João 17:14-18. “Eu lhes dei a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Como tu me enviaste ao mundo, eu também os enviei ao mundo.”
A separação bíblica não é fuga do mundo, mas a postura do enviado que vive no mundo sem ser por ele formado, um povo que pertence ao céu e exatamente por isso, tem algo urgente a dizer à terra.
“O mundo está cada vez pior, talvez o melhor que eu possa fazer seja me afastar.” A Igreja de Cristo sempre teve de lidar com essa tentação de manter-se longe, como se fosse um gesto de profunda espiritualidade. Menos contato, menos contaminação, menos mundo, mais santidade.
O problema é que Jesus orou exatamente o contrário. Na noite mais tensa de sua vida, às vésperas da cruz, ele não pediu ao Pai que retirasse os seus do mundo. Pediu que os guardasse no mundo, santificados, enviados, presentes. Agostinho, em A Cidade de Deus, trabalho essa tensão ao descrever o cristão como aquele que:
“vive como peregrino na cidade terrena, sem deixar de cumprir suas obrigações para com ela, porque pertence a uma cidade que ainda está por vir.” Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus, Livro XIX, Capítulo XVII, Editora Vozes, 2012, p. 487.
Somo peregrino e não fugitivo, estamos presente no mundo, sem jamais sermos absorvidos por ele.
Será que você sabe distinguir, entre a separação que santifica e a separação que apenas isola?
Um pedido incomum
João 17 é chamado de Oração Sacerdotal de Jesus com razão, é o momento em que o Sumo Sacerdote intercede pelo seu povo antes de entrar no sacrifício. Mas em sua oração Jesus pede algo incomum.
O contexto histórico do cristianismo primitivo não era um ambiente acolhedor para Igreja nascente, os primeiros cristãos viviam sob o Império Romano, um mundo hostil, pagão e, por vezes, mortalmente perigoso. E ainda assim, nossos irmãos do primeiro século não formaram comunidades religiosas isoladas nas primeiras décadas. Vendiam bens, serviam os pobres, cuidavam dos doentes durante as epidemias, e eram os últimos a abandonar as cidades enquanto outros fugiam. Philip Schaff observou que:
“o poder expansivo do cristianismo primitivo estava diretamente ligado à sua presença ativa no tecido social do Império — os cristãos não fugiram do mundo; eles o transformaram por dentro.” Philip Schaff, História da Igreja Cristã, vol. 1, Editora CPAD, 2009, p. 234.
Uma separação que envia
“Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo”, os filhos de Deus vivem numa realidade que já foi estabelecida no momento da regeneração. Esse ponto é um ponto decisivo, quando a separação é tratada como performance, como uma lista de coisas a evitar, ela inevitavelmente degenera em legalismo ou em orgulho espiritual. Mas quando é entendida como identidade, ela libera o crente para viver no mundo sem medo de ser contaminado por ele, porque a sua distinção não depende de quanto consegue se isolar, mas de a quem ele pertence, neste caso a Cristo.
Herman Bavinck, distinguia entre a santidade como atributo de Deus que é comunicado ao crente e a santidade como separação geográfica ou social. Para Bavinck, a santidade bíblica é sempre relacional antes de ser comportamental: é pertencer a Deus de tal forma que esse pertencimento reorienta toda a existência.
O cristão que foge do mundo para preservar sua santidade confunde separação com isolamento e ao fazer isso, perde tanto a santidade quanto o mundo.
Paulo, escrevendo aos coríntios, precisou desfazer um equívoco que ainda hoje persiste. A separação cristã não é alcançada evitando pecadores no mundo é preservada através da pureza da comunhão dentro da Igreja. O problema de Corinto não era que os cristãos tinham amigos pagãos. Era que haviam permitido que o padrão de vida pagão entrasse na comunhão da Igreja sem ser confrontado.
Somos chamados a nos separar por meio da comunhão, não do contato. A disciplina eclesiástica não é um instrumento de exclusão social é o mecanismo pelo qual a Igreja preserva sua distinção no mundo. Quando a Igreja falha em exercê-la, não apenas perde sua pureza interna; perde também sua credibilidade externa.
“a maior ameaça à Igreja cristã hoje não vem dos inimigos de fora, mas dos inimigos de dentro; vem da presença, dentro da Igreja, de um tipo de fé e prática que é anticristã em sua essência.” J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, Editora Cultura Cristã, 2012, p. 160.
Uma Igreja que não se distingue do mundo por dentro não tem nada a oferecer ao mundo por fora. O sal que perdeu o sabor não apenas deixa de temperar, passa a ser pisado.
Aqui está o ponto que toda teologia de separação precisa alcançar para não se tornar autocentrada. Jesus não apenas afirma que os seus não são do mundo. Ele os envia ao mundo, com a mesma autoridade e o mesmo propósito com que o Pai o havia enviado.
A santidade, portanto, não é um estado a ser preservado pelo isolamento, mas uma missão a ser cumprida pela presença. O cristão separado é, por definição, um cristão enviado e o enviado não pode cumprir sua missão a distância. Os cristãos da Igreja primitiva que cuidaram dos doentes durante as grandes epidemias romanas não estavam comprometendo sua santidade, estavam expressando-a. Sua separação do mundo não era visível em sua ausência dos lugares de sofrimento, mas em sua presença diferente nesses lugares: servindo onde outros fugiam, esperando onde outros desistiam, amando onde outros odiavam.
“os cristãos que mais transformaram o mundo não foram aqueles que mais falaram sobre a cristandade, mas aqueles que pensavam tanto no mundo vindouro que tornaram úteis todos os esforços neste.” C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples, Editora Vida, 2009, p. 134.
Somos separados o suficiente do mundo para vê-lo com clareza e estamos suficientemente presentes para amá-lo de perto.
Jesus não pede ao Pai que construa uma muralha ao redor dos seus. Ele pede que os santifique na verdade e identifica imediatamente essa verdade com a Palavra. Antes de ser uma distância física ou social, a separação do cristão acontece na sua visão de mundo e naquilo que ele aceita como verdade.
O cristão é distinto do mundo porque pensa diferente sobre o que é real, o que é bom, o que é belo e o que é verdadeiro. Sua Bíblia não é apenas um livro de devoção é o documento base de uma cultura contrária a visão que o mundo propaga e é exatamente por isso que a exposição fiel da Palavra, semana após semana, é o ato mais politicamente subversivo que uma comunidade cristã pode praticar: ela forma pessoas que enxergam o mundo através de categorias que o mundo não controla.
Quando essa formação pela Palavra é negligenciada, quando o sermão dominical vira palco de entretenimento ou motivação genérica, a Igreja perde sua capacidade de ser distinta. Os membros começam a pensar como o mundo, a valorizar o que o mundo valoriza, a temer o que o mundo teme. A separação, sem a ancoragem da Palavra, é impossível de sustentar.
Pertencentes a outro mundo
No fim, a questão é se a comunidade da qual fazemos parte é reconhecivelmente diferente, não por hostilidade ao mundo, mas por pertencer a outro. Onde a Igreja é verdadeiramente separada, santificada pela Palavra, disciplinada pelo amor, enviada em missão, ali o mundo vê algo que não consegue produzir: uma comunidade que perdoa quando o mundo guarda rancor, que serve quando o mundo foge, que espera quando o mundo desespera. Essa é a separação que Jesus pediu, não reclusão, mas distinção, não medo, mas missão.
E Agora, Como Viveremos?
A separação bíblica começa dentro da comunidade cristã, antes de se expressar para fora. Isso tem implicações práticas e urgentes.
Dentro da Igreja: A pureza da igreja é algo importante. Isso não significa criar uma lista de pessoas a evitar, mas significa que o pecado praticado sem arrependimento não pode ser acomodado em nome de uma falsa paz. A disciplina exercida com amor é um ato de misericórdia, para com o pecador, que é confrontado com a realidade, e para com a comunidade, que preserva sua identidade.
No mundo: A igreja de Cristo precisa se fazer presente neste mundo caído. Nos lugares de sofrimento, nas conversas difíceis, nos relacionamentos que exigem paciência. O seu testemunho não é o tamanho do seu círculo cristão é a qualidade da sua presença onde você está. Paulo escreveu em Filipenses 2:15: “para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração torta e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo.”
Oração
Senhor Jesus, Tu que oraste para que os teus não fossem tirados do mundo, mas guardados no mundo — guarda-nos. Perdoa-nos pela separação que é, no fundo, covardia disfarçada de piedade. Perdoa-nos por termos construído muros onde deveríamos ter construído pontes e por termos chamado isso de santidade. Perdoa-nos, também, pela direção contrária: por termos nos misturado ao mundo de tal forma que já não temos nada distinto a oferecer a ele. Que a tua Palavra nos forme de dentro para fora, que ela mude o que amamos, o que tememos, o que esperamos de forma que a nossa distinção seja visível não em nossa ausência do mundo, mas em nossa presença diferente dentro dele. Amém.
Perguntas para Reflexão
- Jesus orou para que seus discípulos não fossem tirados do mundo, mas guardados do mal. Como essa distinção deveria reconfigurar a forma como você pensa sobre “separação” em sua vida diária?
- Christopher Gordon aponta que a busca por “fugir do mundo” pode ser, ela mesma, uma atitude mundana — a tentativa de obter nesta vida o que só será pleno nos novos céus e na nova terra. Em que áreas da sua vida você tem buscado essa fuga, e o que isso revela sobre suas esperanças reais?
- “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.” A pregação e o ensino que você recebe semanalmente estão efetivamente te tornando diferente do mundo — em suas prioridades, seus valores, suas reações — ou a sua formação espiritual está apenas confirmando o que o mundo já diria?
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
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Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!
