TEXTO BÍBLICOS: Efésios 2.19-22 e 2 Coríntios 5.20.
TEXTO ÁUREO: “Portanto, já não sois estranhos e forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus.” — Efésios 2.19.
TEXTOS COMPLEMENTARES:
- Mateus 16.18-19 — As chaves do Reino entregues à Igreja.
- Atos dos Apóstolos 2.41-47 — A Igreja primitiva como comunidade visível.
- 1 Coríntios 12.27 — Membros do corpo de Cristo.
- Hebreus 10.24-25 — A congregação como dever e não opção.
- João 13.34-35 — O amor como marca identitária da Igreja.
- 1 Pedro 2.9-10 — Povo adquirido, nação santa, sacerdócio real.
- Filipenses 3.20 — A cidadania dos cristãos está nos céus.
TEMA CENTRAL
“O cristão não se associa voluntariamente à Igreja como se filiaria a um clube; antes, ele se submete à Igreja local como cidadão do Reino de Cristo, reconhecendo nela a embaixada autorizada pelo Senhor para afirmar, supervisionar e dar forma visível à sua vida cristã no mundo.”
INTRODUÇÃO
Você já parou para perguntar por que é membro desta sua igreja? Não como se tornou membro — isso a maioria sabe responder. Mas por que? O que significa, de fato, ter o nome inscrito no rol de membros de uma congregação local? Seria apenas uma formalidade administrativa, como o cadastro em uma academia de ginástica? Ou haveria algo mais profundo, algo que a maioria dos cristãos ocidentais modernos simplesmente não enxerga?
Observe o cenário cultural em que vivemos. Nossa época é, segundo todos os indicadores sociológicos, uma era de “fobia de compromisso.” As pessoas desejam os benefícios dos relacionamentos sem as responsabilidades que eles exigem. Querem a graça, mas não o governo. Querem a comunidade, mas sem a submissão. E essa mentalidade — alimentada por décadas de individualismo consumista, publicidade narcisista e protestantismo privatizado — invadiu a Igreja com uma força devastadora.
O resultado prático é visível em qualquer denominação evangélica: cristãos que frequentam cultos sem nunca se comprometer com uma congregação; pessoas que tomam a Ceia do Senhor sem serem membros; famílias que tratam a Igreja como um serviço de Netflix espiritual — acessam quando convém, trocam quando algo melhor surge, cancelam a assinatura sem aviso. Ninguém questiona esse comportamento porque, no fundo, muitos acreditam que membresia é apenas uma conveniência opcional.
É precisamente este pressuposto que precisa ser derrubado. Porque, como a Bíblia deixa claro em Efésios 2.19-22, o cristão não é um peregrino autossuficiente navegando sua fé sem nunca se comprometer ou se submeter à comunidade. Ele é concidadão dos santos, membro da família de Deus, pedra viva do templo santo — imagens que pressupõem pertencimento, estrutura, autoridade e compromisso. E em 2 Coríntios 5.20, Paulo vai ainda mais longe: nós somos embaixadores de Cristo, representantes autorizados do Rei de todo o universo em terra estrangeira. Embaixadores não atuam sozinhos. Embaixadores não se autodesignam. Embaixadores pertencem a uma embaixada.
O dilema central desta lição pode ser formulado assim: se a Igreja é a embaixada do Reino de Cristo na terra, o que significa para o cristão ser membro dessa embaixada? Que tipo de compromisso, submissão e identidade isso exige? Nessa lição, vamos descobrir, que a membresia da Igreja não é o que a maioria imagina é algo muito maior.
Você já considerou que pode estar entendendo tudo errado a respeito da sua própria relação com a Igreja de Cristo?
CONTEXTO BÍBLICO E HISTÓRICO — O Império de Jesus e a Embaixada do Reino
A Carta aos Efésios e o Contexto do Texto-Base
Paulo escreve Efésios por volta de 60-62 d.C., provavelmente durante seu cárcere em Roma. A congregação de Éfeso era uma das mais importantes do mundo mediterrâneo — uma cidade cosmopolita, centro de comércio, cultura e religião. A Igreja ali era plural: judeus e gentios convivendo sob o mesmo teto espiritual, o que criava tensões profundas de identidade e pertencimento. Quem é o povo de Deus agora? Quem pertence à família? Quem são os de dentro e quem são os de fora? É exatamente nesse contexto que Paulo escreve Efésios 2.19-22.
Três metáforas se sobrepõem aqui de forma magistral: a da cidadania (concidadãos), a da família (membros da casa de Deus) e a do templo (edificação conjunta). Paulo não escolhe uma; ele usa todas as três. Por quê? Porque nenhuma delas, isoladamente, é suficiente para capturar a realidade multidimensional do que é ser parte da Igreja. A cidadania fala de pertencimento legal e político. A família fala de intimidade e identidade compartilhada. O templo fala de habitação divina, santidade e propósito.
“Quando os autores do Novo Testamento começam a falar sobre a igreja e seus membros, eles lançam essas metáforas mistas em uma supervelocidade, como se pressionassem o botão turbo em uma corrida de cavalos. Paulo fala sobre ser batizado em um corpo, como se alguém pudesse ser imerso em outro corpo. Pedro fala sobre os cristãos como ‘pedras vivas’, uma típica mistura de metáforas, e então ele diz que essas ‘pedras vivas estão sendo edificadas em uma casa espiritual para ser sacerdócio santo’.”
(Jonathan Leeman, Membresia na Igreja: Como o Mundo Sabe Quem Representa Jesus, Vida Nova, 2016, p. 59)
Leeman escreveu isso como parte de seu projeto de resgate da visão bíblica da Igreja contra a maneira pobre como as pessoas enxergam a igreja hoje em dia. Sua observação é precisa: a linguagem do Novo Testamento sobre a Igreja é intencionalmente excessiva, quase transbordante — porque a realidade que ela descreve é maior do que qualquer categoria humana pode conter. Não é possível escolher apenas uma metáfora e descartar as demais; é preciso o conjunto completo.
O Contexto de 2 Coríntios 5.20 e a Teologia da Embaixada
A segunda passagem do texto-base, 2 Coríntios 5.20, insere o cristão numa estrutura radicalmente política e diplomática: “Somos, pois, embaixadores em nome de Cristo, como se Deus estivesse exortando por nosso intermédio. Rogamos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus.”
Paulo usou o termo presbeuomen — uma palavra do vocabulário diplomático greco-romano que designava o representante oficial de um rei ou estado em território estrangeiro. Um embaixador não age por conta própria. Ele recebe autorização, fala em nome do soberano que representa, e suas palavras carregam o peso e a autoridade daquele que o enviou.
Isso cria uma questão teológica urgente: se o cristão é embaixador de Cristo, quem autoriza essa representação? Quem confere o passaporte diplomático? A resposta da Escritura, como veremos no desenvolvimento teológico, é clara: é a Igreja local — a embaixada do Reino — que cumpre essa função de legitimação pública da cidadania cristã.
“De acordo com o Novo Testamento, a igreja é, primariamente, um corpo de pessoas que confessam e dão evidência de que foram salvas apenas pela graça de Deus, tão-somente para sua glória e por meio da fé em Cristo somente. […] A maioria das referências à igreja falam de um corpo de pessoas local, ativo e afetuoso, pessoas comprometidas com Cristo e umas com as outras.”
(Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável, Vida Nova, 2005, p. 153)
Dever escreve isso a partir de décadas de ministério pastoral na Capitol Hill Baptist Church, em Washington, D.C. — uma congregação que ele revitalizou precisamente por levar a sério a natureza da Igreja local. Seu argumento vai contra a corrente cultural: em uma era que desconfia de instituições, ele insiste em que a Igreja local não é um clube voluntário, mas um corpo comprometido com Cristo e uns com os outros. Essa visão tem raízes profundas na teologia reformada confessional.
A Perspectiva Histórica: Do Imperium de César ao Império de Cristo
Compreender o que Leeman chama de imperium — o conceito latino de poder soberano supremo — é essencial para entender a natureza da Igreja. No mundo romano do primeiro século, o imperium pertencia a César. Tudo existia pela permissão dele: clubes, associações, negócios, religiões. Nenhuma instituição transcendia o poder do Estado.
A afirmação cristã era uma ofensa ao imperador precisamente porque declarava que Jesus — não César — detinha o imperium supremo. Observe a radicalidade disso no testemunho histórico registrado por Eusébio de Cesareia. Quando um cristão chamado Sanctus foi torturado no ano 177 d.C., seus captores o pressionavam para revelar sua identidade, raça e status social.
“Com tamanha determinação, enfrentou seus ataques e não disse a eles seu próprio nome, raça, local de nascimento ou mesmo se era escravo ou livre. Para cada pergunta ele respondia, em latim: ‘eu sou um cristão’. Isso ele proclamou repetidamente, em vez de nome, local de nascimento, nacionalidade e outros dados, e nenhuma outra palavra se ouviu dele.”
(Citado em Jonathan Leeman, Membresia na Igreja, Vida Nova, 2016, p. 29 — fonte original: Janet Coleman, Against the State, Penguin, 1990, p. 37)
Este testemunho histórico que Eusébio de Cesareia nos apresenta — ilumina algo essencial: para o cristão primitivo, sua identidade não era étnica, nacional ou social. Era eclesiástica. Era cristológica. Pertencer à Igreja era pertencer ao Reino de Cristo, e isso tinha implicações que colocavam a vida de um cristão em risco. A Igreja não era apenas uma organização religiosa — era um povo novo, uma nação surgindo dentro das nações, com fidelidade última a um Rei que transcendia todos os imperadores terrenos, ou seja, cristãos morriam por declarar sua fé e por se declarar como membro da igreja.
PONTO 1 — Jesus Detém o Imperium: A Natureza Institucional da Igreja Local
Exegese de Mateus 16.18-19 e Efésios 2.19-22.
Em Mateus 16.18-19, Jesus faz uma das declarações mais significativas de todo o Evangelho: “E digo-te também que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.”
A palavra grega ekklesia — traduzida como “Igreja” — não é neutra. No contexto greco-romano, ekklesia era a assembleia convocada dos cidadãos de uma cidade para deliberar sobre os assuntos públicos. Jesus não criou um clube privado de religiosidade individual. Ele convocou uma assembleia pública, uma comunidade no sentido mais elevado da palavra.
“Assim como a Bíblia estabelece o governo de sua nação como sua maior autoridade na terra quando se trata de sua cidadania nessa nação, da mesma forma estabelece a igreja local como sua maior autoridade na terra quando se trata do seu discipulado cristão e da sua cidadania na nação de Cristo, a presente e a prometida no futuro.”
(Jonathan Leeman, Membresia na Igreja, Vida Nova, 2016, p. 23)
O argumento de Leeman é estruturalmente brilhante. Assim como o Estado detém autoridade sobre a cidadania civil — podendo determinar quem é e quem não é cidadão de uma nação —, Cristo conferiu à Igreja local a autoridade das chaves para determinar quem é e quem não é cidadão do Seu Reino na terra. Não é uma autoridade absoluta, capaz de mudar o status eterno da pessoa diante de Deus. Mas é uma autoridade real, concreta, visível — a autoridade de confirmar publicamente a profissão de fé e supervisionar o discipulado.
O Catecismo de Heidelberg, em sua Pergunta 83, trata exatamente disso ao discutir o “poder das chaves”: a pregação do Evangelho e a disciplina eclesiástica são as duas chaves do Reino que abrem e fecham seus portões. Essa visão confessional reformada insiste em que a Igreja local não é uma entidade opcional — ela é a estrutura institucional através da qual Cristo governa Seu povo visivelmente na terra.
Se Jesus instituiu a Igreja local com autoridade real sobre o discipulado cristão, então a indiferença à membresia não é apenas uma preferência pessoal, é uma rejeição da ordem estabelecida pelo próprio Cristo. O cristão que frequenta uma congregação por anos sem se comprometer como membro está, na prática, comportando-se como se a autoridade de Cristo sobre sua vida pudesse ser aceita de forma seletiva e parcial.
“A doença básica por trás de todos esses sintomas, a doença que, admito, corre também em minhas veias, é pressupor que temos autoridade para conduzir nossa vida cristã por nós mesmos. Incluímos um pedaço da igreja quando e onde nos convém.”
(Jonathan Leeman, Membresia na Igreja, Vida Nova, 2016, p. 22)
Se Jesus detém o imperium e delegou autoridade à Igreja local, o que diz sobre seu relacionamento com Cristo o cristão que rejeita ou negligencia essa estrutura de autoridade?
PONTO 2 — A Igreja como Embaixada do Reino: O Que Significa Ser Membro
Exegese de 2 Coríntios 5.20 e Efésios 2.19.
Imagine um mapa-múndi coberto de pontos de luz. Cada ponto representa uma congregação de cristãos reunidos em nome do Cristo. Esses pontos de luz cruzam fronteiras nacionais, atravessam muros políticos, surgem em lugares inesperados. Uma nação nova dentro das outras nações — não com exércitos, não com espadas, mas com o poder do Evangelho e a vida comunitária do povo de Deus. É a Igreja como embaixada do Reino de Deus em um mundo mergulhado em trevas.
Então, a percepção da igreja como Embaixada do Reino transforma completamente nossa compreensão de membresia. Uma embaixada faz duas coisas essencialmente: representa uma nação dentro de outra nação, e legitima oficialmente os cidadãos daquela nação que vivem em terra estrangeira. O passaporte que ela emite não cria cidadania — confirma-a formalmente. Da mesma forma, quando um cristão se torna membro de uma Igreja local, a Igreja não o torna salvo, ela confirma publicamente sua profissão de fé e o incorpora à sua supervisão pastoral.
“A igreja local é uma embaixada do domínio real, estabelecida no presente, que representa o reino futuro de Cristo e a vinda de sua igreja universal. […] Um membro de igreja é uma pessoa reconhecida oficialmente e publicamente como um cristão diante das nações, assim como alguém que compartilha a mesma autoridade de legitimar e supervisionar oficialmente outros cristãos na sua igreja.”
(Jonathan Leeman, Membresia na Igreja, Vida Nova, 2016, pp. 26-27)
A Confissão Belga, no Artigo 29, define as marcas da Igreja verdadeira em termos que dialogam diretamente com esse ponto: a pura pregação do Evangelho, a correta administração dos sacramentos e o exercício da disciplina eclesiástica. Esses três elementos são exatamente os mecanismos pelos quais a “embaixada” do Reino funciona: proclama as leis do Rei, marca visivelmente seus cidadãos (batismo e Ceia), e cuida da integridade da cidadania (disciplina).
Ser membro de uma Igreja é inseparável da tarefa de glorificar a Deus diante do mundo:
“A maneira como vivemos pode glorificar a Deus. […] Deus tenciona que a maneira como amamos uns aos outros nos identifique como pessoas que seguem a Cristo. ‘Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros’ (Jo 13.34, 35). Nossa vida corporativa tem de nos identificar como povo dEle e trazer-Lhe louvor e glória.”
(Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável, Vida Nova, 2005, p. 162)
Há aqui uma articulação precisa entre eclesiologia e missão. A Igreja visível, com sua vida comunitária de amor, serve como evidência pública do Evangelho que proclama. O testemunho da Igreja não é apenas verbal, é encarnado, estrutural, visível na qualidade do amor entre seus membros. Isso pressupõe que esses membros sejam identificáveis, comprometidos e responsáveis uns pelos outros.
Considere a seriedade desta imagem: você, como cristão, é um embaixador de Cristo. Mas embaixadores não se autodesignam, são enviados. E a Igreja local é o mecanismo pelo qual essa delegação de autoridade se torna visível e concreta no mundo. Isso significa que pertencer a uma Igreja local não é um acessório da vida cristã — é a forma pela qual sua fé se torna pública, verificável e responsável diante de outros.
Se a Igreja é a embaixada do Reino e o cristão é embaixador de Cristo, o que significa para sua vida cotidiana — seu trabalho, suas finanças, seus relacionamentos — pertencer a essa estrutura de representação?
PONTO 3 — Não Associação, mas Submissão: A Natureza do Compromisso com a Igreja
Exegese de Hebreus 10.24-25 e Atos 2.41-47 (NAA)
Uma das distinções mais decisivas que precisamos fazer é a diferença entre associar-se a uma Igreja e submeter-se a ela. Clubes e associações voluntárias são estruturas nas quais o indivíduo mantém soberania sobre si mesmo: ele entra quando quer, sai quando quer, e a instituição existe para servi-lo. Governos são estruturas de outra natureza: há autoridade legítima, há leis que obrigam, há uma submissão que não é opcional para o cidadão.
A Igreja é mais parecida com um governo do que com um clube. Não porque ela use coerção ou force a participação, mas porque ela carrega uma autoridade delegada por Cristo que não pode ser simplesmente ignorada por quem segue a Cristo como Senhor.
“Os cristãos não se associam às igrejas; eles se submetem a elas. Tanto a igreja quanto o governo, no final das contas, representam a autoridade de Jesus, embora de maneiras diferentes. […] Do ponto de vista dos não cristãos, a igreja local é uma associação voluntária. Ninguém tem de se associar. Já do ponto de vista da vida cristã não é assim: uma vez que escolheu a Cristo, você deve escolher seu povo também, pois trata-se de um pacote fechado.”
(Jonathan Leeman, Membresia na Igreja, Vida Nova, 2016, pp. 28-29)
Essa afirmação é teologicamente audaciosa, mas exegeticamente sólida. O Novo Testamento nunca apresenta um cristão desvinculado de uma comunidade local. Os relatos de Atos 2 mostram que os convertidos no Pentecostes foram imediatamente acrescentados ao número dos discípulos e começaram a viver intensamente em comunidade: “Eram perseverantes no ensino dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (At 2.42). A vida cristã neotestamentária pressupõe pertencimento comunitário, não como opção, mas como padrão.
“O ser membro de uma igreja local não é um acessório antiquado, ultrapassado e desnecessário à verdadeira membresia na igreja universal de Cristo; e tem como objetivo o testemunhar que somos parte da igreja universal. O ser membro de uma igreja local não salva, mas é um reflexo de que somos salvos. E se não há maneiras de refletirmos que somos salvos, como podemos ter certeza de que somos realmente salvos?”
(Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável, Vida Nova, 2005, p. 156)
Esta observação é de grande peso espiritual. A membresia na Igreja local não é a causa da salvação, mas pode ser um reflexo dela. Quando Paulo escreve em 1 João 4.20 que quem diz amar a Deus e odeia seu irmão é mentiroso, ele aponta para uma conexão inquebrável entre a fé professada e o amor vivido em comunidade. Não se pode viver esse amor em comunidade sem o compromisso concreto e público que a membresia representa.
A Confissão de Westminster (Capítulo 25) trata da Igreja visível como o Reino do Senhor Jesus, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação. Essa linguagem forte não é para aterrorizar, mas para despertar: a Igreja local não é periférica ao plano de Deus. Ela está no coração dele.
Se submeter-se à Igreja é inseparável de seguir a Cristo, o que sua relação atual com sua congregação local revela sobre a qualidade de sua submissão ao Senhor Jesus?
PONTO 4 — Doze Razões para Uma Decisão: A Urgência Pastoral da Membresia
Exegese de 1 Pedro 2.9-10 e Filipenses 3.20 (NAA)
O texto de 1 Pedro 2.9-10 é uma das descrições mais belas e densas da identidade da Igreja no Novo Testamento: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido por Deus, para que proclameis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós que antes não éreis povo, mas agora sois povo de Deus.”
Observe as categorias políticas: geração, sacerdócio, nação, povo. Pedro não usa uma linguagem de associação voluntária. Ele usa a linguagem de identidade coletiva, de pertencimento nacional, de missão pública. E Filipenses 3.20 completa o quadro: “Mas a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.” Somos cidadãos de uma pátria celestial, vivendo como estrangeiros e peregrinos nesta terra e é precisamente por isso que precisamos de uma embaixada.
Ao sintetizar tudo isso em forma pastoral, Leeman oferece doze razões pelas quais a membresia na Igreja é necessária e urgente:
1. É bíblica. Jesus estabeleceu a igreja local e todos os apóstolos cumpriram seu ministério através dela. A vida cristã no Novo Testamento é a vida da igreja. Os cristãos de hoje deveriam esperar e desejar o mesmo.
- Mateus 16:18: “Também eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”
- Atos 2:47: “louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, o Senhor lhes acrescentava dia a dia os que iam sendo salvos.”
2. A igreja é seus membros. Ser uma igreja no Novo Testamento é ser um de seus membros. E você deseja ser parte da igreja porque Jesus veio resgatá-la e reconciliá-la consigo mesmo.
- 1 Coríntios 12:27: “Ora, vocês são o corpo de Cristo e, individualmente, membros desse corpo.”
- Efésios 5:25: “Maridos, amem a sua esposa, como também Cristo amou a igreja e se entregou por ela.”
3. É pré-requisito para a Ceia do Senhor. A Ceia do Senhor é a refeição da igreja reunida — isto é, de seus membros. Ela é a bandeira que torna a igreja visível às nações.
- 1 Coríntios 11:20: “Quando vocês se reúnem no mesmo lugar, não é para comer a ceia do Senhor.”
- 1 Coríntios 11:33: “Assim, meus irmãos, quando vocês se reúnem para comer, esperem uns pelos outros.”
4. É como você oficialmente representa Jesus. A membresia é a legitimação da igreja de que você é um cidadão do reino de Cristo e, portanto, portador do passaporte de representante de Jesus diante das nações.
- Mateus 16:19: “Eu lhe darei as chaves do Reino dos Céus; o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus; e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus.”
- 2 Coríntios 5:20: “Portanto, somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por meio de nós. Em nome de Cristo, pois, pedimos que se reconciliem com Deus.”
5. É como você declara sua maior fidelidade. Sua membresia, visível quando você participa da Ceia do Senhor, é um testemunho público de que sua fidelidade a Jesus está acima de tudo — acima de julgamentos e perseguições.
- Atos 5:29: “Mas Pedro e os demais apóstolos responderam: — É necessário obedecer a Deus antes que aos homens.”
- Mateus 10:32: “Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.”
6. É como você incorpora e experimenta as imagens bíblicas. É no contexto das estruturas de prestação de contas da igreja local que cristãos vivem e experimentam a interligação do corpo, a plenitude do templo e a segurança e intimidade da família.
- Efésios 2:19: “Assim, vocês não são mais estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus.”
- 1 Coríntios 12:26: “Se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, todos os outros se alegram com ele.”
7. É como você serve outros cristãos. A membresia ajuda você a saber quais cristãos no planeta Terra você é especificamente responsável por amar, servir, advertir e encorajar — cumprindo assim suas responsabilidades bíblicas com o corpo de Cristo.
- Gálatas 6:10: “Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.”
- Hebreus 10:24: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras.”
8. É como você segue os líderes cristãos. A membresia o ajuda a saber quais líderes cristãos você é chamado a obedecer e seguir — permitindo que você cumpra suas responsabilidades bíblicas para com eles.
- Hebreus 13:17: “Obedeçam aos seus líderes e submetam-se a eles, pois zelam pela alma de vocês, como quem deve prestar contas. Que eles façam isto com alegria e não gemendo, porque isto não seria proveitoso para vocês.”
9. Ajuda os líderes cristãos a liderarem. A membresia permite que os líderes saibam de quais cristãos eles terão de prestar contas perante Deus — tornando o pastoreio responsável e concreto.
- Atos 20:28: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho no qual o Espírito Santo os constituiu bispos, para pastorearem a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.”
- 1 Pedro 5:2: “pastoreiem o rebanho de Deus que está sob o cuidado de vocês, não por obrigação, mas de boa vontade, como Deus quer; nem por ganância, mas com dedicação.”
10. Permite a disciplina eclesiástica. Ela dá o lugar biblicamente determinado para participar do trabalho de disciplina da igreja de forma responsável, sábia e amorosa.
- Mateus 18:17: “E, se ele se recusar a ouvir os dois ou três, diga-o à igreja; e, se ele se recusar a ouvir também a igreja, considere-o como um gentio e um publicano.”
- 1 Coríntios 5:12: “Pois com que direito eu haveria de julgar os que estão de fora? Não são os de dentro que vocês devem julgar?”
11. Dá estrutura à vida cristã. Ela cria o ambiente adequado para a obediência a Jesus em cenário da vida real, no qual a autoridade é de fato exercida sobre nós — o programa de disciplina de Deus.
- Efésios 4:11-12: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço e para a edificação do corpo de Cristo.”
- Tito 2:15: “Fale estas coisas, exorte e repreenda com toda a autoridade. Ninguém o despreze.”
12. Constrói um testemunho e convida as nações. A membresia coloca à mostra a lei alternativa de Cristo para o universo observar. Os próprios limites da membresia produzem uma sociedade de pessoas que convidam as nações a algo melhor — o programa de evangelismo de Deus.
- Mateus 5:16: “Assim brilhe também a luz de vocês diante dos outros, para que vejam as boas obras que vocês fazem e glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus.”
- João 13:35: “Nisto todos conhecerão que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros.”
Há um fio que atravessa todas as doze razões: a membresia não é para seu conforto individual é para a glória de Jesus Cristo e o bem do Seu povo. Ela estrutura o amor, torna o discipulado concreto, dá forma visível ao testemunho cristão e cria o ambiente em que a disciplina — tanto formativa quanto corretiva — pode acontecer com amor e sabedoria.
Quando observamos o paradoxo das igrejas evangélicas contemporâneas: números de membros inflados, mas poucos presentes; cadastros extensos, mas comunidade inexistente. Isso não é apenas um problema estatístico é um problema espiritual e testemunhal:
“O que estas igrejas transmitem sobre o cristianismo para o mundo ao seu redor? O que isto significa a respeito da importância do cristianismo em nossas vidas? E qual é o estado espiritual dessas pessoas, se não têm frequentado a igreja por meses ou mais tempo?”
(Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável, Vida Nova, 2005, p. 152)
A membresia sem compromisso não apenas prejudica o membro descomprometido — ela prejudica o testemunho da Igreja inteira diante do mundo. Uma embaixada onde metade dos diplomatas nunca aparece ao trabalho não é uma embaixada funcional. É uma fachada. E fachadas não representam reis.
Se você tivesse de justificar diante do Rei Jesus, hoje, a qualidade de seu compromisso com Seu povo e com Sua Igreja local, o que você responderia?
CONCLUSÃO — Pedras Vivas num Templo Santo
Ao longo desta lição, vimos que a Igreja não é um clube, não é um prestador de serviços, não é uma associação voluntária. Ela é a embaixada do Reino eterno de Cristo — a instituição que Ele mesmo fundou, com a autoridade que Ele mesmo delegou, para um propósito que Ele mesmo determinou: que o mundo conheça quem representa Jesus.
Vimos que a membresia não é uma formalidade burocrática, mas uma declaração pública de cidadania no Reino. Que a submissão à Igreja local é inseparável da submissão ao Senhor Jesus. Que as imagens bíblicas — corpo, família, templo, nação, rebanho — não são figuras decorativas, mas descrições reais de uma realidade que começa aqui, nas congregações locais imperfeitas e pecadoras, e se completa na assembleia final dos redimidos.
E vimos, acima de tudo, que essa compreensão tem implicações práticas e transformadoras para a vida do cristão. Não se trata de criar mais uma obrigação religiosa — trata-se de despertar para o que a vida cristã realmente é: uma caminhada comunitária, pactual, responsável e amorosa com o povo do Rei.
A transformação que esta verdade opera é tríplice. Primeiro, ela transforma a mente: derruba o individualismo que pressupõe que posso ser cristão sozinho e substitui por uma visão coletiva e eclesiológica da fé. Segundo, ela transforma o coração: convoca ao amor concreto pelos irmãos — não sentimentalismo vago, mas comprometimento real com pessoas reais, que pisam em nossos calos e nos quais pisamos. Terceiro, ela transforma a prática: da assiduidade ao culto, ao dízimo, à oração pelos membros, à sujeição à liderança — a membresia séria muda como você usa seu tempo, dinheiro e energia.
É preciso reconhecer que as igrejas locais decepcionam. Às vezes ferem. Às vezes falham de maneiras que deixam cicatrizes, mas a resposta não é abandonar a Igreja — é permanecer nela, perdoar, perseverar, porque é Cristo, não a perfeição humana, quem constrói Seu templo.
A convocação para todos nós é um chamado à fé viva, ao arrependimento genuíno do individualismo espiritual e à adoração do Rei que comprou Sua Igreja com o próprio sangue.
“Lemos em Efésios 5.25: ‘Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela’. Atos 20.28 nos recorda que Ele ‘comprou’ a igreja ‘com o seu próprio sangue’. Se somos seguidores de Cristo, também amaremos a igreja pela qual Ele deu sua vida. Portanto, frequente uma igreja e una-se a ela. Junte-se com outros cristãos. Faça isso para que os incrédulos ouçam e vejam o evangelho; para que os crentes fracos desfrutem de cuidado; para que os crentes fortes canalizem suas energias de um modo excelente; para que os líderes da igreja sejam encorajados e auxiliados. Faça isso para que Deus seja glorificado.”
(Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável, Vida Nova, 2005, pp. 168-169)
Quando o cardeal Thomas More, no momento de sua execução, foi pressionado a renunciar à sua fidelidade para salvar a própria vida, ele respondeu com essas palavras: “Não é uma questão de razão; é uma questão de amor.” Fidelidade a Cristo e ao Seu povo não é primeiramente um obstáculo a ser vencido, é um amor a ser vivido.
E você, peregrino e estrangeiro neste mundo, cidadão do céu e membro da família de Deus: que decisão você tomará hoje em relação à Igreja pela qual Cristo derramou Seu sangue?
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
Leia também:
- LIÇÃO 01 – O que é o Evangelho?
- LIÇÃO 02 – O que é o Evangelização?
- LIÇÃO 03 – Uma Cultura de Evangelização
- LIÇÃO 04 – Precisamos de evangelistas intencionais
DÚVIDAS MAIS FREQUENTES SOBRE O TEMA
1. A membresia formal é mesmo necessária, ou basta frequentar uma igreja? Sim, o Novo Testamento pressupõe pertencimento formal e responsável, não apenas presença casual. A Igreja primitiva sabia quem eram seus membros (At 2.41; 4.4). Líderes tinham responsabilidade por ovelhas específicas (1Pe 5.2; At 20.28), o que pressupõe identificação formal.
2. Posso me submeter ao governo de uma Igreja com a qual discordo em alguns pontos? Sim, desde que as discordâncias sejam em questões secundárias, não em doutrinas essenciais do Evangelho. Nenhuma Igreja humana é perfeita. A submissão à Igreja local não exige concordância em tudo, exige comprometimento com o corpo e sujeição à liderança em assuntos de discipulado.
3. E os cristãos que vivem em países onde a Igreja é perseguida e não podem se reunir regularmente? O princípio da membresia e do pertencimento comunitário permanece válido — o que muda são as circunstâncias de sua expressão. Cristãos perseguidos frequentemente demonstram um compromisso mais profundo com a comunidade eclesial precisamente porque sabem o que custa pertencer ao Reino de Cristo.
PERGUNTAS PARA REFLEXÃO
- Você já refletiu sobre por que é membro desta igreja, além dos motivos práticos ou sentimentais? O que sua resposta revela sobre sua compreensão da Igreja?
- “Tratamos a Igreja local à semelhança de um clube ao qual nos associamos ou não.” Em que áreas de sua vida você percebe esse comportamento de consumo em relação à sua congregação?
- A imagem da Igreja como embaixada implica que cada membro é um embaixador autorizado de Cristo. Como você tem exercido essa representação — no trabalho, na família, na vizinhança?
- Unir-se a uma Igreja não é apenas receber benefícios, mas assumir responsabilidades — inclusive por pessoas com quem você não tem nada em comum além de Jesus. Você está disposto a esse nível de comprometimento?
- Se Cristo amou a Igreja a ponto de dar Sua vida por ela, o que isso implica para o amor que você deve nutrir pela congregação local à qual pertence — com todas as suas imperfeições?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Literatura Cristã Reformada
LEEMAN, Jonathan. Membresia na Igreja: Como o Mundo Sabe Quem Representa Jesus. Vida Nova, 2016. 113 p. (Série 9Marcas, organizada por Mark Dever e Jonathan Leeman)
DEVER, Mark. Nove Marcas de uma Igreja Saudável. Vida Nova, 2005. 298 p.
Confissão de Fé de Westminster (1646). Capítulo 25: “Da Igreja”. Disponível em edições históricas e na Cultura Cristã.
Confissão Belga (1561). Artigo 29: “As Marcas da Igreja Verdadeira”.
Catecismo de Heidelberg (1563). Perguntas 83-85: “As chaves do Reino.”
Literatura da História da Igreja
EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. Editora Cpad / Fonte Editorial. Livro V, cap. 1. (Testemunho sobre Sanctus, mártir de 177 d.C.)
PELIKAN, Jaroslav. The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine. University of Chicago Press, 1971-1989. 5 vols. (Referência para a historiografia cristã e o papel de Eusébio)
Literatura Universal
BOLT, Robert. A Man for All Seasons [Um Homem para a Eternidade]. Samuel French, 1960. (Citado em Dever, p. 167-168: “Não é uma questão de razão; é uma questão de amor.” — Fala de Thomas More)

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!
