Gênesis 1.31–2.3. “Deus viu tudo o que havia feito, e era muito bom… Assim os céus e a terra foram completados… E no sétimo dia Deus completou a sua obra que havia feito, e descansou no sétimo dia de toda a sua obra. E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou.”
O descanso que Deus santificou na criação não é ausência de atividade — é plenitude de presença; e a família que aprende a parar junto está praticando a mais antiga liturgia do cosmos: contemplar, deleitar-se e reconhecer que o Senhor é bom.
Abraham Heschel, teólogo judeu do século XX, escreveu que “…o tempo é o coração da existência.” Nós conquistamos cada centímetro de nossas agendas, preenchemos cada segundo com alguma distração, pois o silêncio parece nos apavorar e exatamente por isso estamos exaustos, não de trabalho apenas, mas de vivermos de forma fragmentada. Sempre fazendo uma infinidade de coisas, sempre falando com uma multidão de pessoas. O primeiro ato sagrado da história não foi um templo construído, um altar erguido ou um sermão pregado. Foi um dia parado: “E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou”. Quando foi a última vez que sua família parou de verdade?
Gênesis 2.1-3 é o coroamento do prólogo da criação. Nos seis dias anteriores, Deus criou todas as coisas pelo poder de sua palavra e disseque tudo era muito bom. No sétimo, ele cessa. O hebraico šābat não significa dormir nem se isolar, significa cessar intencionalmente. O detalhe literário mais eloquente do texto é a ausência da fórmula “foi a tarde e foi a manhã” no sétimo dia. Os seis dias têm fechamento. O sétimo permanece aberto, como um convite que não termina, mas permanece. Por que Deus santificou um dia antes de qualquer templo, altar ou lei escrita?
O descanso de Deus em Gênesis 2 não é ausência de atividade, é contemplação. “Viu tudo o que havia feito, e era muito bom” (1.31). Ele parou para admirar a obra de suas mãos, para deleitar-se. O mesmo Deus que diz “alegra-te com a mulher da tua juventude” (Pv 5.18) e que ordena ao pai falar com o filho “assentado em casa e andando pelo caminho” (Dt 6.7) é o Deus que primeiro parou para contemplar o que ama.
“A guarda do sábado expressa o compromisso do homem para com o serviço do Senhor. Todo sétimo dia os israelitas renunciam à sua autonomia e afirmam o domínio de Deus sobre si.” Meredith Kline, Comentário do Antigo Testamento — Gênesis, Série Cultura Cristã, p. 87.
Kline ilumina o texto: parar não é fraqueza é uma confissão de dependência e confiança. A família que não descansa juntas está, na prática, declarando que o mundo depende dela e essa crença é exatamente o terreno onde Satanás opera, porque a família exausta não contempla, não conversa, não cresce em Deu e não cresce uns com os outros. O Salmo 127 é preciso: “em vão vos levantais cedo e vos deitais tarde”, o trabalho sem limite não é virtude, é idolatria disfarçada de responsabilidade. A falta de descanso não é apenas desgaste físico; é vulnerabilidade espiritual. O lar que não para, não percebe quando o vinho está acabando, como em Caná, quando finalmente nota, já é tarde, o vinho já acabou. O descanso familiar não é pausa da vida cristã, é sua prática mais honesta: parar, olhar uns para os outros, e dizer com Deus: é muito bom.
O sétimo dia não tem “tarde e manhã”, permanece aberto. O convite de Deus ao descanso não expirou. Cristo o confirmou: “Vinde a mim… e eu vos darei descanso” (Mt 11.28). A família que aprende a parar junta não está perdendo tempo está praticando a liturgia mais antiga de toda a existência.
E agora, como viveremos? Aprenda guardar um tempo para sua família a cada semana, sem telas, sem agenda, sem produtividade. Sentem-se à mesa, conversem, brinquem, falem sobre as maravilhas de Deus e seus ensinamentos. “O Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.” (Êx 20.11, NAA) Essa bênção ainda está disponível para o lar que escolhe parar.
Oremos. Senhor, perdoa-nos por transformar em virtude o que é idolatria, a incapacidade de parar. Que este lar aprenda a contemplar o que tu criaste como bom: o cônjuge ao lado, os filhos à mesa, o silêncio partilhado, nos alegrando uns com os outros e todos contigo. Que nosso descanso aponte para Cristo, o verdadeiro sábado da nossa alma. Amém.
Pergunta para reflexão. Se Deus santificou o tempo antes de qualquer templo e se o sétimo dia permanece aberto como convite que não expira, o que impede sua família de entrar nesse descanso juntos e o que essa resistência revela sobre onde você tem buscado segurança?
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
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Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!
