VOCÊ NÃO É CRISTÃO SE NÃO AMAR O PRÓXIMO

1 João 4.16-21. “Nós conhecemos o amor que Deus tem por nós, e cremos nele. Deus é amor; e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele. Nisso o amor foi aperfeiçoado em nós: que tenhamos confiança no Dia do Juízo, pois assim como ele é, somos nós também neste mundo. No amor não há medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. O medo produz o tormento; e quem teme não é aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém diz: ‘Amo a Deus’, mas odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? Este mandamento temos recebido dele: que aquele que ama a Deus, ame também a seu irmão.”

Imagine este cenário: um homem frequenta a igreja há décadas, conhece de cor os atributos de Deus, cita com fluência os teólogos da Reforma — e ao mesmo tempo ignora a necessidade do vizinho, trata os irmãos com indiferença fria e jamais perdoou aquele que o feriu. Está tudo bem com esse homem? João diz que não. Mais do que isso: João diz que esse homem é mentiroso.

A linguagem do apóstolo é deliberada e cirúrgica. Não diz que ele está imaturo ou confuso. Diz que é mentiroso. Porque há uma lógica teológica inabalável em jogo: quem afirma amar ao Deus invisível, mas recusa amar o irmão visível, revela que o amor que proclama não existe.

“Um amor a Deus obviamente é mais fácil de ‘declarar’, porque o Todo-Poderoso não está fisicamente entre nós. É fácil falar entusiasticamente d’Ele. Mas a questão é que este amor é claramente percebido na maneira como nos relacionamos com as pessoas ao nosso redor. Principalmente através de nossas ações, elas manifestarão nosso amor a Deus ou nossa falta de amor para com Ele.”

Se o amor ao próximo é prova verificável do amor a Deus, o que sua maneira de tratar as pessoas ao redor diz sobre o estado real da sua fé?

A heresia que nunca nos deixou

João, o último apóstolo vivo, precisa combater uma ameaça que não era externa, era uma espiritualidade sedutora que oferecia experiências místicas elevadas e, ao mesmo tempo, produzia indiferença ativa aos irmãos.

O gnosticismo (uma heresia que defendia a salvação por um conhecimento secreto, pregava o dualismo: o espírito é bom, mas a matéria é má, negando a encarnação de Jesus) que João enfrenta deixa desdobramentos até o dia de hoje. Ele se manifesta na separação entre a fé e a vida prática, ocorrendo quando emoções religiosas ou conhecimentos teológicos não se traduzem em amor concreto e cuidado real com o próximo. É a devoção que enche os olhos de lágrimas no culto dominical e se fecha para os irmãos que sofrem; é a doutrina impecável que sabe nomear cada atributo divino, mas não demonstra nenhum tipo de compaixão com o outro

“Uma das mudanças mais importantes que sempre acompanha o verdadeiro arrependimento e a verdadeira fé, diz a Bíblia, é o crescer em amor genuíno por outras pessoas. Aliás, se esse tipo de mudança não acompanhou sua conversão, há motivo para você questionar se realmente você é cristão.” Mike McKinley, Eu Sou Mesmo um Cristão?, Editora Fiel, 2014, p. 119.

Deus é amor: a ordem das palavras importa

O versículo 16 sustenta todo o argumento seguinte: “Deus é amor”. 1 João 4 nos alerta contra uma inversão teológica fatal: a frase não pode ser revertida para “o amor é Deus”. A ordem não é acidental, é teológica, Deus define o amor; o amor não define Deus. Toda cultura que parte da experiência humana para projetar uma divindade feita de seus próprios afetos está fabricando um ídolo e um ídolo que, convenientemente, jamais exige que amemos quem é difícil de amar.

Para João, o amor cristão não tem origem na capacidade humana de sentir afeto. Tem origem em Deus. O versículo 19 é uma das declarações mais libertadoras da epístola: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” Amar o próximo não é um ato de heroísmo que o cristão produz por esforço, é o percurso inevitável de quem foi atingido pela fonte da vida, Jesus.

Três dimensões do amor que provam a fé

O amor cristão autêntico possui três dimensões que, juntas, formam um retrato impossível de falsificar. A primeira é o amor pelos irmãos na fé. Jesus o elevou à condição de sinal identificador: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35). Não é possível afirmar discipulado e cultivar ódio ou indiferença dentro da comunidade de fé.

A segunda é a compaixão ativa pelos necessitados. João pergunta com precisão cortante: “aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (1 Jo 3.17). O amor de Deus que habita o crente não consegue ficar parado, diante da necessidade ele transborda. Em 197 d.C., o apóstolo Tertuliano registrou que os pagãos de Roma observavam os cristãos com espanto: “Vejam só, eles dizem, o quanto eles se amam mutuamente”.

A terceira dimensão é a mais radical e a mais inimitável: o amor pelos inimigos. Jesus não deixou margem: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam” (Lc 6.27). O crente genuíno ama sobrenaturalmente e é exatamente esse amor contra-intuitivo que não pode ser fabricado por quem ainda não nasceu de Deus.

A inseparabilidade que revela

João não está adicionando uma condição à salvação, está descrevendo o que a salvação genuína produz, assim como Paulo combate a fé sem graça, João combate a graça sem fruto e assim os dois não divergem, se complementam. Imagine uma princesa que comparecesse diante do rei para reivindicar sua herança real, mas se recusasse a tomar lugar à mesa com os outros herdeiros, não estaria exercendo sua realeza, estaria traindo sua identidade. Quem reivindica amar ao Deus invisível, mas recusa amar ao irmão visível, não pratica espiritualidade, pratica mentira.

“Nosso amor é o reflexo do amor de Deus. Não fomos nós que amamos a Deus primeiro. Nosso amor por Deus é apenas uma resposta, é uma consequência do seu imenso amor por nós.”

Amai-vos uns aos outros

Em 197 d.C., o teólogo Tertuliano defendia os cristãos diante das autoridades romanas hostis. Seu argumento não era teológico, era sociológico: olhem como eles se amam. A evidência mais convincente do Evangelho naquele momento não era um tratado filosófico, mas o espetáculo de pessoas que amavam umas às outras além do que a natureza humana consegue explicar.

João escreveu aos seus, séculos antes, com a mesma lógica: o amor ao irmão visível é a prova que não pode ser falsificada. Pode-se fabricar doutrina, pode-se imitar devoção, pode-se performar piedade. Mas o amor que serve o necessitado sem calcular retorno, que perdoa o inimigo sem esperar reconhecimento, que se mantém fiel ao irmão difícil dentro da comunidade, esse amor só tem uma fonte. E quem conhece essa fonte, transborda deste inexplicável amor.

“E agora, como viveremos?”

O mandamento do versículo 21 não é uma carga adicional, é a confirmação de que o amor a Deus e o amor ao irmão são, na economia do Evangelho, um único e mesmo mandamento. Paulo o diz de outro ângulo: “Aquele que não ama não conhece a Deus” (1 Jo 4.8, NAA). Não conhecer a Deus não é um problema intelectual, é um problema existencial, e a cura para esse mal não é se esforçar mais intensamente, mas retornar mais profundamente ao amor recebido. Amar o próximo não começa com força de vontade. Começa com o retorno à fonte: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8, NAA). Quem habita essa realidade, transborda.

Oremos

Deus do amor que chegou primeiro, confessamos que nosso amor é pequeno. Amamos com facilidade quem nos ama, e evitamos com naturalidade quem nos custa. Tratamos os irmãos com impaciência e os necessitados com distância calculada, reivindicamos te amar, mas somos desmascarados quando precisamos estender a mão àqueles por quem o Senhor entregou o próprio filho. Que o teu Espírito Santo nos capacite a amar o irmão difícil, o necessitado invisível, o inimigo que não merece. Não porque somos capazes, mas porque fomos atingidos por um amor que não mediu o custo. Amém.

Perguntas para reflexão

1. João afirma que quem diz amar a Deus e odeia o irmão é mentiroso. Que formas sutis de “ódio” — indiferença, distância, impaciência — você reconhece em si mesmo?

2. Das três dimensões do amor cristão: pelos irmãos, pelos necessitados e pelos inimigos. Em qual dessas três dimensões você mais precisa crescer — e por quê?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

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