“Jejum na Bíblia: Disciplina Espiritual de Arrependimento, humilhação e Intimidade com Deus.”
Texto Bíblico Básico. Joel 2.12-13: “Mas ainda agora, diz o SENHOR, voltem para mim de todo o coração, com jejum, com choro e com lamentação. Rasguem o coração de vocês, e não as suas vestes, e voltem para o SENHOR, seu Deus, porque ele é misericordioso, clemente e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal.”
Texto Áureo. Mateus 6.16: “Quando jejuarem, não se mostrem de semblante triste como os hipócritas; porque eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa.”
Textos Correlatos
- Mateus 6.16-18. O jejum em secreto
- Daniel 10.2-3. O jejum parcial de Daniel
- Ester 4.16. O jejum de três dias
- 1 Samuel 7.6. Jejum de arrependimento
- Atos dos Apóstolos 13.2-3. Jejum e ministração
- Isaías 58.3-7. O jejum que agrada a Deus
- Neemias 1.4. Jejum e oração por Jerusalém
- Mateus 9.14-15. O noivo será tirado
- Marcos 9.29. Oração e jejum
- 2 Coríntios 6.5. Jejuns no ministério
- 1 Reis 21.27. Acabe jejua em arrependimento
- Levítico 16.29-31. Afligir a alma no Dia da Expiação
Exegese do Texto Base
O chamado divino em Joel 2.12-13 revela dimensões essenciais do jejum bíblico. O termo hebraico shub (voltem) indica conversão completa, não mera religiosidade externa. Portanto, a expressão “de todo o coração” (bekol-lebabkem) demanda totalidade existencial, enquanto a tríade “jejum, choro e lamentação” (betsom uvibki uvemisped) representa disciplinas corporais que expressam humilhação sincera.
Além disso, o contraste entre rasgar vestes e rasgar o coração (kir’u lebabkem) expõe a diferença entre ritualismo vazio e arrependimento genuíno. Deus não se impressiona com gestos externos, mas responde à contrição interior. Assim, o jejum bíblico transcende a mera abstenção de alimento, constituindo uma expressão corporal de dependência divina.
Termos e Expressões Importantes
Jejum (tsom – hebraico): Abstenção voluntária de alimento como expressão de humilhação e busca espiritual intensa diante de Deus.
“De todo o coração”: Entrega completa e sincera, não parcial ou fingida. No entanto, indica totalidade existencial na conversão.
“Rasguem o coração”: Contrição genuína que vai além de demonstrações externas. Assim, representa arrependimento que transforma o interior.
“Afligir a alma” (Levítico): Expressão hebraica para jejum no Dia da Expiação, indicando humilhação consciente diante da santidade divina.
Contexto Bíblico
O jejum atravessa toda a narrativa redentiva como disciplina de crise e dependência. No Antigo Testamento, aparece em momentos cruciais: Moisés no Sinai, Davi após o pecado, Daniel na Babilônia e Ester diante da ameaça de extermínio. Portanto, esses episódios estabelecem o padrão do jejum como resposta a situações extremas.
No Novo Testamento, Jesus transforma a perspectiva sem abolir a prática. Consequentemente, o jejum cristão expressa não apenas arrependimento, mas anseio pela volta do Noivo. Assim, a Igreja Primitiva manteve a disciplina, integrando-a à vida devocional e às decisões ministeriais.
Teologia Reformada
O jejum bíblico harmoniza-se perfeitamente com os princípios reformados de total dependência da graça. Conforme ensina João Calvino: “O jejum não tem valor em si mesmo, mas é útil enquanto nos auxilia a humilhar-nos diante de Deus e mortificar nossa carne”. Além disso, esta perspectiva protege contra o legalismo farisaico e o misticismo pagão.
A doutrina da Sola Gratia impede que tratemos o jejum como barganha com Deus. Portanto, jejuamos não para merecer bênçãos, mas para expressar nossa insuficiência. Consequentemente, Herman Bavinck observa: “Todas as disciplinas espirituais são meios de graça que nos conduzem à dependência, não à autossuficiência”.
Tema Central
O jejum bíblico é uma disciplina corporal que expressa dependência total de Deus, humilhação sincera e anseio pela presença divina.
Jonathan Edwards:
“A disciplina do jejum, quando praticada com o coração voltado para a glória de Deus, é uma maneira de expressar nossa profunda dependência Dele e de nos humilhar diante de Sua majestade, clamando por Sua graça e por um avivamento da Sua obra.”
John Piper:
“O jejum, no seu cerne, é a fome por algo que a comida não pode dar. É uma fome que se traduz em uma busca mais intensa por Deus, uma forma de dizer a Deus que o desejamos mais do que qualquer coisa neste mundo.”
Tim Keller:
“O jejum não é para ganhar favor com Deus. É para expressar nossa fome por Ele. Em um mundo de superabundância, o jejum é uma das poucas maneiras de resistir ao materialismo e ao consumismo que nos seduzem a confiar naquilo que podemos comprar, em vez de confiarmos em Deus.”
Introdução
Em uma cultura obcecada pela autossuficiência e pelo imediatismo, o jejum emerge como contracultura radical. No entanto, esta disciplina bíblica desafia nossa necessidade de controle e nos confronta com a fragilidade humana. Estudos recentes mostram que práticas como o jejum intermitente ganharam popularidade por motivos de saúde, mas o jejum bíblico transcende benefícios físicos.
O profeta Joel, em meio a uma catástrofe nacional, convoca Israel a uma resposta extraordinária. Portanto, não bastava lamento superficial ou rituais vazios. Assim, Deus demandava conversão autêntica, expressa através de jejum, choro e lamentação. Consequentemente, este texto revela a natureza e o propósito do jejum segundo as Escrituras.
Dúvidas Mais Frequentes Sobre o Tema
1. O jejum é obrigatório para cristãos? Não há mandamento direto, mas Jesus pressupõe a prática usando “quando jejuarem” (Mateus 6.16). Portanto, é uma disciplina esperada, não uma imposição legalista.
2. Jejum pode ser de outras coisas além de comida? Biblicamente, jejum refere-se à abstenção de alimento. No entanto, outras disciplinas como evitar entretenimento podem ser benéficas, mas não constituem jejum como ele nos é apresentado no texto bíblico.
3. Quais são os riscos do jejum? Pessoas com condições médicas devem consultar profissionais de saúde. Além disso, o maior risco é espiritual: transformar o jejum em exibição de piedade ou barganha com Deus.
4. Pode-se jejuar em comunidade? Sim, a Bíblia registra jejuns coletivos (Atos 13.2-3, Ester 4.16). Contudo, mesmo em contexto comunitário, deve-se evitar ostentação pessoal.
5. Qual a diferença entre jejum cristão e de outras religiões? O jejum cristão expressa dependência da graça, não tentativa de ganhar méritos. Assim, difere radicalmente de práticas que buscam apaziguar divindades através do sofrimento.
A Natureza do Jejum: Oração Corporal
O jejum bíblico constitui uma “oração do corpo” que articula verdades espirituais através da experiência física. Quando renunciamos ao alimento, essencial à vida, confessamos nossa fragilidade e dependência. Portanto, como observa John Piper: “O jejum é a contraparte da Ceia do Senhor: enquanto a Ceia celebra a presença de Cristo, o jejum expressa nossa saudade por sua volta”.
Esta dimensão corporal não é acidental. Deus criou-nos como seres integrados, onde físico e espiritual interpenetram-se. Consequentemente, nossa fome física intensifica nossa percepção da fome espiritual. Assim, o jejum nos lembra que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mateus 4.4).
A Motivação do Jejum: Humilhação e Busca
O texto de Joel revela duas motivações centrais do jejum bíblico: humilhação diante do pecado e busca intensa por Deus. Além disso, estas motivações distinguem o jejum cristão de outras formas de abstenção. Não jejuamos para impressionar, mas para nos relembrarmos de nossa própria insuficiência.
A humilhação bíblica difere da autodepreciação. Portanto, é reconhecimento sóbrio de nossa condição diante da santidade divina, o jejum redireciona nossa atenção de nossas necessidades para a suficiência de Deus.
A Prática do Jejum: Discrição e Oração
O jejum, na perspectiva bíblica, é inseparável da oração. Jesus, ao instruir sobre a oração antes de falar sobre o jejum, estabeleceu um princípio fundamental: o tempo dedicado ao jejum deve ser preenchido com oração e outras disciplinas espirituais. O ato de jejuar, por si só, é insuficiente se não houver um propósito claro de buscar a Deus. É uma forma de intensificar a nossa “fome” por Ele, e não apenas de passar fome física.
Existe uma prática moderna, no entanto, que contradiz o padrão bíblico. Jejuar mantendo uma rotina normal de trabalho, academia ou socialização não é o tipo de jejum que a Bíblia manifesta. O jejum, como visto nas Escrituras, está atrelado a um tempo de oração intensa e retiro espiritual. Quando Jesus jejuou por 40 dias, Ele se retirou para um deserto, um ato que exigia isolamento e foco total em Deus. Ele não tentou conciliar esse período de intensa disciplina espiritual com Sua rotina diária de pregação e ensino. O jejum bíblico demanda uma redução significativa das atividades extenuantes, pois exige que o corpo conserve energia enquanto a alma busca tranquilidade para uma comunhão profunda. Tentar manter uma rotina normal durante o jejum compromete a intensidade espiritual que a disciplina propõe, tornando-a meramente um ato físico, sem o propósito divino.
A Bíblia não estabelece um tempo ou um modo fixo para o jejum, mas nos dá exemplos diversos que podem ser adaptados. Daniel jejuou de certos alimentos, Ester proclamou um jejum nacional até o cumprimento de um objetivo e, em outros casos, o jejum foi de alimento e água. O que todos esses exemplos têm em comum é que o jejum está sempre relacionado a alimentos. A palavra “jejum” em si, tanto em hebraico quanto em grego, está ligada a “não comer”.
Portanto, o jejum não é uma simples abstinência de vícios ou pecados. Deixar de falar palavrão, abandonar um vício em chocolate ou café, por exemplo, é um ato de santidade, não de jejum. O jejum bíblico exige um custo real e um sacrifício, que é a renúncia de algo bom e essencial para a vida, como o alimento. Abrir mão de coisas que já deveríamos evitar não se qualifica como jejum. Da mesma forma, jejuar de outras coisas lícitas que não são alimentos, como TV, celular ou festas, pode ser uma atitude espiritual válida, mas a Bíblia não a nomeia como “jejum”. Afinal, se o jejum está atrelado à oração, a pessoa já deveria estar abrindo mão dessas distrações para buscar a Deus.
O jejum aparece em momentos cruciais da narrativa bíblica, marcando pontos de transformação na história da redenção. A Bíblia registra exemplos significativos:
- Moisés jejuou por 40 dias no Monte Sinai (Êxodo 34:28), recebendo as tábuas da Lei e protagonizando a libertação de Israel.
- Israel era convocado a jejuar no Dia da Expiação (Levítico 16), descrito como “afligir as almas”, uma prática de contrição e reflexão espiritual.
- Elias jejuou por 40 dias (1 Reis 19:8), fortalecido por Deus para confrontar o pecado de Israel.
- Davi jejuou por sete dias após seu pecado com Bate-Seba (2 Samuel 12:16-18), em busca de misericórdia.
- Nínive, em resposta à pregação de Jonas, jejuou em arrependimento (Jonas 3:5-10), recebendo o perdão divino.
- Daniel jejuou por 21 dias (Daniel 10:2-3), em meio a uma intensa batalha espiritual.
- Ester proclamou um jejum de três dias e noites (Ester 4:16), sem comida nem água, antes de interceder pelo povo judeu.
- Jesus jejuou por 40 dias no deserto (Mateus 4:1-2), preparando-se para seu ministério e enfrentando tentações.
- Paulo, após sua conversão, jejuou por três dias (Atos 9:9), marcando sua entrega a Cristo.
- Igreja Primitiva, em Atos 13:2-3, iniciou sua obra missionária com jejum e oração, sob a direção do Espírito Santo.
A Teologia do Jejum: Graça e Dependência
Não jejuamos para merecer bênçãos, mas para expressar nossa dependência da graça. Portanto, conforme ensina Augustus Nicodemus: “O jejum não muda Deus, mas nos transforma, intensificando nossa percepção da necessidade divina”.
Esta compreensão evita tanto o legalismo quanto o misticismo. O jejum não é fórmula mágica nem ritual meritório. Assim, é disciplina que nos conduz à humildade e nos prepara para receber a graça. Consequentemente, como observa Martinho Lutero: “Jejuar não torna ninguém cristão, mas todo cristão deve jejuar quando o Espírito o conduz a isso”.
Relação com a Atualidade
No contexto contemporâneo, o jejum ganha relevância especial diante da cultura do consumismo desenfreado e da busca por satisfação imediata. Nossa sociedade promove a ideia de que toda necessidade deve ser satisfeita instantaneamente. Portanto, o jejum desafia esta mentalidade, ensinando autodisciplina e dependência de valores ultrapassam os limites do mundo físico.
Apesar de estudos científicos confirmam benefícios físicos da prática controlada de jejum, não é por isso que os cristãos jejuam e o jejum cristão vai muito além disso. Assim, enquanto nossa cultura jejua por estética ou saúde, o cristão jejua pela busca sublime de estar mais próximo de Deus. Consequentemente, esta diferenciação é crucial numa época onde práticas espirituais são facilmente secularizadas.
A pandemia de ansiedade e depressão em nossa geração também encontrará uma resposta abençoadora mo jejum bíblico. Portanto, quando jejuamos adequadamente, experimentamos paz que transcende circunstâncias. Assim, descobrimos que nossa segurança não depende de recursos materiais, mas da fidelidade divina.
Conclusão
O jejum bíblico emerge das Escrituras não como ritual obsoleto, mas como disciplina vital para a maturidade cristã. Portanto, através desta prática milenar, experimentamos verdades que nossa cultura materialista obscurece: somos criaturas dependentes de um Criador amoroso.
Consequentemente, o chamado de Joel ecoa através dos séculos, convidando-nos a rasgar não as vestes, mas o coração. Assim, o jejum autêntico produz transformação interior que se manifesta em adoração mais profunda e serviço mais dedicado.
Mensagem Central
O jejum bíblico constitui uma confissão corporal de nossa fragilidade e uma declaração de fé na suficiência divina. Portanto, quando renunciamos voluntariamente ao que é essencial, proclamamos que Deus é mais necessário que o próprio alimento. Assim, esta disciplina antiga oferece à Igreja contemporânea um caminho para redescobrir a dependência humilde e a intimidade transformadora com o Senhor. Consequentemente, que nossas vidas reflitam essa verdade fundamental: o homem não vive apenas de pão, mas de cultivar uma vida de comunhão cada vez mais profunda com Deus.
Aplicação
Em uma era de abundância material e pobreza espiritual, o jejum bíblico desafia nossos ídolos contemporâneos. Portanto, quando jejuamos biblicamente, confrontamos nossa dependência excessiva de confortos e descobrimos a suficiência da graça divina. Assim, que esta disciplina nos conduza não ao legalismo, mas à liberdade; não à ostentação, mas à humildade; não à barganha com Deus, mas à gratidão por sua misericórdia. Consequentemente, que o jejum seja para nós uma escola de dependência onde aprendemos que a verdadeira satisfação encontra-se somente em Cristo.
Perguntas para Reflexão
- Como minha dependência de confortos materiais revela áreas onde preciso exercitar maior confiança em Deus?
- De que maneiras posso praticar o jejum sem cair na ostentação farisaica ou no legalismo religioso?
- Qual é a diferença entre jejuar por disciplina espiritual e jejuar por outros motivos (estética, saúde, tradição)?
- Como o jejum pode me ajudar a compreender melhor minha fragilidade e a suficiência da graça divina?
- Que áreas da minha vida espiritual poderiam ser beneficiadas pela disciplina do jejum acompanhada de oração intensa?
- Como posso discernir quando Deus me chama ao jejum versus quando é apenas uma decisão pessoal?
- De que forma o jejum bíblico pode contribuir para uma vida cristã mais autêntica e menos superficial?
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
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Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!