PROCURA-SE HOMENS DE DEUS

A Igreja precisa de libertadores, não de mascotes.

1 Pedro 5.3. “Não como se fossem senhores sobre aqueles que lhes foram confiados, mas tornando-se exemplos para o rebanho.”

A crise no coração da Igreja

Existe uma crise silenciosa que não aparece nos relatórios de crescimento das igrejas, não é debatida nas conferências de liderança e raramente é nomeada nos seminários teológicos, mas ela corrói a vitalidade do cristianismo com a eficiência lenta e invisível da ferrugem, uma crise é de caráter, é uma crise de homens. Pedro, escrevendo às igrejas dispersas da Ásia Menor sob a sombra iminente da perseguição imperial, não convocou os líderes a serem mais eficientes, mais visíveis ou mais populares. Convocou-os a serem exemplos, a exercerem uma autoridade que não domina, mas que serve, que não exige submissão, mas que a inspira pela qualidade da vida vivida diante daqueles que estão ao seu redor.

A.W. Tozer, com a percepção cortante que o caracterizou ao longo de todo o seu ministério profético, diagnosticou o mesmo problema:

“A igreja suspira por homens que se consideram sacrificáveis na batalha da alma, homens que não podem ser amedrontados pelas ameaças de morte, porque já morreram para as seduções deste mundo.”

A.W. Tozer, O Preço da Negligência, editora Mundo Cristão

O homem que já morreu não pode ser ameaçado e é exatamente esse tipo de homem que o momento exige.

Será que a igreja ainda produz esse tipo de homem ou aprendeu a preferir os que não perturbam?

Quando os cristãos foram substituídos por mascotes?

A história da igreja é, em muitos de seus capítulos mais luminosos, a história de homens que recusaram a segurança da aprovação. Atanásio de Alexandria, no século IV, foi exilado cinco vezes por recusar-se a ceder ao arianismo, mesmo quando imperadores e bispos o pressionavam de todos os lados, nasceu daí a expressão “Athanasius contra mundum, Atanásio contra o mundo”. Martinho Lutero, diante da Dieta de Worms em 1521, poderia ter recuado, negociado, sobrevivido com a reputação intacta; em vez disso, declarou que não podia agir contra a consciência, pois “aqui estou, e não posso fazer de outra forma.” João Calvino, em Genebra, foi expulso da cidade que amava e para a qual retornou três anos depois, não porque as circunstâncias mudaram, mas porque a voz de Deus era mais forte do que a memória do insulto. Philip Schaff, em sua obra História da Igreja cristã, observou que a Reforma não foi primariamente um movimento de ideias, mas um movimento de homens, homens que haviam encontrado em Deus uma segurança tão sólida que as ameaças do mundo perderam o poder de determinar suas escolhas.

Tozer enxergava, com dor profética, que esse tipo de homem havia se tornado raro. Em seu lugar, proliferaram líderes moldados pelo consenso, calibrados pela audiência, movidos pelo medo, não o temor santo de Deus, mas o temor mundano da desaprovação. A consequência foi inevitável: declarações que ecoam o “zeitgeist – espirito do tempo” ao invés de proclamar a eternidade e igrejas que convidam ao conforto, mas não a transformação de vida.

Como chegamos ao ponto em que a coragem se tornou exceção, e a acomodação, a norma?

A liberdade que nasce da morte

Pedro escreve a cristãos que estão prestes a enfrentar a perseguição. Sua exortação não é à sobrevivência estratégica, mas à fidelidade exemplar e isso pressupõe uma qualidade interior que nenhum treinamento pode produzir: a liberdade que nasce de quem já morreu para si mesmo.

“Tais homens estarão livres das compulsões que controlam os homens mais fracos. Não serão forçados a fazer as coisas pelo constrangimento das circunstâncias; sua única compulsão virá do íntimo e do alto.”

A.W. Tozer, O Preço da Negligência, editora Mundo Cristão

A expressão “do íntimo e do alto” é teologicamente densa. Ela aponta para a operação conjunta do Espírito Santo, que age de dentro para fora e da autoridade soberana de Deus, que convoca de cima para baixo. O homem que obedece a essa dupla compulsão não pode ser controlado por ameaças externas, porque sua motivação não tem origem externa. R.C. Sproul, comentando o caráter dos reformadores, observou que a coragem cristã genuína não é ausência de medo, mas é a presença de uma lealdade que supera o medo. João Calvino, nas Institutas da Religião Cristã, afirmou que o autoconhecimento verdadeiro começa com o reconhecimento da própria nulidade diante de Deus e é exatamente essa nulidade que liberta o homem da tirania da autopreservação. Quem nada tem a perder porque já perdeu tudo diante de Cristo é o homem mais livre que existe.

O medo como força de destruição

Existe um mecanismo que corrói a vida cristã por dentro: o medo disfarçado de responsabilidade. Não é o medo aberto e confessado, mas o medo que se camufla sob o vocabulário da sabedoria, da prudência e da consideração. Ele escreve que “muito do que a igreja faz em nossos dias, ela o faz porque tem medo de não fazê-lo, atiram-se em projetos motivados apenas pelo temor de não se envolverem em tais projetos.” Esse diagnóstico é perturbador porque descreve um cristianismo que perdeu seu centro de gravidade. Quando a decisão é determinada pela pergunta “o que os outros esperam que eu faça?” ao invés de “o que Deus ordena que eu faça?”, o resultado inevitável é uma igreja que perambula ao sabor das expectativas coletivas, sem direção própria e sem autoridade moral.

O Amor como Estrutura da Coragem

Seria um equívoco fatal interpretar o chamado de Tozer a homens corajosos como um chamado a homens duros. A dureza é frequentemente a armadura dos inseguros; a coragem genuína coexiste com a ternura, porque nasce do mesmo amor que partiu os corações dos profetas. Tozer é explícito:

“Outra característica do verdadeiro homem de Deus tem sido o amor. O homem livre, que aprendeu a ouvir a voz de Deus e ousou obedecê-la, sentiu o mesmo fardo moral que partiu os corações dos profetas do Antigo Testamento, esmagou a alma de nosso Senhor Jesus Cristo e arrancou abundantes lágrimas dos apóstolos.”

A.W. Tozer, O Preço da Negligência, editora Mundo Cristão

Jeremias chorou sobre Jerusalém antes que ela caísse. Paulo escreveu a Timóteo com a ternura de um pai que sabe que está enviando um filho jovem para um campo de batalha. Jesus, ao ver as multidões, não sentiu irritação pela sua ignorância — sentiu compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor (Mateus 9.36). O homem de Deus que Pedro descreve em 1 Pedro 5.2-3 é aquele que apascenta voluntariamente (hekousiōs), não por obrigação ou ganho desonesto, mas por amor genuíno ao rebanho. Jonathan Edwards, ao refletir sobre os grandes avivamentos do século XVIII, identificou o amor sobrenatural como a marca distintiva das obras genuínas do Espírito e observou que onde o amor se ausenta, a coragem degenera em crueldade e a convicção degenera em arrogância.

Libertadores, não administradores

“Os libertadores” são homens que Deus envia em resposta ao clamor do povo, assim como enviou Moisés ao Egito. Essa imagem é teologicamente precisa: Moisés não foi ao Egito com uma estratégia de comunicação refinada, nem com aprovação do comitê de liderança de Israel. Foi com um cajado, uma voz gaga e a palavra de Deus queimando dentro dele. A libertação não precedeu o libertador, ela veio com ele e através dele. “Deus haverá de enviar libertação, ao enviar libertadores. É assim que Ele age entre os homens.” Essa afirmação tem implicações eclesiológicas profundas: o avivamento não é produzido por programas, mas por pessoas; não é gerado por estratégias, mas por santidade; não é convocado por comitês, mas é concedido por Deus a homens que custaram algo a si mesmos para estar onde estão.

Joel Beeke, em seus estudos sobre o puritanismo e a teologia reformada, demonstrou que os grandes períodos de renovação da igreja na história foram invariavelmente precedidos por períodos de intercessão intensa e de uma qualidade de vida interior que criava uma dissonância visível entre o homem de Deus e o ambiente ao redor. Esses homens não eram extraordinários por suas capacidades naturais, mas por sua rendição sobrenatural.

Se Deus envia libertação através de libertadores, a pergunta que cada crente deve fazer não é “quando virá o avivamento?”, mas “que tipo de pessoa Deus precisa que eu me torne para ser parte da resposta?”

Conclusão

Certo em um mundo terrivelmente errado

“A recompensa de tais homens foi a satisfação de estarem certos em um mundo errado.” Não a recompensa da fama, nem do crescimento numérico, nem do reconhecimento eclesiástico, mas a satisfação silenciosa, inabalável e profunda de quem sabe que obedeceu. Agostinho de Hipona, nas Confissões, descreveu o coração humano como inquieto até repousar em Deus e essa inquietação é, paradoxalmente, a mola que impulsiona os homens de Deus a continuarem, mesmo quando o mundo não os acompanha. A paz que transcende o entendimento (Filipenses 4.7) não é a paz da acomodação, mas a paz da obediência, aquela que Deus concede aos que escolheram estar certos diante d’Ele, ainda que errados diante de todos os outros.

Pedro encerra sua exortação com uma promessa: “Quando aparecer o Supremo Pastor, recebereis a incorruptível coroa da glória” (1 Pedro 5.4). O horizonte do homem de Deus não é a aprovação do próximo domingo, mas a aprovação na vinda do Senhor. Esse horizonte eterno é o que liberta o cristão de toda a tirania do presente.

A questão que permanece e que não pode ser respondida por mais um sermão, mais uma conferência ou mais um livro, é pessoal e intransferível: você está disposto a ser esse tipo de homem?

E Agora, Como Viveremos?

Não estamos aqui para lamentar por um passado idealizado que não existe mais; estamos sendo convocados para agirmos agora. E a convocação, concretamente, começa no interior antes de se manifestar no exterior. A Bíblia instrui com precisão em Tiago 4.10: “Humilhai-vos diante do Senhor, e ele vos exaltará.” A ordem é reveladora: a humilhação, o ato de se colocar deliberadamente sob a autoridade de Deus, morrendo para a autopreservação e para o desejo de aprovação, precede a exaltação. Não como mérito, mas como postura.

O homem de Deus não é apenas um líder, um oficial ou pastor, é o pai no lar, o colega no escritório, o amigo na crise. Em cada um desses contextos, a mesma escolha se repete: a voz de Deus ou a pressão das circunstâncias?

“Quando vierem os libertadores, serão homens de Deus, homens de coragem. Terão Deus ao seu lado, porque serão cuidadosos em permanecer ao lado d’Ele.” O compromisso começa agora, na decisão de hoje, a sós em rendição e conversa com Deus.

Oremos

Senhor e Deus nosso, confessamos que tememos os rostos humanos mais do que o teu rosto. Que buscamos a aprovação dos homens com zelo incomparavelmente maior do que buscamos a tua face. Que construímos plataformas onde deveríamos ter construído altares. Perdoa-nos, Pai. Ensina-nos a sermos homens que já morreram para a sedução do mundo, que já sepultaram a reputação diante de ti e que receberam de volta uma liberdade que nenhuma ameaça pode tirar. Faz com que sejamos instrumentos genuínos do teu Espírito, não mascotes de instituições religiosas. Que o fardo do teu coração pelo povo perdido quebre o nosso coração também. Que a coragem dos profetas e dos mártires não sejam apenas histórias que admiramos, mas caráter que o teu Espírito produz em nós. Em nome de Jesus Cristo, o Supremo Pastor, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. Amém.

Perguntas para Reflexão

1. Tozer descreve o homem de Deus como alguém que “nada tem a proteger, nenhuma ambição a perseguir, nenhum inimigo a temer.” O que, especificamente, você ainda está protegendo, reputação, posição, conforto, aprovação e que está funcionando como um freio à sua obediência radical?

2. A imagem dos “libertadores” evoca Moisés, um homem com limitações óbvias, mas com uma rendição total. Em que área da sua vida Deus tem chamado você a avançar independentemente do apoio popular ou da ausência dele e você ainda não avançou?

3. Tozer encerra com a afirmação de que os libertadores “serão cuidadosos em permanecer ao lado de Deus.” A permanência ao lado de Deus se constrói na disciplina cotidiana, na Palavra, na oração, no silêncio. O que na sua rotina atual favorece essa permanência, e o que a sabota?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

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