ELE VEIO ILUMINAR NOSSA ESCURIDÃO

João 1:9–14. “Havia a luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina a todo ser humano. Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, a saber, os que creem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.”

A encarnação do Verbo é o ato pelo qual a luz eterna rompeu a noite do pecado, para que sejamos espelhos que refletem, em testemunho concreto, a graça do Salvador.

Há manhãs em que a escuridão parece mais densa do que de costume. Não a escuridão dos quartos fechados, mas aquela que habita por dentro, feita de culpa silenciosa, de perguntas sem resposta, de um cansaço que o sono não resolve. É exatamente nessa noite interior que a Palavra de Deus nos surpreende com um anúncio: o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

R.C. Sproul, em sua obra A Santidade de Deus (Editora Cultura Cristã, 2014, p. 25), observa que “o problema humano não é apenas ignorância, mas rebeldia, e somente uma luz que venha de fora pode penetrar essa escuridão interior.” João não está descrevendo uma iluminação filosófica, ele anuncia a invasão de graça, o Sol da glória de Deus veio nos visitar, o mundo entretanto que ele mesmo criou não o reconheceu.

O Prólogo de João

João não começa seu evangelho com um nascimento em Belém, nem faz menção de uma genealogia. Ele recua até antes do tempo, até o princípio (en arkhê) onde o Verbo já estava com Deus, a perfeita harmonia da Trindade. Essa abertura não é um mero recurso literário; é intensionalmente teológica. O mesmo Verbo que falou luz à existência na criação é agora aquele que vem como luz ao mundo (João 1:1–4). A encarnação é, portanto, um segundo ato criador de Deus, não para fazer mundos, mas para resgatar pessoas, para criar a salvação do homem eternamente condenado ao inferno.

Zacarias, transbordando do Espírito Santo, já havia profetizado esse momento com palavras que a Igreja nunca deveria esquecer, o Benedictus (Bendito): “o sol nascente que nos veio visitar lá do alto como luz resplandecente, a iluminar a quantos jazem entre as trevas e na sombra da morte estão sentados.” O texto de Lucas 1:68-79 e o prólogo de João 1:1-18 convergem no mesmo ponto: a iniciativa é inteiramente de Deus, ninguém convocou a luz ela veio voluntariamente a té nós.

Herman Bavinck, em sua Dogmática Reformada (Editora Cultura Cristã, 2012, vol. 3, p. 274), afirma que “a encarnação não é um plano de emergência divino, mas o desdobramento eterno de um propósito de amor que nunca esteve em dúvida.” A escuridão não surpreendeu a Deus e o sol da salvação não improvisou sua visita.

A Luz que veio a nós

Há uma distinção que João faz com precisão cirúrgica: Jesus não é uma luz entre outras — ele é a verdadeira luz. As religiões do mundo tentam, cada uma a seu modo, acender uma tocha no interior do ser humano. João, porém, não está descrevendo uma descoberta interior, está anunciando uma vinda de fora, da parte de Deus até nós.

O Benedictus celebra exatamente isso: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que a seu povo visitou e libertou.” Deus não enviou um programa, uma ideologia ou um código moral, enviou o prório Filho que se envolve em nossa vida, que não é ameçado por nossa escuridão, mas que nos contagia com sua luz: o Verbo se fez carne e habitou entre nós. A palavra grega para “habitou” (eskênôsen) significa literalmente “armou sua tenda” como Deus havia feito coom o povo de Israel no deserto ao levantar o tabernáculo e manifestar nele sua glória. Imagine ver pairando nos céus a nuvem da glória de Deus durante o dia, uma novem que a noite ardia em chamas. Essa mesma glória que habitava entre querubins agora habita em carne humana, ela está novamente entre os homens.

Contudo, observe a tragédia do versículo 11: “...os seus não o receberam.” A luz veio, a luz brilhou e nossos olhos criados para vê-la se fecharam. Isso é a condição da humanidade sem Deus, espiritualmente cega, morta em seus delitos e pecados.

A graça que nos dá direito

Mas o texto não para na recusa. João avança para o extraordinário: “a todos quantos o receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus.” A palavra “direito” (exousia) não tem haver com emoções e sentimentos, ela vem do ambiente jurídico. Não se trata de um sentimento de pertencimento, mas de uma mudança de status diante de Deus e João é categórico sobre a origem desse novo nascimento: “não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus.”

Isso é a doutrina da regeneração em sua forma mais cristalina. Ninguém se ilumina por si mesmo, ninguém acende sua própria luz espiritual. O Benedictus afirma com toda a clareza: “assim mostrou misericórdia a nossos pais, recordando a sua santa aliança.” A misericórdia é recordação fiel de uma promessa que Deus fez, não mérito que o homem conquistou. A graça, portanto, não é complemento à alguma capacidade que tenhamos para escapar da escuridão, pelo contrário a graça é substituição da incapacidade humana, venceremos não por nossos méritos, mas por uma ação poderosa e eficaz de Deus em nossa vida.

João Calvino, em sua obra As Institutas da Religião Cristã (Editora Cultura Cristã, 2006, Livro II, Capítulo II, Seção 12), escreve: “A vontade do homem, após a queda, é tão completamente cativa [pelo pecado] que não pode mover-se para o bem a não ser que seja libertada por aquele que é o autor de toda boa disposição.” A luz não ilumina quem já vê; ela abre os olhos de quem estava cego, nisso reside a grandeza da encarnação: não foi o homem que subiu até Deus, mas Deus que desceu até o homem.

A Glória que se revelou

No verso 14 joão diz: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” O apóstolo escreve como testemunha, ele viu, tocou e ouviu a glória de Deus, que nenhum mortal poderia contemplar sem perecer (Êxodo 33:20), se tornou visível em Jesus Cristo, não porque foi diminuída, mas porque foi encarnada.

O Benedictus de Zacarias antecipou isso com esta imagem de beleza: “…graças à profunda misericórdia de nosso Deus, pela qual nos visitará o sol nascente das alturas. Ele iluminará os que jazem nas trevas para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte, e dirigir os nossos pés pelo caminho da paz.” O sol não pergunta se você merece sua luz, ele nasce, irradia seu calor, manda embora a escuridão, assim é Cristo: ele não veio para os “justos” que estavam bem iluminados, mas para os que “jazem entre as trevas e na sombra da morte estão sentados.”

Jonathan Edwards, em seu sermão A Luz Divina e Sobrenatural (publicado em The Works of Jonathan Edwards, Yale University Press, vol. 17, p. 413), afirma que “a luz que Cristo traz não é mera informação sobre Deus, mas uma participação na própria glória de Deus, que transforma o receptor em alguém capaz de ver e amar o que antes odiava.” Não se trata, portanto, de iluminação intelectual apenas é uma transformação fundamental da existência humana. Quem recebe a luz de Cristo não apenas adquiri connhecimento, torna-se essencialmente diferente.

Os que receberam a luz são chamados a refleti-la

João nos ensina quem recebe a luz torna-se filho de Deus e filhos carregam a imagem de seu Pai. Mais tarde, o próprio Jesus dirá: “Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5:14, NAA). Mas é fundamental notar a ordem: primeiro ele é a luz (João 8:12), depois nós somos chamados a sê-la não como fonte, mas como reflexo. A Lua não tem luz própria, ela é um astro refletor, projetando sobre a terra a luz solar.

O Benedictus encerra com uma missão: Zacarias anuncia que João Batista iria “andando à frente do Senhor para aplainar e preparar os seus caminhos, anunciando ao seu povo a salvação.” Essa é a vocação de todo crente: não ser o centro da luz, mas preparar o caminho para que outros a vejam. O testemunho cristão não é autorreferencial, não é falar de se mesmo, mas apontar para Cristo. Dietrich Bonhoeffer, em O Custo do Discipulado (Editora Mundo Cristão, 2016, p. 118), escreve: “A luz que a Igreja possui não é sua propriedade, mas um depósito confiado para ser distribuído; guardá-la é apagá-la.”

Assim, ser luz no mundo é, antes de tudo, um ato de fidelidade, para dirigir os nossos passos, guiando-nos no caminho da paz (tranquilidade, harmonia, segurança e bem-estar), não no caminho do sucesso, da visibilidade ou do conforto, mas no caminho da paz, aquela paz que o mundo não pode dar, porque ela nasce da reconciliação com Deus que só Cristo opera.

Cristo é a luz que nos ilumina

O Verbo se fez carne, para nos resgatar. O sol da graça de Deus desceu ao vale da nossa escuridão, não porque merecemos, o amor de Deus não aguarda merecimento. Pelo amor do coração de nosso Deus, sol nascente que nos veio visitar lá do alto”, é o grande amor do Criador pela sua criatura, um amor que não faz calculo, vem a nós e morre na cruz para nos salvar.

A escuridão que você carrega não é grande demais para essa luz, nenhuma escuridão é, Cristo não veio iluminar os que já enxergavam bem, Ele veio para os que jazem nas trevas e essa é a notícia que muda tudo.

E Agora, Como Viveremos?

A luz que recebemos não é para ser acumulada, mas irradiada, então testemunhe não por obrigação religiosa, mas por transbordamento, quem está cheio de luz não consegue escondê-la, lembre-se de que o brilho que você tem não é seu: “não se trata da minha luz, é a luz de Jesus; nós somos instrumentos para que a luz de Jesus chegue a todos.”

“Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” (Efésios 5:8). O imperativo é caminhar, não apenas sentir, crer abstratamente ou concordar doutrinariamente. Caminhar como filhos da luz é viver de maneira que as pessoas ao redor vejam uma diferença que não conseguem explicar apenas pelo caráter e que, ao perguntar, encontrem Cristo como resposta.

A encarnação não foi Deus nos enviando instruções sobre a luz, foi Deus vindo como luz, para que os que jazem nas trevas pudessem, finalmente, se levantar e caminhar.

Oremos

Senhor e Deus, confessamos que muitas vezes preferimos a sombra à luz, a autonomia à dependência, o orgulho à graça. Perdoa-nos. Obrigado porque o Sol de tua graça não esperou que nós o chamássemos, Tu vieste sem que merecêssemos, em Ti Senhor está toda a nossa esperança. Renova em nós a visão da tua glória, para que não vivamos como se ainda estivéssemos nas trevas, faz de nós reflexos fiéis da tua luz, não para que sejamos vistos, mas para que Tu sejas reconhecido quando as pessoas olharem para nossas vidas. Dirige os nossos passos no caminho da paz, hoje e sempre. Em nome daquele que é a Luz verdadeira, Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

PERGUNTAS PARA REFLEXÃO

  1. O Benedictus celebra uma visita: “o sol nascente que nos veio visitar lá do alto.” Como você tem recebido essa visita no cotidiano, como rotina religiosa ou como encontro pessoal com o Deus vivo?
  2. “Os seus não o receberam.” Quem eram “os seus” de Jesus, e como esse versículo funciona como um espelho para comunidades cristãs que conhecem muito sobre Cristo, mas vivem como se ele nunca tivesse chegado?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

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