HOMENS DE DEUS NÃO FOGEM

A Coragem que Nasce da Identidade

Neemias 6.10-11. “Então fui à casa de Semaías, filho de Delaías, filho de Mehetabel, que estava impedido de sair. Ele disse: Reunamo-nos na Casa de Deus, dentro do templo, e fechemos as suas portas, porque virão matar-te; virão matar-te de noite. Mas eu disse: Fugiria um homem como eu? E quem há, como eu, que entre no templo para salvar a vida? De maneira nenhuma entrarei.”

Algo está matando os homens

Existe um inimigo que não usa armadura, não empunha espada e não anuncia sua chegada com tambores de guerra. Ele chega silenciosamente, embrulhado em conforto, justificado pela prudência e abençoado por uma cultura que confundiu a paz com a ausência de conflito. “O amor ao conforto está matando nossa coragem.” Não é a perseguição que está desmobilizando os homens de Deus neste século é a prosperidade. Não é a ameaça externa que os está paralisando é a sedução interna de uma vida sem cicatrizes, sem perdas e sem batalhas necessárias.

Pedro já havia advertido que o diabo perambula como leão rugindo, procurando alguém para devorar (1 Pedro 5.8). Mas há uma estratégia mais sofisticada do inimigo do que o rugido: é o sussurro. O sussurro que diz que você pode ser cristão sem custo, líder sem conflito, pai sem sacrifício e homem de Deus sem nunca ter ficado de pé quando todos ao redor se curvaram. Jonathan Edwards, ao analisar os sinais do verdadeiro avivamento, identificou a coragem moral como uma das marcas inequívocas da operação genuína do Espírito Santo e sua ausência, como evidência de uma religiosidade que ainda não desceu da cabeça para as entranhas.

A resposta de Neemias ao convite covarde de Semaías não foi elaborada numa reunião de estratégia. Ela emergiu de algo mais profundo e mais antigo do que qualquer circunstância: uma identidade formada por anos de intimidade com Deus. “Fugiria um homem como eu?” essa pergunta não é arrogância. É teologia profunda forjada ao longo de uma vida andando com Deus. É o homem que sabe quem é diante de Deus recusando-se a agir como quem não sabe.

Quando foi a última vez que você ficou de pé num momento em que era mais fácil e mais seguro se sentar?

Do cálice ao muro

Para compreender a coragem de Neemias no capítulo 6, é necessário recuar ao capítulo 1, porque a coragem nunca nasce no momento da crise. Ela é formada muito antes, nas noites de oração que ninguém vê, nas lágrimas derramadas por ruínas que outros ignoram, nas decisões pequenas e custosas que constroem, tijolo a tijolo, o caráter que sustentará o peso da hora decisiva. Neemias era copeiro do rei Artaxerxes, uma posição de privilégio, influência e segurança material que pouquíssimos exilados israelitas jamais alcançariam. Ele tinha tudo o que a prosperidade pode oferecer, e foi exatamente nesse palácio de abundância que Deus o encontrou chorando pelas ruínas de Jerusalém.

A transição que se segue é uma das mais dramáticas das Escrituras em termos de custo voluntário: de erguer um cálice de vinho a erguer um muro; de iguarias a perigos; de palácios a perseguições. Neemias não foi empurrado para fora do palácio pela miséria, foi puxado para fora pelo amor. Esse detalhe é teologicamente fundamental, porque revela que a verdadeira coragem não nasce do desespero, mas da devoção. R.C. Sproul observou que a santidade genuína é sempre custosa, ela exige que o homem abandone algo real e valioso em obediência a algo mais real e mais valioso ainda. Neemias abandonou o conforto do palácio persa não porque era um aventureiro, mas porque era um homem cujo coração havia sido capturado por Deus e por Seu povo.

À medida que os muros começaram a se fechar, a oposição se intensificou proporcionalmente. Sambalate, Tobias e seus aliados tentaram primeiro o escárnio, depois a ameaça aberta e, finalmente, quando nenhuma dessas estratégias funcionou, recorreram à guerra psicológica, o campo de batalha mais perigoso de todos, porque é travado dentro do homem, onde nenhum irmão pode intervir diretamente.

O que está sendo construído na sua vida em segredo, no silêncio da oração e da disciplina, que determinará como você responderá quando a crise chegar?

Deus não Nos deu espírito de covardia

Paulo escreve a Timóteo, um jovem pastor que enfrentava pressões externas e batalhas internas com uma afirmação que não é um encorajamento emocional, mas uma declaração da própria essência do cristão: “Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio” (2 Timóteo 1.7, NAA). A covardia não é a condição natural do filho de Deus regenerado pelo Espírito Santo. Ela é um intruso, uma voz que fala com autoridade que não possui. Quando o cristão cede à covardia, ele não está sendo fiel à sua natureza mais profunda; está traindo a identidade que a graça lhe conferiu.

“A coragem de Neemias se alimenta de uma visão, uma firme confiança em quem ele é por causa de quem é seu Deus.” Essa sequência é exata: a coragem não começa em mim; começa em Deus. Começa na pergunta “quem é o meu Deus?” e só depois responde à pergunta “quem sou eu?” Herman Bavinck, em sua obra Dogmática Reformada, demonstrou que a identidade cristã é sempre derivada, ela não nasce da autoanálise, mas da revelação. O homem que conhece o Deus das Escrituras, soberano, fiel, presente e poderoso, encontra nesse conhecimento a estrutura interior que o sustenta quando as circunstâncias exigem o impossível.

A ousadia do justo

Provérbios 28.1 (NAA) declara com a precisão de um bisturi: “O ímpio foge sem que ninguém o persiga, mas o justo é ousado como leão.” A fuga, nesse versículo, não é descrita como uma decisão racional diante de um perigo real, é descrita como a condição existencial do homem que não está em paz com Deus. O ímpio foge porque carrega por dentro a perseguição que não existe por fora: a voz da consciência, o peso da culpa, a instabilidade de quem construiu sua vida sobre fundamentos que não sustentam. O justo, por contraste, não é ousado porque não tem medo, é ousado como leão porque a sua justiça diante de Deus lhe confere uma estabilidade interior que nenhuma ameaça externa consegue desmontar.

Semaías tentou exatamente o oposto com Neemias: convocou-o a agir como ímpio, a fugir de um perigo que talvez nem existisse, a se esconder atrás do altar como se o altar fosse um bunker e não um lugar de encontro com o Deus vivo. Neemias reconheceu a armadilha não porque era esperto, mas porque era justo e o justo reconhece a voz que não é de Deus. A coragem de Neemias não era ausência de percepção do perigo; era a recusa de deixar que o perigo determinasse sua identidade e seu comportamento.

Portai-vos como homens

Paulo encerra o capítulo 16 de 1 Coríntios com uma série de imperativos que possuem a densidade de uma ordem de batalha: “Vigilai, permanecei firmes na fé, portai-vos varonilmente, fortalecei-vos” (1 Coríntios 16.13, NAA). O imperativo “portai-vos varonilmente” não é uma concessão ao machismo cultural, é uma convocação à maturidade espiritual que se recusa à infantilidade do escapismo. O homem que “se porta varonilmente” no sentido paulino não é o que nunca chora é o que chora e ainda assim avança; não é o que nunca teme é o que teme e ainda assim permanece; não é o que nunca sente o peso da batalha é o que sente e ainda assim não larga a espada.

“O soldado não foge da batalha. O bombeiro não se esconde das chamas. O pastor não foge dos lobos. Caminhamos em direção ao sacrifício e ao risco como homens de Cristo.” Essa não é uma descrição de super-heróis espirituais, é a descrição da vida cristã normal, entendida à luz da cruz. Dietrich Bonhoeffer, que pagou com a própria vida o custo do discipulado, escreveu que a graça barata, a graça sem cruz, sem discipulado, sem mudança, é o inimigo mortal da igreja. A coragem cristã é simplesmente a graça cara tornada visível na vida de um homem que tomou a sua cruz e seguiu.

Não somos dos que recuam

Hebreus 10.39 (NAA) encerra um longo argumento teológico com uma afirmação de identidade coletiva que funciona como uma âncora: “Mas nós não somos dos que recuam para a perdição; somos dos que têm fé para a preservação da alma.” O autor de Hebreus não está descrevendo um ideal a ser alcançado, está descrevendo quem o povo de Deus já é, pela fé. “Nós não somos dos que recuam” é uma declaração de identidade antes de ser um imperativo de comportamento e essa sequência importa decisivamente, porque o comportamento duradouro nasce sempre da identidade, e não o contrário.

Neemias, no momento de provação, não está apenas se apoiando em si mesmo, mas se reconhecendo dentro de um batalhão, “um batalhão que se vangloriaria dos discípulos, dos mártires e do próprio Messias.” Joel Beeke, em seus estudos sobre a teologia reformada, demonstrou que a perseverança dos santos não é uma conquista individual, mas um fruto da comunhão, tanto com Cristo, o cabeça, quanto com o corpo, os irmãos. O homem de Deus que permanece firme não permanece sozinho: permanece dentro de uma nuvem de testemunhas que, do passado e do presente, sustenta e inspira a sua fidelidade.

Se Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder o que em sua vida cotidiana está abafando esse poder e alimentando o medo?

Conclusão

Decide agora, antes que a noite chegue

“O momento da provação é um momento ruim para responder quem você é ou a quem você pertence.” Neemias não decidiu quem era quando Semaías abriu a boca. Essa decisão havia sido tomada nas noites de oração no palácio persa, nas lágrimas derramadas sobre as ruínas de Jerusalém, nos dias em que carregou pedras com uma mão e segurou a espada com a outra. A resposta de Neemias foi instantânea porque foi formada lentamente. A coragem que não foge não é improvisada no momento da crise, é depositada, camada por camada, nas disciplinas invisíveis da vida ordinária.

Agostinho de Hipona, nas Confissões, descreveu o coração humano como um campo de batalha entre dois amores, o amor a Deus e o amor a si mesmo, ele observou que o amor que prevalece é sempre aquele que foi mais alimentado. O homem que alimentou o amor ao conforto por anos não conseguirá, no momento da crise, agir como quem alimentou o amor a Deus. Por isso, a convocação não é para a hora da batalha, é para agora, para esta manhã, para esta semana, para a decisão pequena e custosa que ninguém verá mas que Deus registrará. “Decida agora, com a ajuda de Deus, Eu construirei, lutarei e não fugirei, Deus está comigo!”

Cristo, o Supremo Homem de Deus, não fugiu do Getsêmani. Não desceu da cruz quando os soldados zombaram. Não abandonou o propósito quando o preço se tornou insustentável humanamente. E é exatamente Esse Cristo, ressurreto, vivo e presente pelo Espírito, que habita o homem regenerado e o capacita a ficar de pé onde todos os outros sentaram.

Você está construindo agora, nas disciplinas secretas da sua vida, o caráter que o sustentará quando a noite chegar?

E agora, como viveremos?

A aplicação da coragem de Neemias não começa no púlpito nem no campo de batalha, começa no lar, no escritório, na conversa difícil que você tem adiado, na liderança que você tem exercido de longe para não se expor, no pecado que você tem tolerado porque confrontá-lo custaria algo. “Conheça a si mesmo agora. Conheça Jesus agora. Obtenha uma visão clara da grandeza de Deus nas Escrituras. Ouça a sua voz mansa e suave, enviando-o do seu palácio de conforto para coisas difíceis.”

1 Coríntios 16.13: “Vigilai, permanecei firmes na fé, portai-vos varonilmente, fortalecei-vos.” Os quatro imperativos apontam para quatro práticas concretas: vigilância espiritual diária na Palavra e na oração; firmeza doutrinária que não cede à pressão cultural; postura viril diante das responsabilidades de pai, marido, líder e cidadão e fortalecimento contínuo pela comunhão com Cristo e com os irmãos. Nenhuma dessas práticas é extraordinária, todas são ordinária e sistematicamente ignoradas como um edredom quentinho em noites frias.

Neemias e seus homens dormiam com as armas à direita. Não entregavam as espadas ao entardecer porque o dia havia terminado. Eles sabiam que a obra não estava concluída e que o inimigo não respeitava horários. O homem de Deus que leva a sério o seu chamado na família, na igreja, na sociedade, não tem um horário comercial de fidelidade. Ele dorme com a espada à direita, porque sabe que pode ser chamado a qualquer momento, e quer estar pronto.

Oremos

Pai, confessamos que amamos o conforto mais do que amamos a tua glória. Que escolhemos o palácio quando tu nos chamaste para o muro. Que ouvimos a voz de Semaías com muito mais atenção do que a tua voz, porque a voz de Semaías prometia segurança e a tua voz prometia batalha. Perdoa-nos, Senhor. Tu não nos deste espírito de covardia, deste-nos espírito de poder, de amor e de equilíbrio. Que esse Espírito prevaleça sobre o medo que nos tem feito pequenos. Transforma-nos em homens que conhecem quem são porque sabem de quem são. Que quando a ameaça chegar no lar, na igreja, no coração, a resposta que emergir não seja fruto do pânico do momento, mas do caráter formado nas noites de oração que ninguém viu. Faze de nós homens que constroem, que lutam, que permanecem. Homens que não fogem. Pelo nome de Jesus Cristo, que enfrentou a cruz com o olhar fixo no gozo que estava diante dEle, e que agora Se senta à Tua destra, tendo concluído a obra. Amém.

Perguntas para Reflexão

1. O texto afirma que “a coragem não nasce no momento da crise é formada muito antes.” Que disciplinas espirituais você tem praticado sistematicamente que formarão o caráter necessário para o momento em que você for testado? E que disciplinas você tem negligenciado sob o pretexto da correria?

2. Neemias perguntou: “Fugiria um homem como eu?” Essa pergunta pressupõe uma identidade clara. Como você descreveria, em termos concretos e bíblicos, quem você é diante de Deus e essa identidade tem determinado suas decisões reais, ou permanece como declaração teórica?

3. Provérbios 28.1 afirma que “o ímpio foge sem que ninguém o persiga.” Existe alguma área da sua vida, no casamento, na paternidade, na liderança, na fé pública em que você tem fugido de um perigo que talvez não seja tão real quanto o medo o faz parecer?

4. O texto convoca os homens a se cercar de “irmãos que agitam o sangue para permanecer firme no dia da adversidade.” Quem são esses irmãos na sua vida — nas pessoas reais ao seu redor, nos livros que você lê, nas biografias que você estuda? E quem, ao contrário, tem alimentado o seu amor pelo conforto e pela covardia?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

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