HEROÍNAS DA FÉ – Víbia Perpétua

A convicção impressionante de uma mulher em seguir a Cristo. Saber que pertencemos ao Cordeiro gera em nós uma convicção que nos sustenta de pé quando tudo mais desmorona.

Filipenses 3.20. “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.”

No início do século III, o imperador Sétimo Severo proibiu novas conversões ao cristianismo e desencadeou uma das perseguições mais brutais da era romana. Em Cartago, no norte da África, cinco cristãos foram presos: a jovem nobre Vibia Perpétua, de vinte e dois anos, ainda mãe de um filho recém-nascido; os escravos Felicidade e Revocato; e os jovens Saturnino e Secúndulo.

Perpétua foi uma jovem nobre e mãe cristã que ficou famosa por sua coragem impressionante ao se recusar a abandonar sua fé, mesmo diante da morte e da perseguição do imperador romano da época. Enquanto estava presa, ela escreveu um diário que se tornou um dos relatos cristãos mais antigos feitos por uma mulher que se tem notícia.

O que leva uma jovem a sacrificar tudo por Jesus?

Perpétua havia dado à luz recentemente, mas quando foi presa, se viu separada de seu bebê e essa separação foi, talvez, a dor mais aguda de todo o processo. Por isso, a permissão de amamentá-lo na prisão tornou-se, para ela, um presente de Deus. A serva sincera e dedicada, condenada a ficar atrás das grades ainda era mãe. Porém, havia algo que ela era antes de ser mãe: era cristã. E essa identidade era o centro de sua existência.

Seu pai a visitava repetidamente, suplicando com lágrimas que ela tivesse compaixão de si mesma e de sua família. É importante que se diga que este argumento era compreensível e devastador: pense no seu filho, pense em nós, sobreviva, será que sua fé vale mesmo apena?. Diante de cada apelo, Perpétua respondia com a mesma serenidade inabalável: “Eu sou cristã e não posso ser outra coisa.” Sete palavras que sintetizavam uma convicção profunda de quem sabe que sua pátria não é deste mundo. Paulo havia escrito aos filipenses exatamente isso: a pátria do crente está nos céus. Perpétua não citou o apóstolo, mas viveu o versículo com uma fidelidade gigantesca.

No martírio a história toma um contorno que vai além da tragédia: torna-se liturgica (um gesto de adoração a Deus). Os mártires caminhavam para o anfiteatro, para os que foram assistir ao espetálo, aquelas pessoas demosntravam uma inesplicável paz e alegria em seus olhos. Perpétua seguia por último, a tranquilidade de sua alma transparecia no seu semblante, enquanto caminhava cantando. Não havia nela o peso da derrota, porque ela não entendia aquele momento dessa maneira. Era chegada a hora de encontrar aquele por quem ela aguardava, seu Salvador, o Senhor Jesus Cristo.

Diante do juiz, o grupo declarou que ele os julgava neste mundo, mas seria julgado por Deus na eternidade, palavra que enfureceu a multidão e lhes valeu açoites, recebidos com a mesma alegria de quem participa do sofrimento de Cristo. Lançados então às feras, o grupo foi pouco ferido. Pelo costume romano, os sobreviventes feridos seriam degolados no centro da arena. Assim, Perpétua, Felicidade, Revocato, Saturnino e Secúndulo levantaram-se, abraçaram-se, selaram com o ósculo santo da paz o seu martírio, e caminharam até onde o povo exigia sua morte, sem qualquer reação de desespero. Quando Perpétua percebeu que seu executor era inexperiente e suas mãos tremiam, ela mesma guiou a espada até o próprio pescoço, indicando-lhe o lugar do golpe. Nessa cena, mais do que em qualquer outra, vê-se o que significa viver como cidadã dos céus: nem mesmo o instrumento da própria morte conseguiu roubar-lhe a posse de si diante de Deus.

Não é difícil perceber por que Agostinho, dois séculos depois, se queixava de que o relato do martírio de Perpétua e Felicidade era lido na África com a mesma reverência das Sagradas Escrituras. A Igreja via, naquelas vidas entregues, a demonstração viva de que o evangelho é o poder de Deus para sustentar almas de carne e osso diante das portas da morte.

Conclusão

Quem tem sua pátria nos céus já não pertence, em última instância, a nenhum império, família ou medo terreno. A cidadania celestial não anula os afetos humanos, ela os ordena sob um Senhor maior. Por isso Perpétua podia amar o filho, chorar com o pai e ainda assim caminhar cantando. Por isso podia abraçar seus companheiros como quem se despede por breve instante.

E agora, como viveremos? Ponha-se no lugar de Perpétua. Se hoje, em meio a uma perseguição feroz, você fosse obrigada a escolher entre a fé em Cristo e a sua própria vida, o que escolheria? Ser cristã é o que define, antes de tudo, a identidade da discípula de Jesus. Antes de ser branca ou negra, brasileira ou estrangeira, médica ou faxineira, mãe ou filha, casada ou solteira, você é cristã, cidadã dos céus, poema de Deus, amada por Cristo. Tenha esta realidade sempre presente. Que ela a sustente para enfrentar qualquer perseguição, discriminação ou crítica sem abatimento, com a mesma coragem serena de Perpétua.

Oremos. Senhor, tu és a minha luz e a minha salvação, a quem temerei? Tu és a força da minha vida, de quem terei medo? Ainda que um exército se levante contra mim, o meu coração não temerá. Deus é o nosso refúgio e a nossa fortaleza, auxílio sempre presente na angústia. Por isso, não tememos. Sê a força do meu coração e a minha herança para sempre. Amém.

Para Refletir. O que a alegria visível de Perpétua no caminho para a morte revela sobre a natureza da esperança cristã? O que ela revela sobre a natureza da sua própria esperança?

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