Cânticos 8:7. “As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios, afogá-lo. Ainda que alguém oferecesse todos os bens da sua casa para comprar o amor, receberia em troca.”
“Quando o ego se torna o centro da nossa vida, o amor deixa de ser uma força de transcendência e passa a ser um obstáculo e essa inversão não é apenas uma tragédia, é uma rebelião contra a própria natureza de Deus, o amor.”
Trocamos auto sacrifício pelo ego
Há uma cena em La La Land que sintetiza com precisão desconcertante o estado do amor nos dias atuais. Sebastian e Mia, dois artistas apaixonados, sem traição, sem guerra, sem família adversária, se separam. Não porque o destino foi cruel. Não porque uma causa maior exigiu o sacrifício de seu relacionamento. Eles se separam porque cada um escolheu a própria carreira e o mais revelador não é a separação em si: é que, na fantasia final do filme, quando imaginam como teria sido se tivessem ficado juntos, nenhum dos dois teria feito diferente. O amor estava lá, mas suas carreiras eram mais importantes.
Cantares 8.7 foi escrito para um mundo diferente: “As muitas águas não podem apagar o amor, nem os rios o afarão. Se alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, ele seria completamente desprezado.” O amor cantado ali é uma força que resiste as adversidades, além de ser algo que não se compra, não se negocia e não cede diante do custo. É um amor que enfrenta o externo com coragem e o interno com renúncia. Mas o que a cultura contemporânea tem celebrado, nas telas e na vida real, é precisamente o inverso: um amor que cede diante do preço, que perde para o cálculo, que se dissolve quando a carreira aparece na mesma frase.
Talvez você seja alguém que não acredita mais, talvez nunca tenha acreditado em amor, romance ou caamento. O que isso revela sobre você?
Agora o obstáculo está dentro de nós
Durante séculos, as grandes histórias de amor tinham uma base muito sólida: dois amantes, uma força externa que os separava e o amor como a potência capaz de resistir ou morrer tragicamente diante dessa força para salvar a pessoa amada. Jaroslav Pelikan, ao traçar o desenvolvimento da teologia do amor na tradição cristã, observou que “o amor, na visão cristã clássica, não é um sentimento que acontece ao ser humano, mas uma orientação da vontade em direção ao bem do outro” (Jaroslav Pelikan, The Christian Tradition, University of Chicago Press, 1971, Vol. 1, p. 293). Em Romeu e Julieta, o obstáculo são as famílias. É exatamente essa orientação da vontade, esse amor como escolha ativa, não como emoção passiva, que os grandes romances clássicos celebravam e que os temporários relacionamentos atuais já não conseguem sustentar.
Em Casablanca, Rick renuncia a Ilsa não porque o amor acabou, mas porque uma causa de proporções incalculáveis exige este sacrifício. A resistência ao nazismo, a preservação de vidas concretas, o peso de uma guerra real.




Elizabeth Bennet e Mr. Darcy (Orgulho e Preconceito), Scarlett O’Hara e Rhett Butler (…E o Vento Levou), Romeu e Julieta (William Shakespeare) e Ilsa Laszio e Rick Blaine (Casablanca).
Todas essass estórias e muitas outras, defendiam a ideia de que o amor é uma força gigantesca capaz de enfrentar todo tipo de adversidade externa. Que duas pessoas unidas por um amor genuíno representam um laço tão forte que apenas algo de proporções monumentais pode quebra-lo e quando isso acontece, a tragédia tem grandeza porque o amor tinha grandeza.
No filme La La Land de 2016 o caal de protagonista, Mia e Sebastian o obstáculo do amor não é mais um inimigo do lado de fora. O adversário por excelência do amor não é mais a guerra, a família, a classe social ou o destino, é o ego, aqui nesta história travestido de carreira. O projeto de autodesenvolvimento que não admite estar abaixo de nenhum outro afeto. Quando o obstáculo é interno o campo de batalha é outro, a natureza do conflito muda, porque agora não é o amor contra o mundo, é o amor contra a própria pessoa.

O cinismo que nasceu do divórcio e a geração que não sabe permanecer
A mudança que La La Land reflete não emergiu do nada, ela tem raízes muito difíceis de se identificar. A partir da segunda metade do século XX, com um aumento acentuado nas décadas de 1960 e 1970, o Ocidente viu as taxas de divórcio subirem de forma consistente e, com elas, uma geração inteira cresceu vendo que o amor, ao menos o amor como havia sido prometido, não durava. Os filhos do divórcio aprenderam, não por instrução mas por experiência doméstica, que relacionamentos terminam, que a aliança é frágil, que a permanência dos laçõs matrimôniais era uma ilusão estatisticamente provável.
O resultado disto é uma forma específica de cinismo: não o cinismo que nega o amor, mas o cinismo que o trata como investimento de risco. A carreira por sua vez é um ativo “seguro”, ela permanece quando conjuge vai embora. O amor é volátil, pode acabar a qualquer momento e, se você sacrificou a carreira por ele, pode acabar sem nada. É claro que existem histórias assim, a grande maioria de nós conhece várias delas, algumas em nossos circulos de amizade ou familiar. O problema com essa lógica é que ela exclue por completo a dimensão da aliança, do compromisso como ato de vontade e da confiança como fundação possível, ainda que custosa.
C. S. Lewis, ao distinguir os tipos de amor, identificou com precisão o problema: “Eros, que começa a ser tratado como um deus, torna-se um demônio” (C. S. Lewis, Os Quatro Amores, Thomas Nelson Brasil, 2017, p. 113). O amor que depende apenas de sentimento e não de escolha, de aliança, de compromisso sustentado pela vontade está sempre à mercê de sua própria fragilidade. Quando o sentimento diminui, o amor desaparece e uma geração que só conhece amor como sentimento não tem ferramentas para construir um amor baseado em decisão, compromisso, aliança.
O Autodesenvolvimento Como Ídolo e a Gramática da Ceder Que Desapareceu
Me diga se já ouviu algo assim:
- Você tem um potencial a ser realizado, um projeto de vida a ser executado;
- Você precisa alcançar a melhor versão de si mesmo;
- Você é a semente de uma árvore que ainda não tocou o céu.
- Você precisa correr atras de seus sonhos;
- Você é uma obra-prima em rascunho, aguardando a própria maestria.
- Há um silêncio em sua alma que só será preenchido pelo som da sua própria realização.
- Há um lugar no mundo que possui o formato exato da sua melhor versão.
Nessa narrativa, qualquer coisa que atrapalhe essa trajetória é um obstáculo, quanto mais você absorve esse pensamento o outro perde cada vez mais espaço em sua vida. O amor, por natureza, torna-se um impecilho porque exige atenção dividida, planos negociados, sonhos relativizados, espaço cedido.
O problema com esse discurso é que ele coloca o ego no controle, quando o autodesenvolvimento ocupa esse lugar, o ceder passa a parecer não apenas inconveniente, mas errado, uma traição de si mesmo e sem a capacidade de ceder, nenhum relacionamento permanece e alguém sempre terá que ceder. Não como sinal de fraqueza, mas como condição de possibilidade para que dois projetos de vida se tornem um. Quando ninguém quer ceder, porque ceder foi redefinido como sendo rendição, o laço que antes unia vai ser rompido. Não por falta de amor, mas por excesso de ego.
O que resta quando o amor não tem grandeza?
Em Casablanca, o sacrifício de Rick tem grandeza porque o amor tinha grandeza. A renúncia é possível de se compreender e até de se admirar porque o que está sendo enfrentado, a guerra, as vidas em jogo, a causa justa, é genuinamente maior do que os dois indivíduos. O amor não perde para o ego; ele se sacrifica pela a humanidade e então ficamos admirados com a nobreza daquela trágédia.
Em La La Land, Sebastian e Mia perdem para si mesmos. Não há uma Guerra Mundial, nem vidas pra salvar. Há carreiras, projetos pessoais e medo de não chegarem onde queriam. Estamos diante de uma geração onde muitos ja sabem que perderam algo precioso, mas não conseguem entender exatamente o quê, porque não entendem a linguagem do sacrifício, da aliança e da grandeza de construir a vida ao lado de alguém.
O Cântico dos Cânticos não é ingênuo sobre o desejo, ele celebra a atração física com uma franqueza que chega a surpreender leitores modernos. Mas o amor que ele canta é fundamentalmente diferente do amor que La La Land retrata: é um amor que enfrenta, que resiste, que não se negocia. “As muitas águas não podem apagar o amor” (Ct 8.7) não é uma frase de efeito é uma afirmação sobre a natureza de um amor em sua essência, um amor que vai além do cálculo, que não se reduz a uma relação de risco-benefício, que permanece quando o sentimento é incerto porque está fundado em algo maior do que o sentimento.
Será que o amor ainda pode vencer?
Seria ingênuo propor um retorno a nostálgia romântica do passado, a crise do amor na atualidade tem raízes reais, no divórcio em massa, na instabilidade econômica, na entrada necessária das mulheres no mercado de trabalho, na solidão estrutural que o individualismo produz. Nada disso é resolvido apenas admirando antigas histórias de amor.
Mas a resposta cristã também não é um mero diagnóstico cultural. É, antes de tudo, uma proposta de fundamento diferente. O amor que o Evangelho oferece não é um sentimento mais intenso nem uma técnica de relacionamento mais eficaz (12 dicas de amor para um relacionamento mais forte), é uma reorientação da vontade que só é possível porque Deus amou primeiro, e porque esse amor foi demonstrado não em sentimento, mas em sacrifício. A cruz não é um símbolo de autodesenvolvimento, é o oposto disso, é a imagem de alguém que cedeu tudo por amor ao outro. Esse é exatamente o padrão, entregar, ceder, sacrificar, que o casamento cristão foi concebido para encenar dentro da historia de um homem que se une a sua esposa. O amor de Cristo pela humanidade é a base do amor entre um homem e uma mulher: “Maridos, que cada um de vocês ame a sua esposa, como também Cristo amou a igreja e se entregou por…”
Em uma cultura onde o ego ganhou e o amor perdeu, você está disposto a ser a anomalia, a pessoa que ainda acredita que ceder não é fraqueza, que o amor pode vencer o ego, e que a aliança é mais real e mais durável do que qualquer carreira?
Enquanto o cinema reflete o cinismo que existe, o Evangelho anuncia uma história diferente.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
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Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!
