Você não é cristão se gosta do pecado

1 João 3.8-10. “Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado, pois a semente de Deus permanece nele; e ele não pode continuar pecando, porque é nascido de Deus. Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica a justiça não procede de Deus, e também quem não ama a seu irmão.”

Milhões de pessoas frequentam igrejas, citam versículos, ostentam mensagens sobre Jesus em seus perfis, mas permanecem espiritualmente mortos. João não ameniza o diagnóstico: existem apenas dois tipos de seres humanos, os filhos de Deus e os filhos do diabo. Não há terceira opção, não há zona neutra, não há um meio-termo confortável. E o teste de filiação é brutal: “Todo aquele que não pratica a justiça não procede de Deus.”

“Cristo veio para remover nossos pecados e destruir as obras do maligno. Isso significa que não há como ser cristão e continuar amando as coisas que Cristo odeia e veio destruir. Não há como ser filho de Deus e continuar abraçado com o pecado que dá prazer ao Diabo.” (Mike McKinley, Eu Sou Mesmo um Cristão?, Editora Fiel, 2012, 144 páginas).

Você consegue distinguir entre tropeçar ocasionalmente no pecado e fazer dele prática habitual e confortável?

Uma carta aos enganados.

João escreve sua primeira epístola combatendo falsos mestres gnósticos que reivindicavam perfeição espiritual enquanto viviam imoralidade prática. Afirmavam que havia um conhecimento secreto que os libertara do pecado, mas seu comportamento contradizia a mensagem que pregavam. A comunidade cristã primitiva havia sido infiltrada por aqueles que “saíram dentre nós, mas não eram dos nossos” (1 João 2.19).

Nos versículos 8-10, João estabelece que o propósito da encarnação foi “destruir as obras do diabo.” O verbo grego lyō significa desfazer completamente, demolir, aniquilar. Cristo não veio gerenciar pecado ou torná-lo socialmente aceitável, veio erradicá-lo. Aquele que pertence a Cristo não pode, portanto, fazer as pazes com aquilo que Cristo veio destruir.

Se a missão de Cristo foi destruir as obras do diabo, como filhos de Deus podem abraçar aquilo que o Filho de Deus veio para destruir?

João declara que “todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado, pois a semente de Deus permanece nele.” A expressão “semente de Deus” refere-se à natureza divina implantada em nós na regeneração. Não é reforma moral superficial, o cristão não é uma pessoa natural tentando ser boa; é uma nova criatura nascida do DNA divino.

“Quando Deus nos regenera, Ele não apenas muda nosso comportamento externo, mas implanta nova natureza que é incompatível com o pecado.” (João Calvino, Comentário sobre 1 João, Editora Fiel, 2015, 208 páginas). Esta semente é um agente ativo, não passivo. O termo “permanece” indica uma residência permanente e não visita temporária.

Observe o paradoxo: João diz que o que é nascido de Deus “não pode continuar pecando.” Não significa impecabilidade; significa incompatibilidade. O cristão pode cair em pecado, mas não pode se estabelecer nele confortavelmente.

Alguns críticos acusam João de contradição, em 1.8 ele afirma: “se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos” e em 3.9 declara que o que é nascido de Deus “não pode continuar pecando.”

“João não está falando do cristão que cai em pecado. Em lugar disso, ele está se referindo à pessoa cuja trajetória de vida é marcada pelo pecado. João está falando sobre a pessoa que, conscientemente, permanece no pecado, deliberadamente se mantém nele, que alegremente faz do pecado sua prática normal.” (Mike McKinley, Eu Sou Mesmo um Cristão?, Editora Fiel, 2012, 144 páginas).

A diferença entre cristão e não-cristão não é ausência total de pecado versus presença de pecado, ambos pecam, a diferença está na verdade de que o cristão genuíno pode tropeçar em pecado, mas se levanta com aversão crescente a ele. Alguém que não é convertido pode até sentir remorso momentâneo, mas retorna ao pecado como cão ao vômito (2 Pedro 2.22).

Na parábola do filho pródigo, há três evidências de regeneração genuína (Lucas 15): aversão ao pecado, arrependimento autêntico e submissão à disciplina divina. Primeiro, aversão: “Já que um cristão está morto para o pecado e vive para Cristo, quando ele peca, ele percebe que o pecado não lhe cai bem. Ele não se sente à vontade no pecado.” (Mike McKinley, Eu Sou Mesmo um Cristão?, Editora Fiel, 2012, 144 páginas).

Segundo, arrependimento que vai além de sentir-se mal. Arrependimento bíblico (metanoia) é mudança de mente que resulta em mudança de direção. Não é meramente confessar culpa; é renunciar comportamento pecaminoso e comprometer-se com obediência autêntica. Terceiro, admoestação: Hebreus 12.7-11 ensina que Deus disciplina filhos verdadeiros. Ausência de disciplina divina é sinal terrível, pois indica que pessoa não é filho.

“A marca do cristão não é ausência de pecado, mas presença de guerra contra o pecado.” (R.C. Sproul, A Santidade de Deus, Editora Cultura Cristã, 1997, 280 páginas). O cristão genuíno experimenta diariamente essa batalha interna descrita peoapóstolo Paulo em Romanos 7: “não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço.” Falso convertido não experimenta esta guerra porque ainda não há duas naturezas em conflito.

Em 1 Coríntios 6.9-10, Gálatas 5.19-21 e Efésios 5.5-6, Paulo lista esses catálogos de pecados acompanhados desta advertência solene: “não herdarão o reino de Deus.” Cada passagem ordena: “Não vos enganeis.” Paulo conhece a tendência do homem de racionalizar o próprio pecado, criar exceções, fazer as pazes com aquilo que Deus condena.

Estas advertências não são para assustar cristãos genuínos até o desespero, mas para acordar falsos convertidos de letargia espiritual. John Owen escreveu certa vez: “Esteja matando o pecado ou ele estará matando você.” (John Owen, The Mortification of Sin, Banner of Truth, 1991, 200 páginas). Não há nenhuma possibilidade de coexistência pacífica entre Cristo e pecado. Um deve prevalecer enquanto o outro deve ser crucificado.

Odeie intensamente o pecado

Em 1741, Jonathan Edwards pregou seu inesquecível sermão, “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado” provocando choro coletivo e conversões massivas. Mas Edwards também pregou centenas de sermões sobre a doçura de Cristo e a alegria em Deus. Essa tensão não é contradição; é equilíbrio bíblico. A santidade de Deus é real, os pecadores impenitentes não herdarão o reino, mas a graça também é real, Cristo veio destruir as obras do diabo e libertar cativos. A pergunta não é se você peca (todos pecam), mas qual trajetória está seguindo em sua vida. Você está crescendo em aversão ao pecado ou acomodando-se a ele? Experimenta arrependimento genuíno ou remorso superficial? Deus o disciplina como filho ou você peca impunemente? “Não se trata de determinar quanto pecado você pode cometer e continuar sendo cristão. Em vez disso, requer avaliar atitudes do coração, intenções e compromissos da alma.” A linha entre filho de Deus e filho do diabo não é a quantidade de pecados cometidos, mas a direção fundamental de vida. Você está no processo de crucificar a carne ou celebrando-a?

E agora, como viveremos?

Examine padrões persistentes de pecado em sua vida, quais os lugares onde você sempre tropeça e onde se formaram fortalezas que resistem à Palavra de Deus. Pergunte-se, quando cometo um pecado: Tenho aversão pelo pecado que cometi ou secretamente o aprecio? Me arrependo e abandono essa prática ou apenas sinto remorso? Percebo que Deus está me admoestando ou sigo pecando impunemente? “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” Mas confissão verdadeira não termina com palavras, pois a guerra contra o pecado continua todos os dias. John Owen advertiu: “Cuide de não usar com Deus a linguagem enganosa de Faraó ao dizer ‘eu pequei’, quando na verdade seu coração diz ‘eu pecarei’.” (John Owen, The Mortification of Sin, Banner of Truth, 1991, 200 páginas). Arrependimento sem mudança é manipulação, não conversão.

Oremos

Pai Celestial, confesso que tenho feito as pazes com pecados que Teu Filho veio destruir. Tenho abraçado aquilo que Cristo crucificou. Perdoa-me por profanar minha identidade como filho Teu. Reconheço que, se a semente divina realmente permanece em mim, devo experimentar crescente aversão ao pecado. Mas confesso que tenho amado minha escravidão mais que Tua liberdade. Implanta em mim arrependimento genuíno, disciplina-me como um Pai amoroso e revela-me os padrões de pecado que tenho racionalizado e tornado aceitáveis. Destrói em minha vida aquilo que Cristo veio destruir. Em nome do Filho que me liberta, amém.

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

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Perguntas para Reflexão

1. Consigo identificar diferença entre tropeçar ocasionalmente em pecado e fazer dele prática habitual confortável?

2. Há pecados que secretamente aprecio enquanto publicamente os condeno?

3. Quando peco, experimento aversão crescente e arrependimento autêntico, ou apenas remorso seguido de repetição?

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