-nos a mesma fé inabalável que permitiu a Estevão ver os céus abertos enquanto as pedras voavam, a Tiago caminhar resoluto para a decapitação, e a Pedro insistir em ser crucificado de cabeça para baixo. Que possamos compreender que seguir-Te não é buscar uma vida fácil, mas uma vida fiel.
Perdoa-nos por nossa tendência de buscar o conforto quando Tu nos chamas para a cruz, por nossa disposição de silenciar quando Tu nos comissionas para proclamar, por nossa inclinação de comprometer quando Tu nos ordenas permanecer firmes.
Fortalece nossos irmãos que hoje enfrentam perseguição ao redor do mundo. Que eles encontrem em Ti a mesma fonte de coragem que sustentou os primeiros mártires. E prepara-nos, Senhor, para os dias em que nossa própria fidelidade será testada.
Que o sangue dos santos continue sendo semente da Igreja, e que nossa geração adicione seu testemunho fiel à grande nuvem de testemunhas que nos precedeu. Em nome de Jesus, que venceu a morte e nos prometeu que Sua Igreja permanecerá para sempre. Amém.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
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Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!