VOCÊ NÃO É CRISTÃO SE AMA SUAS COISAS

Quando as suas coisas ocupam o trono de Deus

1 João 2.15. “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.”

A corrente invisível

Existe uma prisão que não tem grades visíveis, mas que aprisiona com mais eficiência do que qualquer cela de cadeia. Ela não aparece nos balanços patrimoniais, não é descrita nos contratos de seguro e raramente é confessada nos cultos de domingo, mas a Palavra de Deus a chama pelo nome preciso: idolatria do coração. O apóstolo João é direto: “Não ameis o mundo.” A pergunta que esse versículo planta no coração é perturbadora: seria possível frequentar a igreja, cantar hinos, orar antes das refeições e ainda ter o coração preso às coisas deste mundo?

A idolatria moderna se disfarça com sofisticação. Ela não exige altares de pedra nem incenso aceso; basta uma conta bancária que nunca parece suficiente, um apartamento que define identidade, uma carreira que dita o ritmo da existência. O coração humano é uma fábrica eterna de ídolos” e essa produção em larga escala não cessa quando alguém faz uma oração de compromisso ou assina uma ficha de membro. Ela só cessa quando a graça de Deus reorienta radicalmente o centro da vida do crente.

Preso na garganta do desfiladeiro

Era um sábado frio de maio de 2003 quando o alpinista Aron Ralston desceu sozinho pelo Blue John Canyon, nos desertos remotos de Utah. Experiente, confiante e equipado, Ralston não havia dito a ninguém onde estava indo, um detalhe que quase custou a vida. Uma pedra arredondada de 400 quilos rolou de forma inesperada e aprisionou seu braço direito contra a parede da garganta sinuosa. Por cinco dias, ele lutou, esperou, orou e tentou, até que, na quinta-feira, com o corpo desidratado e a mente lúcida sobre a proximidade da morte, ele tomou a decisão mais dolorosa de sua vida: amputar o próprio braço com um canivete cego e um alicate, para sair vivo.

Podemos aprender algo com essa história dramática: “há momentos em que a sabedoria nos cobra o sacrificar de algo extremamente valioso, mesmo que, em outras circunstâncias, seja algo bom.” O jovem rico do Evangelho de Lucas estava preso da mesma forma, não por uma pedra, mas por sua riqueza. E a ironia trágica é que, diferente de Ralston, ele não realizou o corte. Ele foi embora, e o texto registra com sobriedade desconcertante que estava “muito triste”, escravo voluntário de um ídolo que prometia liberdade e entregava cativeiro.

Existe algo aprisionando o seu coração neste momento? Você tem tido coragem de reconhecer?

O dinheiro e as posses são bons, mas podem ser mortais

João Calvino, nas Institutas, reconhece que os bens materiais são dádivas legítimas da providência divina, destinadas a serem recebidas com gratidão. O erro não consiste em possuir; consiste em ser possuído, o dinheiro e as posses “são dádivas de Deus a serem desfrutadas” e que ” fazer uso do dinhiero de forma responsável e generosa não é pecado.” O perigo, contudo, é que o mesmo ouro que pode ser instrumento de generosidade pode tornar-se, com uma sutil reviravolta do coração, o substituto de Deus, aquele a quem recorremos quando queremos segurança, identidade e controle sobre o futuro.

A parábola do rico insensato em Lucas 12 não condena a colheita abundante, mas condena a autonomia que a prosperidade pode gerar. O homem que destruiu seus celeiros para construir outros maiores não praticou fraude — praticou autoconfiança absoluta, excluindo Deus de seus planos. “Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12.20). A riqueza funcionou, nessa parábola, como anestesia: entorpeceu a percepção da necessidade mais urgente e eterna, fazendo o homem prosperar para o túmulo.

A idolatria se disfarça de prudência

A idolatria do coração raramente se apresenta como tal. Ela adota o vocabulário respeitável da prudência financeira, da segurança familiar, do planejamento responsável. Herman Bavinck, em sua monumental Dogmática Reformada, observou que o pecado possui uma capacidade singular de se camuflar sob aparências de virtude, porque opera sempre no interior de bens reais e desejos legítimos. É exatamente por isso que o amor pelo dinheiro é tão perigoso: ele se instala nos bens genuínos, casa, educação dos filhos, reserva de emergência e expande seu domínio de forma invisível até que a preocupação com a segurança financeira supere a confiança em Deus como provedor soberano.

É nesse ponto que a palavra de João adquire seu peso cirúrgico: “Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.” O verbo “amar” (grego: agapáō) não descreve um afeto superficial ou uma preferência casual, descreve o amor de orientação, aquele amor que organiza as prioridades, define as escolhas e determina o que se sacrifica quando os valores entram em conflito. A questão não é o que você diz amar; é o que você serve quando a crise revela o que está em seu coração.

O custo do discipulado e a exigência radical de Jesus

Jesus, em Mateus 5.29-30, recorre a uma hipérbole deliberadamente perturbadora: se o olho te faz pecar, arranca-o; se a mão te faz pecar, corta-a. O ponto não é a mutilação literal, mas a disposição radical de remover qualquer obstáculo ao Reino. Seguir a Jesus requer estar “disposto a sacrificar tudo para ter Jesus como seu Senhor.” Não é possível servir a dois senhores a formulação de Lucas 16.13 é categórica. O dinheiro não é neutro na disputa pelo coração humano; ele faz promessas, oferece identidade, constrói narrativas de salvação alternativas.

Dietrich Bonhoeffer, o teólogo que provou com a própria vida o custo do discipulado, escreveu que “quando Cristo chama um homem, ele ordena que este venha e morra.” Essa morte não é o fim da história, mas o portal para ela. As parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor (Mateus 13.44-46) revelam que o homem que vende tudo não o faz com a expressão contorcida de quem perde, mas “transbordante de alegria.” O sacrifício é real, mas não é uma tragédia é a troca mais racional que um ser humano pode fazer: coisas que não podem durar, por um Reino que não pode ser abalado.

A trajetória do coração transformado

O evangelho não exige perfeição imediata; exige uma nova trajetória. O cristão genuíno não necessariamente já vendeu tudo, mas possui um coração progressivamente reorientado para usar as posses nos propósitos de Deus ao invés de acumulá-las para a glória própria.

Isso significa que a pergunta correta não é apenas “você é dízimista?” mas “em que direção seu coração está se movendo?” Lucas 12.34 é a chave interpretativa: “onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” O coração segue o tesouro. Portanto, a generosidade não é apenas um ato de obediência, é uma disciplina espiritual que reorienta o coração, quebrando progressivamente a força gravitacional das posses e firmando a fé no Deus que supre.

A direção do seu coração em relação ao dinheiro revela a direção da sua fé e é possível que ela precise de uma correção de rota?

Conclusão — A pérola que vale tudo

Em 1949, Jim Elliot, o missionário que seria martirizado seis anos depois pelos índios Huaorani no Equador, escreveu em seu diário: “Não é tolo aquele que abandona o que não pode guardar para ganhar o que não pode perder.”Ralston deixou seu braço preso na parede do desfiladeiro e voltou a escalar montanhas. O jovem rico do Evangelho foi embora com todas as suas posses e sem o único tesouro que realmente importava.

A idolatria do coração é, em última análise, uma questão cristológica: quando Cristo ocupa o trono afetivo que pertence a Ele, as coisas encontram o seu lugar legítimo, nem desprezadas, nem idolatradas, mas recebidas com gratidão e usadas com generosidade. Cristo é a resposta não apenas para a culpa do coração idólatra, mas para o seu esvaziamento e renovação. É Ele que “graciosamente expõe nossos falsos amores” e estende “sua graciosa salvação a qualquer um que queira servi-Lo.”

Se Cristo é o tesouro de valor incomparável, o que ainda está te impedindo de negociar tudo por Ele?

E agora, como viveremos?

A resposta prática ao diagnóstico de João não começa com uma reforma do orçamento, começa com uma reforma do coração. A Bíblia instrui em 1 Timóteo 6.17-18: “Ordena aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança nas incertezas das riquezas, mas em Deus… que sejam ricos em boas obras, generosos e dispostos a repartir.” Note a sequência: primeiro a esperança é recolocada (de riquezas para Deus), depois a generosidade flui como consequência.

Identifique uma área em que o amor pelas posses tem funcionado como freio ao seu discipulado: a generosidade que você adiou, o ministério que não apoiou, o desconforto financeiro que não aceitou por amor ao evangelho. Não se trata de heroísmo; trata-se de coerência, a coerência que nasce de um coração que encontrou, em Cristo, um tesouro que não enferruja.

A trajetória cristã não exige que você chegue amanhã onde Zaqueu chegou naquele almoço histórico com Jesus. Mas exige que você esteja em movimento, que o dinheiro vá progressivamente cedendo o trono do coração ao Senhor que o comprou com o próprio sangue.

7. Oremos

Senhor e Deus nosso, confessamos diante de Ti que nosso coração é uma fábrica incansável de ídolos. Com frequência temos chamado prudência ao que é, na verdade, desconfiança da Tua providência; temos chamado planejamento responsável ao que é, em muitos casos, amor encoberto pelas coisas deste mundo. Perdoa-nos, Senhor. Arranca do centro do nosso coração tudo aquilo que ocupa o lugar que pertence somente a Ti. Que a cruz de Cristo fale mais alto do que a voz sedutora das posses. Que a ressurreição do Teu Filho nos lembre que há um tesouro que não apodrece, não enferruja e não desaparece. Torna-nos generosos, não por obrigação religiosa, mas porque encontramos em Cristo uma riqueza que não pode ser mensurada nem perdida. Em nome de Jesus, que sendo rico Se fez pobre para que, pela Sua pobreza, nos tornássemos ricos. Amém.

Perguntas para reflexão

1. Se alguém analisasse seus extratos bancários dos últimos seis meses sem saber quem você é, que conclusões tiraria sobre o que você mais valoriza na vida? Essa conclusão corresponderia à sua confissão de fé?

2. “A grande maioria não possui coisas; é possuída pelas coisas.” Em que área específica da sua vida você percebe que as posses têm mais controle sobre você do que você sobre elas?

3. O jovem rico foi embora triste porque “era riquíssimo” (Lucas 18.23). O que em sua vida ocupa o lugar que suas riquezas ocupavam no coração dele e que você ainda reluta em colocar nas mãos de Jesus?

4. Bonhoeffer disse que “quando Cristo chama um homem, ele ordena que este venha e morra.” Você consegue identificar uma área concreta em que ainda não aceitou essa morte e que pode estar indicando que o coração ainda não foi plenamente rendido?

5. A “trajetória” cristã em relação ao dinheiro aponta para uma generosidade progressiva. Que passo específico, pequeno ou grande, você poderia dar esta semana para avançar nessa trajetória não por culpa, mas por amor àquele que deu tudo por você?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

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