Jejum não é troca com Deus, mas disciplina para intimidade genuína. Evite transformar práticas sagradas em barganha espiritual.

JEJUM NÃO É TROCA

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“Fome de Deus, Não Barganha Espiritual”

Isaías 58:6-7. “Porventura, não é este o jejum que escolho: soltar as cadeias da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, recolhas em casa os pobres desabrigados, cubras o nu e não te escondas do teu próximo?”

Quando o Sagrado se Torna Mercadoria

Numa cultura obsessivamente transacional, transformamos até as disciplinas mais sagradas em instrumentos de negociação divina. O jejum, essa antiga prática de busca por Deus através da abstinência voluntária, frequentemente degenera em barganha espiritual malformada. “Deus, eu jejuo 21 dias, então o Senhor tem esse prazo para me responder.”

Contudo, Deus não é um vendedor celestial esperando nossa melhor oferta. Quando estabelecemos prazos divinos e criamos fórmulas espirituais, revelamos uma religiosidade mercantil que não compreende a natureza da verdadeira intimidade com o Criador. O jejum não é troca; é expressão de prioridades eternas.

Como observa Hernandes Dias Lopes, o jejum só tem valor quando acompanhado por arrependimento genuíno, amor pelos necessitados e mudança de vida. Não adianta “tirar um dia para passar fome” se isso não significa transformação real. Portanto, a disciplina espiritual deve brotar de um coração que busca santidade, não vantagens.

“Jejum é quando você troca o que é bom por aquilo que é melhor, quando você muda o sabor do pão da terra pelo pão do céu. Quando você come, você se alimenta do símbolo do pão do céu; quando você jejua, você se alimenta do próprio pão do céu, que é Deus.” John Piper, Uma Fome por Deus, Editora Cultura Cristã, 2009, p. 23.

Redefinindo a Natureza do Jejum Bíblico

A definição de John Piper revoluciona nossa compreensão: “jejum é fome de Deus”. Não é regime para emagrecer, penitência ou sacrifício pessoal. Ademais, é escolher deliberadamente o eterno sobre o temporal, declarando que “isso é importante para mim, mas vou deixar porque quero estar em intimidade contigo, pois sei que o Senhor é mais importante.”

Essa perspectiva bíblica encontra eco em 1 Coríntios 10:31: “Portanto, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” Assim, comemos para a glória de Deus e jejuamos para a glória de Deus.

“O jejum é tudo quanto reside em nós uma imitação dos anjos, uma condenação das coisas presentes, uma escola de oração, um alimento da alma, uma rédia da boca. O jejum apazigua a ira, acalma as tempestades da natureza, incita a razão, limpa a mente.” João Crisóstomo, Homilias sobre o Jejum, Patrologia Grega, Volume 49, p. 197.

Entretanto, essa disciplina deve ser acompanhada de oração intensa e leitura bíblica. O tempo que gastamos comendo deve ser redirecionado para comunhão com Deus. Não é apenas abstinência, mas substituição intencional do físico pelo espiritual.

Intimidade Versus Manipulação Espiritual

O verdadeiro jejum surge da compreensão de que precisamos ouvir de Deus. Nossa postura deve ser de submissão reverente, não demanda presunçosa. Quando jejuamos esperando forçar respostas divinas, demonstramos fé imatura que ainda não compreendeu o caráter soberano de Deus.

Muitas vezes, aguardamos respostas para questões que a Escritura já respondeu claramente. Não precisamos jejuar para saber se devemos trair nosso cônjuge, mentir para conseguir emprego ou comprometer nossa integridade. A Palavra já estabeleceu parâmetros morais fundamentais da vida cristã.

Contudo, há decisões legítimas onde necessitamos direcionamento divino. Nestes casos, o jejum combinado com oração e estudo bíblico pode abrir nossos corações para perceber a vontade divina com maior clareza. Mas sempre lembrando que Deus usa pessoas maduras na fé para nos orientar também.

E Agora, Como Viveremos?

Reconheça que jejum não é troca, mas comunhão. Aproxime-se dessa disciplina com coração adorador, não negociador. Estabeleça períodos regulares sempre acompanhados de oração e leitura bíblica.

Cultive expectativas bíblicas. Jejue esperando ouvir de Deus, mas preparado para receber qualquer resposta no tempo dEle. Lembre-se de que o silêncio divino às vezes é a resposta mais eloquente.

Integre o jejum numa vida equilibrada de disciplinas espirituais. Combine-o com adoração, serviço e comunhão cristã.

Oração – Oremos

Senhor, perdoa nossa mentalidade transacional que tenta barganhar contigo. Ensina-nos a jejuar com fome genuína de Tua presença. Concede-nos domínio próprio para nos abstermos do bom pelo melhor. Que nossa disciplina espiritual brote de amor, não manipulação. Em nome de Jesus, amém.

Perguntas para Reflexão

  1. Como posso distinguir entre jejuar para buscar intimidade com Deus versus jejuar para negociar com Ele?
  2. Que vícios modernos (tecnologia, entretenimento, redes sociais) poderiam beneficiar minha vida espiritual se eu jejuasse deles regularmente?
  3. Existem decisões em minha vida onde estou esperando resposta divina que a Bíblia já forneceu claramente?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

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