Romanos 8:18. “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não podem ser comparadas com a glória que em nós há de ser revelada.”
RESOLUÇÃO 10. “Resolvo quando sentir dor, pensar nas dores do martírio e do inferno.”
Como encarar a dor
“A dor é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo. Enquanto somos felizes, dificilmente nos entregamos a Deus de todo o coração. Tentamos manter algumas áreas de nossa vida sob nosso controle. Quando a dor nos invade, nossa autoconfiança se despedaça, e então, em nossa fraqueza, somos forçados a depender totalmente de Deus.” C.S. Lewis, O Problema do Sofrimento, p. 134.
Existe uma matemática estranha na economia divina do sofrimento. Jonathan Edwards, em sua décima resolução, propôs um cálculo que desafia nossa lógica natural: “quando sentir dor, pensar nas dores do martírio e do inferno.” À primeira vista, parece contraditório buscar consolo contemplando sofrimentos ainda maiores. Contudo, nesta aparente contradição reside uma sabedoria que transcende nossa compreensão imediata.
A resolução de Edwards não é masoquismo espiritual, mas uma reorientação radical de perspectiva. Quando a dor nos visita — seja física, emocional ou espiritual — nossa tendência natural é magnificá-la até que ela ocupe todo o horizonte de nossa consciência. Edwards nos convida a um exercício de comparação que, paradoxalmente, tanto humilha quanto consola, tanto confronta quanto liberta.
“A aflição é uma das misericórdias mais brilhantes que podem acontecer a nós. Não há escola para a humildade como a aflição. Ela revela a nós o orgulho do nosso coração e nos ensina a confiar em Deus. O sofrimento nos ensina não apenas nossa própria fraqueza, mas também a força de Deus.” Charles Spurgeon, Sermões sobre o Sofrimento, p. 67.
“Quando contemplamos nossos pequenos sofrimentos à luz dos grandes sofrimentos dos mártires e das agonias eternas do inferno, nossa perspectiva se transforma. Não minimizamos nossa dor, mas a colocamos em sua devida proporção dentro da grande narrativa da redenção.” D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, p. 234.
Por que não eu?
“O sofrimento é um professor severo, mas eficaz. Ele não pergunta se estamos dispostos a aprender; simplesmente nos ensina. E suas lições, embora dolorosas, são frequentemente as mais valiosas que recebemos na vida.” Fiódor Dostoiévski, Irmãos Karamázov, p. 445.
“A verdadeira medida de um homem não é como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas como ele se mantém em tempos de controvérsia e desafio. O sofrimento revela o verdadeiro caráter.” Charles Dickens, Grandes Esperanças, p. 234.
A profundidade da resolução Edwards reside em sua dupla função: ela nos oferece tanto perspectiva quanto propósito. Ao contemplar as dores do martírio, Edwards nos convida à comunhão mística com aqueles que consideraram Cristo “mais precioso que a própria vida” (Apocalipse 12:11). Estevão, sob as pedras furiosas tiraram sua vida, viu os céus abertos. Policarpo, nas chamas, recusou negar seu Salvador. Perpétua e Felicidade cantaram hinos a caminho da arena.
Estes não eram super-humanos imunes à dor. Eram pessoas como nós, que descobriram uma verdade mais profunda que qualquer sofrimento terreno: a certeza de que suas aflições momentâneas produziam “um peso eterno de glória” (2 Coríntios 4:17). Quando nossa dor de cabeça, nossa angústia financeira, nossa solidão ou nosso luto são colocados ao lado da fogueira de Cranmer (teólogo e clérigo inglês que serviu como Arcebispo de Canterbury durante a Reforma Inglesa) ou dos leões do Coliseu, algo extraordinário acontece. Não é que nossa dor se torne insignificante — ela permanece real e digna de compaixão. Mas ela encontra seu lugar correto na grande sinfonia da redenção.
Edwards, contudo, vai além dos mártires. Ele nos dirige também às “dores do inferno” — não por morbidez, mas por gratidão. Cada pontada de dor que experimentamos nesta vida deveria nos lembrar da dor eterna da qual fomos salvos pela graça. A dor temporal torna-se, assim, uma pregação silenciosa sobre a dor eterna que merecíamos, mas que Cristo suportou em nosso lugar.
Esta resolução transforma nossa hermenêutica do sofrimento. Em vez de perguntarmos “Por que eu?”, começamos a perguntar “Por que não eu?”. Em vez de questionarmos a justiça de Deus, maravilhamo-nos com Sua misericórdia. Entendemos que a misericórdia e o amor divino nos salvaram da condenação eterna.
“A contemplação do inferno não é um exercício de terror, mas de gratidão. Cada momento de sofrimento nesta vida deveria nos lembrar da misericórdia imerecida que nos livrou da condenação eterna. Nossa dor temporal é um lembrete constante da dor eterna da qual fomos salvos.” R.C. Sproul, A Santidade de Deus, p. 156.
A perspectiva eterna do sofrimento
“Cristo não nos promete isenção do sofrimento, mas transformação através dele. Quando sofremos com Ele, nossa dor se torna parte da grande obra redentora que Ele iniciou na cruz e que será consumada em Sua segunda vinda.” Eugene Peterson, Uma Longa Obediência na Mesma Direção, p. 145.
A resolução de Edwards nos ensina que o sofrimento cristão não é fundamentalmente diferente do sofrimento humano em sua experiência imediata, mas é radicalmente diferente em seu significado último. Quando Edwards nos instrui a pensar nas dores do martírio e do inferno durante nossos momentos de dor, ele não está minimizando nosso sofrimento, mas maximizando nossa perspectiva.
Cristo, o maior dos mártires, experimentou todas as dores do inferno em nosso lugar. Ele é tanto o exemplo supremo do sofrimento redentor quanto o substituto que nos livra do sofrimento eterno. Nossa dor, quando vista através da cruz, torna-se participação em Seus sofrimentos e antecipação de Sua glória.
A sabedoria Edwards não nos pede para sermos estoicos que negam a realidade da dor, mas para sermos cristãos que encontram na dor uma porta de entrada para verdades mais profundas sobre a graça, a eternidade e nosso lugar na grande narrativa da redenção.
“A perspectiva eterna é o único antídoto verdadeiro para o desespero temporal. Quando vemos nosso sofrimento à luz da eternidade, ele se torna não apenas suportável, mas significativo. É parte do processo pelo qual Deus nos conforma à imagem de Seu Filho.” Wayne Grudem, Teologia Sistemática, p. 789.
E agora, como viveremos?
Como, então, vivemos esta resolução em nosso cotidiano?
Desenvolvemos o hábito da perspectiva comparativa. Quando a dor nos visita, seja de que natureza for, paramos e deliberadamente lembramos dos mártires. Não para minimizar nossa experiência, mas para contextualizá-la.
Cultivamos a gratidão redentora. Cada momento de dor torna-se uma oportunidade de agradecer por nossa salvação do inferno eterno. Nossa dor temporal nos lembra da dor eterna que merecíamos, mas da qual fomos livres pela graça.
Usamos nosso sofrimento como ponte para a compaixão. Tendo contemplado dores maiores que a nossa, tornamo-nos mais sensíveis às dores dos outros. Nossa resolução de suportar a dor com perspectiva nos capacita a consolar outros com o consolo que recebemos de Deus.
Permitimos que nossa dor nos aproxime de Cristo. Cada sofrimento torna-se uma pequena participação na paixão de nosso Salvador, uma comunhão mística com Aquele que sofreu por nós. Nossa dor deixa de ser apenas nossa e torna-se uma experiência compartilhada com o Filho de Deus.
Oremos
Senhor Jesus, Tu que conheces intimamente tanto as dores do martírio quanto as agonias do inferno, concede-nos a sabedoria para ver nosso sofrimento através de Teus olhos. Quando a dor nos visitar, lembra-nos dos santos que sofreram por Teu nome e encontraram alegria mesmo nas chamas. Lembra-nos também da dor eterna da qual nos salvaste por Tua graça imerecida.
Transforma nossa perspectiva, Senhor. Que nossa dor não seja desperdiçada, mas se torne porta de entrada para maior compaixão, gratidão mais profunda e comunhão mais íntima Contigo. Ensina-nos a usar cada momento de sofrimento como oportunidade de crescimento espiritual e adoração.
Que nossa experiência da dor nos torne mais semelhantes a Ti, mais sensíveis aos outros e mais gratos por Tua salvação. E que, no final, possamos olhar para trás e ver que cada lágrima derramada com a perspectiva correta foi uma semente plantada para a glória eterna. Em Teu precioso nome oramos. Amém.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
Leia também:
- AS RESOLUÇÕES DE JONATHAN EDWARDS
- RESOLUÇÃO 07 – Jonathan Edwards
- RESOLUÇÃO 08 – Jonathan Edwards
- RESOLUÇÃO 09 – Jonathan Edwards

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!
Comments on “RESOLUÇÃO 10 – Jonathan Edwards”