2 Coríntios 13.5. “Examinai-vos a vós mesmos, para ver se permaneceis na fé; provai-vos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? A menos que, de fato, sejais reprovados.”
A Pergunta que Ninguém Quer Fazer
Existe uma pergunta que habita os corredores de quase todas as igrejas evangélicas, mas que raramente é feita em voz alta — não porque seja irrelevante, mas precisamente porque é a mais relevante de todas. Ela é desconfortável exatamente na proporção em que é urgente: eu sou, de verdade, cristão? A maioria das pessoas que frequenta um templo responderia “sim” com a velocidade de quem recita o endereço de casa — sem hesitação, sem reflexão e, muitas vezes, sem nenhuma evidência real que sustente a resposta. Paulo, porém, não deixa espaço para essa confortável imprecisão. Em 2 Coríntios 13.5, ele não sugere uma autoanálise; ele ordena um autoexame. O verbo grego peirazo — “provai-vos” — é o mesmo usado para descrever a prova do metal no fogo: não uma inspeção superficial, mas um teste que revela a substância real.
A questão, contudo, não pode ser respondida com um olhar para o passado — para a data de um batismo, para a memória de uma oração repetida num acampamento de jovens, para o fato de ter crescido numa família cristã. Mike McKinley, ao longo do capítulo que inspira esta pastoral, é preciso nesse ponto: “a pergunta importante não é ‘eu já professei fé em Cristo no passado?’, mas sim, ‘estou confiando em Cristo neste momento para a minha salvação?'” O passado pode ser evidência; jamais pode ser fundamento. O fundamento é outro — e ele é muito mais sólido do que qualquer momento biográfico.
Se alguém lhe pedisse hoje evidências de que você é cristão — não memórias, mas evidências presentes —, o que você mostraria?
O Sacerdote que Não Era Cristão
Em 1738, John Wesley era uma das figuras religiosas mais conhecidas da Inglaterra. Filho de sacerdote anglicano, ele próprio ordenado, fundador do movimento metódico, missionário que havia atravessado o Atlântico para pregar nas colônias americanas, Wesley tinha um currículo religioso que pouquíssimos ousariam questionar. E ainda assim, por seu próprio testemunho posterior, ele não era cristão. Ele confiava na sua própria bondade como moeda de troca com Deus, acreditando que seu desempenho religioso o tornaria aceitável diante de um Deus santo. A missão nas Américas fracassou. Wesley voltou à Inglaterra derrotado, confuso e vazio, o homem mais metódico da cristandade britânica, sem a única coisa que importava.
Então, numa noite de maio de 1738, numa reunião em Aldersgate Street, enquanto alguém lia o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos, algo aconteceu que nenhuma disciplina religiosa havia conseguido produzir. O próprio diário de Wesley, registra: “Senti meu coração ficar estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo somente para a salvação; e uma segurança me foi presenteada de que ele havia removido meus pecados.” Décadas de religiosidade impecável não haviam dado a Wesley o que dez minutos de graça revelada lhe concederam: a segurança de que pertencia a Cristo não pelos seus méritos, mas pelos méritos do filho de Deus. Mark Noll, em Pontos de Virada: Momentos Decisivos na História do Cristianismo, identifica esse momento como um dos pontos de inflexão mais significativos do protestantismo do século XVIII, não porque Wesley se tornou mais religioso, mas porque deixou de confiar na religião.
Qual o fundamento da sua segurança na salvação, a obra de Cristo ou o seu próprio currículo espiritual?
O ALICERCE E AS EVIDÊNCIASS DA SEGURAÇA GENUÍNA
O único alicerce: Cristo, e não você
Antes de examinar as evidências da fé genuína na própria vida, é necessário fixar com precisão cirúrgica onde a segurança da salvação repousa, porque esse ponto é onde a maioria dos crentes tropeça. A segurança não repousa nas evidências; repousa em Cristo. As evidências confirmam; Cristo salva. Essa distinção não é preciosismo teológico, é a diferença entre um fundamento que sustenta e um que desmorona na primeira tempestade de dúvida.
“A fé e o amor do crente possuem seu fluxo e refluxo. Estão sujeitos a todo tipo de flutuação, mas a segurança do crente repousa na fidelidade de Deus… É na determinabilidade e na estabilidade dos dons de Deus que nossos corações descansam, se não estiverem sendo impelidos de um lado para o outro pelos humores inconstantes ou pela temperatura de nossa experiência.”
John Murray, Os escritos completos de John Murray, vol. 2, Banner of Truth, 1977, p. 270-271
Nossa certeza está baseada em um alicerce cristológico: o caráter de Cristo – aquele que não esmagará a cana quebrada nem apagará a torcida que fumega (Isaías 42.3); a obra consumada de Cristo – cuja justiça perfeita se torna a nossa diante de Deus (2 Coríntios 5.21); e as promessas de Cristo – que garantem que ninguém que vem a Ele será lançado fora (João 6.37) e que nenhuma criatura poderá separar o crente do amor de Deus (Romanos 8.38-39). Esses três pilares não variam com o humor do crente, com a temperatura da sua devoção ou com a gravidade do seu fracasso mais recente. B.B. Warfield, ao analisar a doutrina da perseverança dos santos, observou que a permanência do crente em Cristo não é sustentada pela força da fé do crente, mas pela fidelidade do Deus que prometeu e que prometer, para Deus, é garantir.
Fé em Cristo hoje
Paulo ordena o autoexame em 2 Coríntios 13.5, e o autor de Hebreus oferece o primeiro critério de avaliação: “nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos” (Hebreus 3.14). A fé salvadora não é um acontecimento obscuro do passado que precisa ser descoberto de novo e de novo é uma realidade presente a ser exercida agora. A pergunta não é “eu já confessei fé em Cristo?”, mas “estou confiando em Cristo agora, neste momento, para a minha salvação?” Se a única evidência disponível é um cartão assinado num culto bem emocional há vinte anos atrás, sem nenhum fruto presente que a acompanhe, obiviamente algo está errado.
Isso não significa que a dúvida invalida a fé, significa que a fé genuína persevera. R.C. Sproul, em suas reflexões sobre a segurança da salvação, distinguiu com precisão entre a dúvida que questiona e a apostasia que abandona: o crente genuíno pode lutar com incertezas, mas não foge de Cristo, ele luta em direção a Cristo, mesmo quando as emoções não o acompanham. A pergunta não é “você sente que é salvo?”, mas “você está confiando em Cristo?”
O Espírito e a obediência
A presença do Espírito Santo na vida do crente não é abstrata, ela deixa marcas. Paulo nos apresenta três elementos: a fé em Cristo (ninguém pode dizer “Senhor Jesus” senão pelo Espírito – 1 Coríntios 12.3); o fruto do Espírito visível na vida (amor, alegria, paz, longanimidade – Gálatas 5.22-24); e o testemunho interior do Espírito com o espírito do crente, produzindo o clamor filial “Aba, Pai” (Romanos 8.14-16). Nenhum desses elementos é perfeito ou absoluto isoladamente, mas a presença consistente dos três oferece uma evidência sólida de que o Espírito habita aquela vida.
A obediência à Palavra de Deus complementa esse quadro. Precisamos ser cuidadosos em não estabelecer a perfeição como critério, “não deveríamos imaginar que guardaremos a lei de Deus de forma perfeita”, mas devemos observar a trajetória do crente como evidência decisiva: as pessoas que nos conhecem diriam que somos, em linhas gerais, marcados pela obediência a Deus? A Palavra deixou de ser um fardo e passou a ser, como para Davi, mais doce que o mel (Salmo 19.10)? Essa transformação afetiva em relação à Escritura é um dos sinais mais confiáveis da operação genuína da graça regeneradora.
Como Iô-iô escada acima
A vida cristã se parece com um iô-iô, sobe e desce, sobe e desce, com oscilações que podem ser desanimadoras no dia a dia. Mas há um detalhe que transforma completamente a imagem: é um iô-iô nas mãos de alguém que está subindo escadas. Os altos e baixos continuam presentes, mas o movimento geral é de subida. Os “pontos baixos” de hoje são mais altos do que os “pontos altos” de dez anos atrás.
Wayne Grudem, em sua Teologia Sistemática, explica que o crescimento na santificação não é linear nem constante, é orgânico e progressivo, com avanços e recuos, mas com uma direção geral inequívoca para quem pertence genuinamente a Cristo. A pergunta correta, portanto, não é “estou sendo perfeito agora?”, mas “estou diferente do que era cinco anos atrás?” Não em todos os aspectos, não igualmente em todas as áreas, mas de forma geral e reconhecível tanto por você quanto pelos que vivem ao seu lado. Esse padrão de crescimento, mesmo imperfeito, mesmo lento, mesmo marcado por fracassos é uma das evidências mais confiáveis de que a graça está operando.
Descanse no amor que não vacila
John Wesley sacerdote, missionário, um homem metódico, sentindo o coração “estranhamente aquecido” numa reunião noturna em Londres. Não foi um sermão que ele pregou, mas um sermão que ele ouviu. Não foi uma obra que ele realizou, mas uma graça que ele recebeu e a segurança que recebeu naquela noite não era a segurança de que havia sido bom o suficiente era a segurança de que Cristo havia sido bom por ele.
Agostinho de Hipona, nas Confissões, descreveu o coração humano como constitutivamente inquieto até repousar em Deus. A segurança da salvação não é a ausência de luta, nem a ausência de dúvida, nem a ausência de fracasso é o repouso do coração naquele cujo caráter é misericordioso, cuja obra é consumada e cujas promessas são invioláveis. O crente genuíno não descansa na perfeição da própria fé; descansa na perfeição daquele em quem crê. João resumiu isso com a precisão de quem conhecia o peito de Cristo: “Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna” (1 João 5.13). A segurança é possível pra todo aquele que, examinando a própria vida, encontra mesmo que pequenos, mesmo que frágeis, os sinais de que Cristo está operando nele.
A questão não é se você é perfeito. A questão é: de quem você está dependendo para ser aceito por Deus de você mesmo, ou de Cristo?
E Agora, Como Viveremos?
O imperativo de Paulo em 2 Coríntios 13.5 não é uma ameaça; é um presente. O autoexame que ele ordena não é um tribunal de condenação, mas uma consulta médica e a diferença entre as duas é que o médico examina para curar, não para sentenciar. A aplicação prática começa, portanto, com a disposição de fazer o exame honestamente, sem o filtro protetor da autojustificação e sem o exagero paralisante da autocondenação.
Olhe para o todo da sua vida espiritual, não apenas para o momento presente. Você tem fé em Cristo hoje não apenas uma memória de fé, mas uma confiança ativa e presente? Você consegue identificar a presença do Espírito nas marcas de fruto em sua vida: amor, paciência, bondade, domínio próprio, mesmo que incompletos? Sua obediência à Palavra de Deus tem sido a trajetória geral da sua vida, mesmo que marcada por quedas? Você consegue olhar para os últimos cinco anos e reconhecer que, a despeito dos fracassos, a direção geral foi ascendente?
“Aproximemo-nos com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência.” A aproximação de Deus não é o destino de quem já chegou à perfeição é o movimento de quem confia na perfeição de Cristo. Se os sinais estão presentes, mesmo que pequenos, descanse no amor de Deus. Se os sinais estão ausentes, hoje é o dia de voltar os olhos para Cristo e pedir que Ele mude o coração. Em ambos os casos, o caminho passa pela mesma porta: não pelo seu desempenho, mas pela graça daquele que prometeu não lançar fora nenhum que a Ele venha.
Oremos
Pai eterno, Tu nos ordenas que nos examinemos e confessamos que temos medo do que o exame pode revelar. Temos confundido a data do batismo com a certeza da salvação, a frequência à igreja com a fé genuína, a ausência de pecados grosseiros com a presença de graça transformadora. Perdoa-nos, Senhor. Ensina-nos a encontrar a nossa segurança não no que fizemos, mas em quem Tu és: fiel para perdoar, poderoso para guardar, incapaz de lançar fora aquele que vem a Ti. Onde os frutos do Espírito ainda são pequenos, faze-os crescer. Onde a obediência tem sido inconstante, renova a nossa disposição. Onde a fé tem vacilado, firma-nos naquele que não vacila. Que o nosso coração, como o de Wesley, seja aquecido pela graça não a graça que nos deixa como estávamos, mas a graça que nos transforma à imagem do Filho. E que a segurança que encontramos não seja a segurança de quem é bom o suficiente, mas a segurança de quem sabe que Cristo é suficiente por ele. Em nome de Jesus, que se tornou pecado para que nós nos tornássemos justiça de Deus n’Ele. Amém.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
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Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!
