Quando Deus não me ouve

Quando Deus não me ouve

25 de janeiro de 2026 0 Por Reginaldo

Salmo 13:1-6. “Até quando, SENHOR? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando esconderás de mim o rosto? Até quando estarei eu relutando dentro de minha alma, com tristeza no coração cada dia? Até quando se erguerá contra mim o meu inimigo? Considera e responde-me, SENHOR, meu Deus! Ilumina os meus olhos, para que eu não adormeça no sono da morte. Não permitas que o meu inimigo diga: ‘Prevaleci contra ele’; nem que os meus adversários se alegrem, quando eu for abalado. Mas eu confio na tua misericórdia; o meu coração se alegra na tua salvação. Cantarei ao SENHOR, porque ele me fez muito bem.”

A Dádiva Escondida nas Orações Não Atendidas

O Grito que Ecoa no Vazio

Existe dor mais aguda que clamar no desespero e não ouvir resposta? O rei Davi conhecia bem essa angústia. Quatro vezes no mesmo salmo ele brada: “Até quando?” Até quando, Senhor, você me esquecerá? Até quando esconderá seu rosto? Até quando minha alma gemerá? Até quando meu inimigo triunfará? São as perguntas que ecoam nos quartos de hospital, nas noites sem dormir, nos corações devastados pela perda. A alma lamentando em agonia: “Deus não me ouve” é a conclusão que se chega quando o sofrimento persiste sem alívio, quando as orações parecem cair no vazio, quando a fé parece recompensada apenas com mais provação. Mas será que o silêncio de Deus significa sua ausência? Será que orações não atendidas significam orações não ouvidas?

“A aflição é o teste da fé, assim como o fogo prova o ouro. A fé que não pode suportar aflição não é genuína.”
— João Calvino, Comentário aos Salmos – Volume I, Editora Fiel, 2009, p. 287.

Quando Deus permite a dificuldade para que vejamos com clareza

A história bíblica está repleta de servos de Deus que enfrentaram silêncios divinos aparentes. Jó, devastado por perdas inimagináveis, clamou pela presença de Deus por capítulos inteiros antes de ouvir qualquer resposta. José passou anos na prisão egípcia, suas orações por libertação aparentemente ignoradas. Paulo implorou três vezes pela remoção do espinho na carne e ouviu apenas: “A minha graça te basta” (2 Coríntios 12:9). Maria e Marta enviaram mensagem urgente a Jesus sobre a enfermidade mortal de Lázaro — e Jesus deliberadamente demorou, permitindo que seu amigo morresse.

Todos esses santos experimentaram algo que desafia nossa teologia confortável: Deus às vezes permite que suas orações mais fervorosas permaneçam “não atendidas”, não porque ele não ouve, mas porque está operando algo mais profundo que alívio imediato. Ele está nos despojando de tudo para que o vejamos com mais clareza. Está abalando “o que pode ser abalado para que o que é inabalável permaneça” (Hebreus 12:27). O silêncio de Deus não é abandono; é pedagogia divina, ensinando-nos a confiar não no resultado que desejamos, mas na bondade do Deus que soberanamente permite o sofrimento.

“Deus muitas vezes nos nega os menores dons para nos conceder os maiores. Ele recusa o pão comum para nos dar o Pão da Vida.”
— Charles Spurgeon, O Tesouro de Davi: Salmos – Volume 1, Editora Fiel, 2016, p. 195.

A Dádiva Preciosa no Sofrimento

“Até quando estarei eu relutando dentro de minha alma, com tristeza no coração cada dia?” (Salmo 13:2). Davi descreve precisamente nossa tendência natural no sofrimento: ruminar problemas, ouvir nossos próprios conselhos derrotistas, catalogar perdas. É muito difícil admitir que podemos nos prender a esse ciclo, aprisionados em autopiedade (O sentimento de pena de si mesmo, o foco excessivo nas próprias dores e uma postura de vítima diante das dificuldades da vida., o que gera paralisia, vitimismo e a tendência de culpar as circunstâncias pelos fracassos).

Ficamos paralizados, acreditamos que somos sempre vítimas das circustâncias e das pessoa, fazemos listas mentais de tudo que deu errado, dos sonhos desfeitos, de coisas que aos nossos olhos foram roubadas da nossa vida. Louvado seja Deus que olha para nós através do sacrifício de seu filho na cruz para nos restaurar.

Em sua misericórdia, o Eterno nos convida a um movimento radical: olhar para ele antes de olhar para nossos problemas. Não ignorar a realidade do sofrimento, Davi é brutalmente honesto em sua angústia, mas interpretar essa realidade à luz de quem Deus é. O salmista nos ensina que precisamos do “conselho de Deus sobre como interpretar o que está acontecendo” e não do conselho de nossa alma torturada. É, eu sei que é difícil adimitir, mas sua alma amargurada não é confiável.

Isso requer disciplina espiritual em meio à dor. Significa abrir a Bíblia quando não queremos. Significa orar quando as palavras parecem vazias. Significa escolher lembrar as promessas de Deus quando nossos sentimentos gritam que ele nos abandonou. Deus conhece cada detalhe do que estamos passando. Ele nos ama e trabalha para nosso bem, mesmo quando não conseguimos ver como isso pode ser possível.

“O cristão maduro não é aquele que não sofre, mas aquele que no sofrimento mantém seus olhos fixos em Cristo.”
— John Piper, Quando Não Desejo a Deus: Como Lutar pelos Prazeres de Deus, Editora Fiel, 2010, p. 178.

Davi declara “Mas eu confio na tua misericórdia; o meu coração se alegra na tua salvação” (v. 5) antes que as circunstâncias de sua vida mudassem. Ele não disse: “Quando você me livrar, então confiarei.” Ele disse: “Confio no teu amor leal”, mesmo enquanto o inimigo ainda ameaçava, mesmo enquanto a dor persistia.

Precisamos aprender a depositar esperança na bondade de um Deus bom e soberano, não no resultado que desejamos. Reconhecer que nosso sofrimento não é coincidência nem azar incomum, veio do próprio Deus, da mão de um Pai que nos ama demais para nos dar sempre o que pedimos quando precisamos de algo mais profundo.

Mas do que um corpo curado, necessitamos de uma caminhada mais profunda ao lado do Criador. Para além do alívio de circunstâncias difíceis, nosso caráter precisa se conformar à imagem de Cristo. Talvez você precise enchergar a provação como o campo de treinamento onde você será moldado e sua fé se fortalecerá. Paulo entendeu isso quando escreveu: “Por isso, tenho prazer nas fraquezas… nas angústias, nas perseguições, nas dificuldades, por amor de Cristo. Pois, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2 Coríntios 12:10).

Veja o que Ele nos diz através do profeta: “Segundo a aliança que fiz com vocês, quando saíram do Egito, o meu Espírito habita no meio de vocês. Não tenham medo.” (Ageu 2:5). A presença de Deus não remove automaticamente o sofrimento, mas transforma como o experimentamos. Nada pode ter mudado nas circunstâncias externas, mas tudo muda dentro de nós quando conhecemos seus propósitos e confiamos em seu amor. “Às vezes Deus acalma a tempestade. Às vezes Ele deixa a tempestade rugir e acalma seu filho.”

“Cantarei ao SENHOR, porque ele me fez muito bem” (Salmo 13:6). Davi termina em louvor, não porque suas circunstâncias mudaram, mas porque seu coração mudou. Ele descobriu que ouvir a Deus, confiar em seu amor e conhecer seus propósitos são dádivas muito maiores que alívio temporal.

Aquelas orações aparentemente não atendidas por cura, por mudança de circunstâncias, por libertação imediata, na verdade eram respostas às orações mais profundas que tínhamos feito durante anos: orações para conhecer Deus mais profundamente, para nos sentir mais satisfeitos nele, para crescer em semelhança a Cristo, para amar mais a Jesus. Deus não nos deu o que pedimos, Ele nos deu algo infinitamente melhor. Ele nos deu a si mesmo.

E n’Ele, encontramos alegria que nada pode abalar. Não uma alegria que depende de circunstâncias favoráveis, mas uma alegria indescritível que existe apenas por conhecê-lo. “Vocês o amam, mesmo sem o terem visto, e creem nele, mesmo que não o estejam vendo agora. Assim vocês se alegram com uma alegria tão grande e gloriosa, que as palavras não podem descrever.” (1 Pedro 1:8).

Quando olhamos para trás e podemos agradecer

Ao olhar para trás em nossas vidas, muitos de nós podem se alegrar, verdadeiramente se alegrar, porque Deus não respondeu todas as nossas orações exatamente como queríamos. E agora podemos ver que suas recusas foram suas misericórdias. Aquela cura que não veio nos ensinou a depender dele. Aquela porta fechada nos protegeu de caminhos destrutivos. Aquele relacionamento que não prosperou nos salvou de anos de sofrimento.

Mas mesmo quando não conseguimos ver o propósito, mesmo quando o sofrimento persiste sem explicação clara, a verdade permanece: Deus ouve. Ele não se esqueceu. Seu rosto não está escondido. Só entenderemos o alcance de sua atuação e cuidado na eternidade. E enquanto esperamos, podemos confiar em seu amor leal, cantar de sua fidelidade e descansar em sua presença.

E Agora, Como Viveremos?

“Até quando, Senhor?” Sim, o silêncio parece ser a única resposta. Mas escute, olhe para Deus, fixe seu olhar em Cristo morto e ressureto por você. Lembre-se do carater de Deus: Ele é bom. Ele é soberano. Ele te ama. Ele está trabalhando para o seu bem.

Oremos

Senhor,hoje clamamos como Davi clamou, com a mesma angústia, a mesma pergunta desesperada, não conseguimos ver teu rosto. Nossas orações por alívio, por cura, por mudança parecem se perder no vazio. É difícil confiar quando o sofrimento persiste, quando nada muda, quando a dor se torna cada vez mais forte. Mas escolhemos confiar em teu amor leal. Nos perdoa por insistirmos em ruminar problemas e não em relembrar suas promessas. Abre nossos olhos para vermos que o Senhor sempre nos dá algo melhor que aquilo que pedimos, que estas respondendo nossas orações mais profundas, com um chamado pra te conhecer, pra crescermos a semelhança de Cristo, para encontramos em ti nossa real satisfação. Abala tudo que pode ser abalado em nós para que o que é inabalável permaneça. Amém.

Perguntas para Reflexão

  1. Há quanto tempo você clama “Até quando, Senhor?” sobre alguma situação específica? Como esse clamor tem afetado sua fé e sua visão de Deus?
  2. Você consegue identificar momentos passados em que Deus não respondeu suas orações como você queria, mas agora vê que suas “recusas foram suas misericórdias”?
  3. O que significa para você “olhar para Deus antes de olhar para seus problemas”? Como isso mudaria sua perspectiva sobre o sofrimento atual?
  4. Será que Deus pode estar respondendo orações mais profundas (conhecê-lo, crescer em santidade, depender dele) através de orações aparentemente não atendidas?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

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