VOCÊ NÃO É CRISTÃO SE NÃO PERSEVERAR

Mateus 24.8-13.“Tudo isso é o começo das dores. Então vos entregarão à tribulação e vos matarão, e sereis odiados por todos os povos por causa do meu nome. Muitos tropeçarão, entregar-se-ão uns aos outros e uns aos outros se odiarão. Levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará. Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo.

O cenário que Jesus descreve em Mateus 24 não é confortável. Há tribulação, traição, falsos profetas e amor esfriando. Enquanto as chamas do mundo se multiplicam, a maioria cede e apenas alguns permanecem de pé.

A pergunta que essa passagem lança sobre nós não é suave: Será que você e eu somos como aqueles que permanecem?

“O que importa não é se certo dia nos agimos e falamos como cristãos, mas se continuamos a seguir a Cristo hoje e se continuaremos a fazê-lo até o fim.” Mike McKinley, Eu Sou Mesmo um Cristão?, Fiel, 2014, p. 98.

Se a salvação produz perseverança e não apenas uma decisão pontual, o que isso diz sobre você o trajeto da sua fé até hoje?

Uma antiga crise com um novo nome

A fuga silenciosa da fé não nasceu agora. Judas Iscariotes pareceu um discípulo genuíno até a última noite. Himeneu, Alexandre e Fileto naufragaram na fé depois de andarem com Paulo. Demas, que recebia saudações calorosas nas epístolas do apóstolo e o abandonou “por causa de seu amor pelo mundo” (2 Tm 4.10). Esses nomes habitam o Novo Testamento como advertências esculpidas na pedra fria da história, nos lembrando da necessidade de perseverar sem esmorecer.

João, escrevendo para uma comunidade ferida pelo abandono de líderes influentes, oferece um diagnóstico que ainda hoje ressoa: “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco” (1 Jo 2.19). A deserção não criou ex-cristãos. Revelou quem nunca foi cristão.

“Cremos que os verdadeiros crentes são os que perseveram até o fim; (e) que o apego perseverante deles a Cristo é a marca registrada que os distingue dos que professam a fé superficialmente.” Confissão de Fé Batista de New Hampshire (1833), artigo XI.

A Natureza da Salvação Exige Perseverança

Há uma confusão recorrente que reduz a salvação a uma vacina contra o inferno: toma-se a dose, e o destino eterno está garantido, independentemente de como se vive. Mas essa leitura esvazia o Evangelho. Jesus não veio apenas absolver culpados, veio libertar escravos, ressuscitar mortos, adotar filhos rebeldes e restaurar inimigos (Rm 6.22; Ef 2.5; Lc 15). Se a salvação é transformação da própria natureza do homem e não apenas uma declaração jurídica, então aquele que nenhuma transformação exibe jamais foi salvo.

Não se pode estar sentado numa poça de lama e dizer que foi salvo da lama, não faz nenhum sentido. A perseverança, portanto, não é um requisito adicional imposto ao crente, é a evidência inevitável de que a salvação é real.

A parábola do semeador (Mc 4.3-20) mapeia com rigor clínico as razões pelas quais pessoas que pareciam discípulas abandonam a fé. Dois perfis são especialmente reveladores para Mateus 24: o perseguido que sucumbe à pressão social e religiosa, e o próspero sufocado pela acumulação. O amor que esfria, descrito por Jesus nasce nesses dois solos.

A perseguição cobra um preço visível; a prosperidade cobra um preço invisível. Ambas funcionam como anestésicos espirituais: uma pela dor, outra pelo conforto. Em qualquer dos casos, o resultado é o mesmo — a Palavra é sufocada e a fé se revela infrutífera.

A epistola de Judas nos oferece a compreensão da tensão presente nesse assunto. De um lado, o imperativo: “Guardai-vos no amor de Deus” (Jd 21). De outro, a promessa: Deus “é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória” (Jd 24). A perseverança é ao mesmo tempo responsabilidade do crente e obra soberana de Deus.

Paulo sintetiza os dois lados sem apagar nenhum deles: “desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.12-13). Não há contradição, há colaboração entre a agência humana e a graça divina irresistível. O crente trabalha porque Deus opera; e Deus opera através do trabalho do crente.

“Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.” Filipenses 1.6, NAA.

O Evangelho de João traz a afirmação mais contundente sobre a segurança do crente perseverante: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.27-28). Aqui, Cristo não é apenas o modelo de perseverança ele é o seu fundamento. O que sustenta a corrida do crente não é sua própria determinação, mas a mão do Pastor que jamais afrouxa.

Persevere até o fim

Mateus 24.13 não é ameaça — é diagnóstico. “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo.” Cristo não disse que todos que começaram serão salvos, mas que aqueles que chegarem ao fim evidenciam a autenticidade da fé que professam. A perseverança não produz a salvação, ela a confirma. E ela é possível porque aquele que começou a boa obra em nós tem nome, voz e mãos abertas.

“E Agora, Como Viveremos?”

Perseverar não é romantismo espiritual. É combate. Paulo é direto: “Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna” (1 Tm 6.12, NAA). A vida cristã madura é a de quem sabe que o caminho tem tribulação, falsos profetas, amor que esfria e segue rumo a cristo mesmo assim. Não pela força da vontade, mas pelo reconhecimento de que “o meu justo viverá pela fé; e, se retroceder, nele não se compraz a minha alma” (Hb 10.38, NAA).

Cultive a vida em comunidade — a carta aos Hebreus foi escrita para uma igreja, não para indivíduos isolados. Lembrr-se — “recordai-vos dos dias anteriores” (Hb 10.32) é um ato teológico de resistência. Corra desembaraçado — “desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos com perseverança a carreira que nos está proposta” (Hb 12.1).

Oremos

Senhor e Pastor soberano, confessamos que somos tentados a confundir um começo promissor com uma caminhada verdadeira. Perdoa-nos pelo amor que esfriou, pelas distrações que sufocaram a Palavra, pela fé que por vezes foi mais conveniente do que genuína. Não é a nossa determinação, mas tua graça o que nos sustenta. Que o teu Espírito Santo nos capacite a combater o bom combate, não com arrogância, mas com dependência radical de ti. Para a glória do teu nome. Amém.

8. Para refletirmos

1. Jesus descreve um amor que esfria em Mateus 24.12. O que tem esfriado o amor de Cristo em você, perseguição, prosperidade ou indiferença gradual?

2. O que diferencia uma decisão pontual de uma fé perseverante?

3. Se a perseverança é ao mesmo tempo responsabilidade sua e obra de Deus (Fp 2.12-13), de que modo essa tensão te libera do desespero e da presunção ao mesmo tempo?

4. Qual papel concreto a sua comunidade local de fé tem desempenhado em te ajudar a perseverar — e que papel você tem desempenhado na perseverança dos outros?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

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