Filipenses 4.4-7. “Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se! Que a bondade de vocês seja conhecida por todos. Perto está o Senhor. Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e pela súplica, com ação de graças, sejam conhecidos diante de Deus os seus pedidos. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.”
Estamos em outubro de 1871 e a cidade é Chicago, um incêndio de grandes proporções que ocorreu na cidade de 8 a 10 de outubro de 1871 matou aproximadamente 300 pessoas, destruiu cerca de 9 km2 da cidade e deixou mais de 100 000 pessoas sem ter onde morar. Horatio Spafford observa seu império financeiro desmoronar entre as chamas, o Grande Incêndio consome seus investimentos imobiliários. Dois anos depois, em novembro de 1873, recebe um telegrama com a frase que destroça sua alma: “Salva sozinha, o que devo fazer?” Suas quatro filhas: Annie, Maggie, Bessie e Tanetta, repousam no Atlântico gelado após naufrágio do Ville du Havre. Algum tempo mais tarde, enquanto navega sobre aquelas mesmas águas assassinas, Spafford não amaldiçoa Deus. Não questiona Sua justiça. Não ergue punho aos céus. Ao contrário, escreve: “Se paz a mais doce me deres gozar, se dor a mais forte sofrer, oh! Seja o que for, tu me fazes saber que feliz com Jesus sempre sou.”


Como alguém pode cantar alegria e paz sobre o túmulo de suas quatro filhas? Paulo oferece uma resposta em sua carta aos Filipenses, não como teoria abstrata, mas como o testemunho de um prisioneiro acorrentado: “Alegrem-se sempre no Senhor.” O imperativo grego chairete não sugere; exige. Mas alegria ordenada não é emocionalismo fabricado, é decisão teológica fundamentada na proximidade divina.

Você consegue discernir a diferença entre felicidade circunstancial e alegria cristã capaz de sobreviver aos momentos mais terríveis de sua vida?
Cartas das Correntes
Paulo escreve Filipenses de uma prisão romana, provavelmente aguardando julgamento que poderia resultar em execução. Filipos era uma colônia romana militarizada onde cristãos sofriam pressão para confessar “César é Senhor.” Paulo entende que paz coletiva da igreja depende da saúde espiritual individual dos cristãos em sua relação pesoal com o Senhor.
O termo grego epieikes (v.5) — traduzido como “bondade” ou “moderação”, tem o sentido de ceder com paciência, refere-se a alguém que não insiste em direitos próprios porque confia que “o Senhor está perto.” Esta proximidade (engys) carrega dois sentidos: a presença atual de Cristo na vida do cristão e retorno iminente de Jesus Cristo. Ambas as verdades fundamentam a paz cristã em meio ao caos.
Quando refletimos sobre o apóstolo Paulo preso e ordenando aos cristãos que tenham alegria e Spafford compondo: “It Is Well With My Soul” (Está Bem Com Minha Alma), sobre túmulo aquático de seus pequeninos filhos, como cada um de nós encaramos nossos episódios de ansiedade?
“Quando a paz como um rio atende meu caminho,
Quando tristezas como ondas do mar rolam,
Seja qual for a minha sorte, Tu me ensinaste a dizer
Está bem, está tudo bem com a minha alma.”
Refrão:
“Está tudo bem com a minha alma,
Está bem, está tudo bem com a minha alma.”
A Anatomia da Alegria Inabalável
A Alegria como mandamento. Paulo não sugere alegria; ordena-a. O imperativo indica uma ação contínua, não reação emocional passageira. Não é sentimento que produzimos, mas decisão fundamentada em realidade objetiva e bíblicamente fundamentada: A nossa união com Cristo.
John Piper articula: “Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos Nele.” (John Piper, Teologia da Alegria, Editora Vida Nova, 2012, 368 páginas). A Alegria cristã não é traição diante do sofrimento; é testemunho de que algo maior que as circunstâncias governam a alma do fiel. Spafford demonstrou esta verdade quando escreveu: “Quando tristezas, como ondas do mar, rolarem; Seja qual for meu destino; Tu me ensinaste a dizer; Tudo está bem, está tudo bem com a minha alma; Está tudo bem com a minha alma.”
Observe o paradoxo: Quando tristezas, como ondas do mar, rolarem, Ou seja, quando muitas aflições me atormentam, há uma certeza que permanece. Não porque a dor seja ilusória, mas porque Redentor é real. Esta não é psicologia positiva ou auto ajuda barata, mesmo que disfarçada pela voz de “pastores” midiáticos; é teologia bíblica solida encarnada na alma de cristãos fiéis.
A Ansiedade como inimigo. O termo grego merimnate (v.6) descreve um coração dividido e uma mente estrangulada por preocupações. Paulo não nos ordena suprimir nossas emoções. O antídoto não é esforço mental para vencer nossas decepções e dores, mas o exercício permanente da oração. O tripé “oração, súplica, ação de graças” não é fórmula mágica; é Deus moldando nossa alma.
Veja o que C.S. Lewis nos diz: “Preocupar-se é pensar em círculos. Orar é pensar em linha reta em direção a Deus.” (C.S. Lewis, Cartas a Malcolm, Editora Vida, 2009, 144 páginas). Quando Spafford navegou sobre túmulo de suas filhas, enfrentou escolha: calcular as perdas ou contemplar a face gloriosa de Jesus Cristo. Escolheu o segundo: “Está tudo bem com a minha alma; E, Senhor, apressa o dia; Quando minha fé será vista; As nuvens serão enroladas como um pergaminho; A trombeta soará; E o Senhor descerá; Sendo assim, está tudo bem com minha alma!”
Gratidão em meio à tragédia não é negação da dor; é afirmação de que a graça é maior que desgraça sofrida. Spafford não fingiu que estava tudo bem com as circunstâncias que estava enfrentando; declarou que estava tudo bem com sua alma porque sua vida estava presa a Cristo.
A Paz como sentinela. Filipos era cidade militarizada e Paulo a mensagem com essa linguagem ao fazer uso do verbo phrouresei (v.7), um termo militar que significa “montar guarda.” Como a guarnição romana protegia as portas da cidade contra os invasores, a paz de Deus monta guarda na porta de nossos corações, impedindo que a ansiedade e o medo tomem o controle de nossas almas.
Esta paz “excede todo entendimento” porque não depende de circunstâncias melhorarem, mas da presença divina em meio a tempestade. Isaías 9.6 profetizou que o Messias seria o “Príncipe da Paz”.
“A verdadeira espiritualidade não é medida pela ausência de problemas, mas pela maneira como reagimos quando somos lançados na fornalha do sofrimento.” (D. Martyn Lloyd-Jones, Depressão Espiritual, Editora PES, 2004, 320 páginas). Spafford foi lançado em fornalha mais ardente que maioria de nós jamais experimentará, mas rrespondeu com uma poderosa e bela declaração de fé e confiança em Cristo, que sua igreja continua cantando fervorosamente a mais de 150 anos.
Eugene Peterson nos ensina que: “A fé autêntica não é uma equação simplista de obediência = prosperidade. A fé verdadeira é aquela que, mesmo quando tudo o mais é arrancado, agarra-se ao Criador com ainda mais força.” (Eugene Peterson, Uma Obediência Longa na Mesma Direção, Editora Textus, 2005, 224 páginas). Spafford perdeu suas filhas, fortuna e até um filho que nasceu após a tragédia mas vem a falecer um pouco depois, mas ainda assim não perdeu o Cristo de vista e Cristo foi suficiente.
Nem sempre o naufrágio é o fim
Em 22 de novembro de 1873, o Ville du Havre afundou em doze minutos, quase o mesmo tempo que você levou para ler este devocional. Nesse curto espaço de tempo, Horatio e Anna Spafford se viram separados de suas amadas filhas. Semanas depois, Horatio navegou sobre túmulo delas e escreveu hino que consola milhões há mais de 150 anos. Não porque encontrou uma explicação satisfatória para tragédia, mas porque encontrou aquele que transcende tragédia. Philip Bliss compôs a melodia da canção nomeando-a “Ville du Havre, nome do navio que naufragou” transformando o instrumento de morte em veículo de adoração. Alegria ordenada em Filipenses 4.4 não é emocionalismo fabricado; é decisão teológica de confiar que Deus é bom mesmo quando vida não é.
E agora, como viveremos?
Será que a tragédia que você viveu não está empalidecendo a alegria de Cristo em você? Volte-se para a oração: “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e pela súplica, com ação de graças, sejam conhecidos diante de Deus os seus pedidos. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.” Gratidão em meio à dor não é hipocrisia; é reconhecimento de fidelidade passada enquanto pede ajuda presente. João Calvino ensina: “A aflição é o teste da nossa obediência.” (João Calvino, Comentário sobre Filipenses, Editora Fiel, 2010, 176 páginas).
Oremos
Senhor, reconheço que minha alegria tem sido refém das circunstâncias. Quando vida coopera, Te louvo; quando resiste, murmuro. Perdoa minha inconstância. Ensina-me a alegria fundamentada em Tua presença, não em Tua provisão. Se meu navio afundar, concede-me a graça de cantar sua misericórdia. Não porque a dor seja ilusória, mas porque Tu és real. Porque minha alma está segura não em circunstâncias mutáveis, mas em Cristo imutável. Em nome d’Aquele que é minha paz, amém.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
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Perguntas para Reflexão
1. Minha alegria depende de circunstâncias favoráveis ou da proximidade de Cristo?
2. Quando enfrento ansiedade, busco primeiro soluções humanas ou pratico “oração e súplica com ação de graças”?
3. Se perdesse tudo como Spafford (família, finanças, saúde), Cristo seria suficiente para minha alma permanecer em paz?
4. Estou vivendo como cidadão do céu (Filipenses 3.20) ou permitindo que império terreno dite minha segurança emocional?

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!
