“Disciplina na Igreja: Amor, Restauração e Honra ao nome de Cristo.”
Texto básico – Mateus 18:15–17. “Se teu irmão pecar contra ti, vai arguí-lo entre ti e ele só; se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que pelo depoimento de duas ou três testemunhas toda palavra se estabeleça. E, se recusar atendê-las, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano.”
Texto áureo – Mateus 18:15. “Se teu irmão pecar contra ti, vai arguí-lo entre ti e ele só; se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão.”
TEXTOS COMPLEMENTARES
A disciplina eclesiástica não é tema isolado em Mateus 18. Ela percorre o Novo Testamento de ponta a ponta, confirmando que se trata de ensino apostólico consistente, não de mera opinião editorial.
1 Coríntios 5:1–13. Paulo confronta a igreja de Corinto por tolerar, com orgulho, um pecado escandaloso — incesto. O apóstolo ordena a exclusão do membro impenitente, usando a imagem do fermento para mostrar que o pecado tolerado se espalha pela comunidade inteira. Este texto é o caso prático mais detalhado de disciplina formal no Novo Testamento.
Gálatas 6:1. ‘Se alguém for surpreendido em alguma transgressão, vós, os espirituais, restaurai tal pessoa em espírito de mansidão, observando-te a ti mesmo, para não seres também tentado.’ O tom aqui é decisivo: quem restaura deve ser espiritual, manso e consciente de sua própria fragilidade. A disciplina nunca pode ser exercida com arrogância.
2 Tessalonicenses 3:14–15. Paulo ordena que se afastem do irmão desobediente, mas com uma ressalva fundamental: ‘não o trate como inimigo, mas admoeste-o como a um irmão.’ A separação não é abandono — é uma linguagem de amor que busca despertar o arrependimento.
Efésios 5:25–27. Cristo amou a igreja e se entregou por ela ‘para santificá-la… a fim de apresentá-la a si mesmo gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.’ O desejo de Cristo é uma noiva pura. A disciplina serve a esse desejo.
Romanos 16:17-18. ‘Rogo-vos, irmãos, que atenteis para os que causam divisões e escândalos… e deles vos desvieis.’ A separação dos que persistem no erro é ensinada também neste texto, confirmando a universalidade apostólica do princípio.
VERDADE CENTRAL
Quando membros persistem no pecado e não representam o caráter de Cristo, a igreja deve aplicar disciplina bíblica para restaurar o pecador, preservar a pureza da igreja e honrar o nome de Deus.
INTRODUÇÃO
Em setembro de 2001, um cidadão indonésio chamado Hermono — conhecido por todos como Mono, apareceu nas páginas de uma revista nacional americana, sentado nos degraus do Capitólio dos Estados Unidos, segurando uma bandeira americana. Mono havia sido encontrado por um cristão chamado Doug em um shopping de Washington, no Dia da Independência daquele mesmo ano. Naquela tarde, Doug compartilhou o evangelho e Mono, de maneira notável, ouviu e creu. Foi batizado. Tornou-se membro da igreja. Era, em todos os sentidos, um irmão na fé, amado por todos.
Mas alguns meses mais tarde, os presbíteros da igreja souberam de algo perturbador: Mono estava trabalhando ilegalmente no país e mentindo sistematicamente para seu empregador sobre sua situação. Durante meses, a igreja suplicou, aconselhou, tentou ajudá-lo financeiramente. Ele resistiu. Persistiu. E, com o coração partido, a Igreja precisou tomar uma decisão dolorosa: discipliná-lo, suspendendo-o da comunhão e declarando que não podia mais confirmar sua profissão de fé enquanto ele permanecesse naquele caminho.
Essa história nos confronta com uma tensão real e contemporânea. Vivemos em uma cultura que valoriza acima de tudo a tolerância, a não interferência na vida do outro e a liberdade individual. A própria palavra ‘disciplina’, nesse contexto cultural, soou como sinônimo de abuso, controle ou falta de amor. Muitas igrejas, pressionadas por essa atmosfera, abandonaram a prática da disciplina eclesiástica e com ela, abandonaram também uma das marcas essenciais da igreja verdadeira.
A pergunta que esta lição coloca é direta e inevitável: o que acontece quando membros da igreja deixam de representar Jesus? Existe amor verdadeiro sem correção? Pode uma comunidade cristã fechar os olhos ao pecado persistente em seu meio e ainda assim ser fiel ao seu Senhor? A Bíblia responde a essas perguntas com clareza e a resposta nos surpreende, tanto pela seriedade com que trata o pecado quanto pela profundidade do amor que a disciplina carrega.
“Se o cristianismo é verdadeiro, ele deve transformar a vida daqueles que o professam. Quando homens afirmam seguir Cristo, mas vivem de maneira contrária ao seu ensino, o mundo conclui que a fé cristã é apenas uma aparência. Nada prejudica mais o evangelho do que um testemunho incoerente.”— C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples
Lewis diagnostica o problema com precisão cirúrgica: o testemunho incoerente de quem professa Cristo desacredita o evangelho aos olhos do mundo. A disciplina eclesiástica, longe de ser um instrumento de crueldade, é o meio pelo qual a igreja protege a integridade de sua mensagem e demonstra que a graça de Deus produz transformação real.
CONTEXTO BÍBLICO E HISTÓRICO
O Discurso Eclesiástico de Mateus 18
Mateus 18 ocorre em um momento decisivo do ministério de Jesus. O capítulo integra o que os estudiosos chamam de “Discurso Eclesiástico” o único discurso nos evangelhos em que Cristo trata especificamente da vida comunitária do povo de Deus organizado como igreja. Diferentemente do Sermão do Monte, que trata da vida moral individual, e do Discurso Profético (Mateus 24–25), que trata do futuro do Reino, Mateus 18 trata do presente da comunidade: como os membros devem se relacionar uns com os outros, como lidar com ofensas, como buscar o que se perdeu e como agir quando um irmão peca.
Jesus inicia o capítulo falando sobre a humildade necessária para entrar no Reino (v. 1–4), passa pela advertência contra os que fazem tropeçar os pequenos (v. 5–9), apresenta a parábola da ovelha perdida como ilustração do cuidado que Deus tem por cada membro (v. 10–14) e só então apresenta o processo de disciplina (v. 15–17). Esse contexto é teologicamente significativo: a disciplina está enraizada no cuidado pastoral, não na rigidez judicial. Ela nasce do mesmo coração do Pastor que vai buscar a ovelha perdida.
A Autoridade das Chaves
O processo descrito em Mateus 18 está diretamente ligado ao que Jesus ensinou em Mateus 16:19, quando disse a Pedro: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.” Em Mateus 18:18, Jesus amplia essa autoridade para toda a comunidade da igreja. A expressão “ligar e desligar” se refere ao reconhecimento oficial de quem pertence ou não ao reino de Deus, quem é confirmado como cidadão do céu e quem não pode ser assim reconhecido enquanto persiste no pecado.
Isso significa que a igreja não criou a disciplina por conveniência institucional, ela recebeu do próprio Cristo a responsabilidade de zelar pela autenticidade da confissão de seus membros. Quando a igreja age segundo Mateus 18, ela não está exercendo poder humano, mas cumprindo um mandato divino. A disciplina é a forma pela qual a igreja protege o nome de Cristo e a credibilidade do evangelho.
A Disciplina na História da Igreja
Historicamente, a disciplina eclesiástica sempre foi considerada uma das marcas da verdadeira igreja. Desde a Reforma Protestante, teólogos como João Calvino identificaram três marcas da igreja legítima: a pregação fiel da Palavra, a administração correta dos sacramentos e o exercício da disciplina eclesiástica. A remoção de uma dessas marcas, na compreensão reformada, desfigura a identidade da igreja.
Com o avanço do individualismo moderno, especialmente após o Iluminismo e sua ênfase na autonomia, muitas igrejas passaram a tratar a membresia como uma relação meramente voluntária e a disciplina como ingerência indevida. A igreja foi reduzida, na prática, ao nível de um clube social. Essa visão contraria diretamente o ensinamento bíblico, que apresenta a igreja como família de Deus (Hebreus 12), corpo de Cristo (1 Coríntios 12) e coluna da verdade (1 Timóteo 3:15), realidades que exigem compromisso, responsabilidade mútua e cuidado ativo.
É nesse cenário que o ensino de Jesus em Mateus 18 ressoa com particular urgência. Ele não é produto de uma mentalidade autoritária ou medieval é a sabedoria de Cristo para uma comunidade que leva a sério seu chamado: ser sal e luz diante de um mundo que observa.
1. O Problema: Quando membros deixam de representar Cristo
O texto de Mateus 18:15 começa com uma premissa simples mas pesada: “Se teu irmão pecar…” Jesus não está descrevendo uma possibilidade remota, está reconhecendo uma realidade inevitável na vida da comunidade cristã. Membros pecam, cristãos falham e em alguns casos, essa falha assume a forma de um pecado persistente, deliberado e público, que coloca em questão a autenticidade da confissão de fé da pessoa.
A história de Mono ilustra exatamente esse problema, ele não era um hipócrita disfarçado, era um crente genuíno, amado por sua comunidade, notável por seu entusiasmo e generosidade. Contudo, em determinado momento, ele passou a mentir persistentemente sobre sua situação de trabalho e se recusou a abandonar esse padrão apesar das repetidas exortações dos presbíteros e irmãos. Sua mentira não era um deslize isolado: era a expressão de um coração que havia colocado a permanência na América acima da obediência à Palavra de Deus.
Ser membro de uma igreja é, em essência, ser um representante de Jesus. Quando uma pessoa é batizada e entra para a comunhão, a igreja declara publicamente: “Esta pessoa pertence a Cristo.” A membresia é, portanto, um passaporte espiritual, ela confirma a cidadania no reino de Deus. Quando um membro passa a viver em contradição flagrante com essa cidadania, surge uma falta de harmonia séria: a igreja continua confirmando alguém que, por suas ações, está desmentindo o que confessa com os lábios.
“Uma igreja que ignora o pecado em seu meio perde lentamente sua sensibilidade espiritual. O que antes era visto como ofensa contra a santidade de Deus passa a ser tolerado como algo comum. Quando isso ocorre, o povo de Deus deixa de refletir o caráter santo daquele que o chamou.”— R. C. Sproul, A Santidade de Deus
Sproul identifica o principal perigo da negligência: não o escândalo imediato, mas a erosão progressiva da consciência espiritual. Uma igreja que fecha os olhos ao pecado não permanece estável, ela regride. O que começa como tolerância compassiva transforma-se, com o tempo, em indiferença espiritual. A santidade deixa de ser meta e passa a ser apenas vocabulário.
É por isso que Jesus, no Discurso Eclesiástico, trata o problema do pecado entre irmãos com seriedade pastoral. Ele não diz “ignore o erro do irmão para não perturbá-lo.” Diz “vai arguí-lo.” O amor verdadeiro não evita a conversa difícil, ele a busca porque sabe que o pecador que não é confrontado é o pecador que não tem chance de se arrepender.
Se o pecado aparece dentro da igreja, como devemos tratá-lo? Cristo nos deixou um caminho claro e é esse caminho que estudaremos agora.
2. A Resposta Bíblica: O Processo da Disciplina Cristã
Mateus 18:15–17 apresenta um processo progressivo, gradual e pastoral para lidar com o pecado entre irmãos. Cada etapa é mais abrangente que a anterior, mas cada etapa só é acionada se a anterior falhar. Jesus projeta esse processo de forma que o menor número possível de pessoas seja envolvido, e que a reconciliação ocorra o mais cedo possível no processo.
As Quatro Etapas do Processo
- Confrontação pessoal (v. 15). O primeiro passo é uma conversa privada entre quem percebe o pecado e quem pecou. Não se vai direto aos líderes, nem se faz anúncio público. Vai-se ao irmão. Esse passo protege a honra do irmão, respeita a presunção de inocência e dá à pessoa a oportunidade de se arrepender sem o constrangimento público. Se o irmão ouvir, fim do processo. “Ganhaste a teu irmão.”
- Confrontação com testemunhas (v. 16). Se o pecador não responde à conversa privada, o próximo passo envolve uma ou duas pessoas adicionais. O critério veterotestamentário do testemunho múltiplo (Deuteronômio 19:15) é aplicado aqui: não para intimidar o irmão, mas para garantir objetividade, afastar interpretações parciais e tornar o processo mais justo para todas as partes.
- Apresentação à igreja (v. 17a). Se ainda não há arrependimento, o caso é levado à congregação. Esse passo formal envolve toda a comunidade no processo, não como tribunal punitivo, mas como expressão coletiva do cuidado espiritual. A igreja inteira, nesse momento, é convocada a orar, a admoestar com amor e a buscar a restauração do irmão.
- Separação da comunhão (v. 17b). Se, após todas as etapas, o pecador persistir em sua recusa, a igreja declara que não pode mais confirmar sua profissão de fé. Ele é tratado como “gentio e publicano”, não como inimigo, mas como alguém fora da comunidade da aliança, para quem o evangelho precisa ser novamente proclamado. A porta continua aberta para seu retorno.
É fundamental notar o que a disciplina formal não é, a igreja não está expulsando a pessoa para sempre. Não está declarando que ela é definitivamente condenada. Está dizendo: “Enquanto você persiste nesse caminho, não podemos atestar publicamente que você pertence a Cristo.” A exclusão é, mesmo que não pareça, um ato de misericórdia: ela retira da pessoa a falsa segurança de quem vive em aberta contradição com o Evangelho que professa.
“Assim como a doutrina pura é a alma da igreja, também a disciplina é o seu nervo e ligamento; por ela os membros permanecem unidos em ordem santa. Onde a disciplina é negligenciada, o corpo de Cristo se dissolve gradualmente, pois o pecado tolerado corrompe a comunhão e enfraquece o testemunho do evangelho.”— João Calvino, Institutas da Religião Cristã
Calvino usa uma metáfora anatômica precisa: a disciplina é o nervo e o ligamento do corpo eclesial. Sem nervos, o corpo perde sensibilidade, não sente mais a dor do pecado. Sem ligamentos, as articulações se soltam, os membros deixam de funcionar de forma integrada. A disciplina mantém o corpo vivo, sensível e coeso.
No caso de Mono, a igreja tentou cada etapa com paciência. Foram meses de conversas, orações, ofertas de ajuda prática. Somente quando todas as tentativas falharam é que se chegou à exclusão da comunhão. O processo não foi precipitado, pelo contrário, foi exaustivo. E foi exatamente essa exaustão pastoral que tornou a decisão final um ato de amor, não de frieza.
A disciplina segue um processo claro. Mas por que Deus a ordenou? Qual é o propósito verdadeiro por trás dessa prática tão desconfortável?
3. O Propósito da Disciplina na Igreja
Há um erro comum na compreensão da disciplina eclesiástica: pensar que ela existe para punir o pecador. Essa visão inverte a lógica bíblica, a disciplina não é a ira da igreja contra o membro que errou, é o amor da igreja em sua forma mais difícil e mais honesta. Ela tem pelo menos três propósitos centrais, e todos eles apontam para o bem do pecador, da comunidade e do nome de Deus.
I. Restaurar o Pecador. O objetivo primordial da disciplina é a restauração. Paulo, em Gálatas 6:1, usa o verbo grego katartizō, o mesmo usado para remendar redes de pesca, para descrever o que deve acontecer com quem foi surpreendido em uma transgressão: “restaurai tal pessoa.” A imagem é de algo que foi rasgado e precisa ser remendado com cuidado e habilidade. A disciplina, nessa perspectiva, não é um ato de descarte é um ato de restauração.
A excomunhão de Mono foi dolorosa para a igreja, mas foi o meio pelo qual Deus trabalhou no coração dele. Longe de sua comunidade, sem a falsa segurança de pertencer nominalmente à igreja enquanto vivia em desobediência, Mono se viu diante de si mesmo e de seu pecado. Tempo depois, ele escreveu ao pastor: “Estava muito orgulhoso e obstinado. Meu orgulho me levou a pensar que Deus por si próprio resolveria o assunto… E o resultado? Não encontrei paz.” O arrependimento foi fruto da disciplina.
II. Preservar a Pureza da Igreja. Paulo usa em 1 Coríntios 5:6–8 a metáfora do fermento: “Um pouco de fermento leveda toda a massa.” O pecado tolerado não permanece contido na vida de um só membro, ele se espalha, normaliza o que deveria ser escandaloso, enfraquece a consciência moral da comunidade. Ele ensina, silenciosamente, que determinados pecados são aceitáveis quando são convenientes o suficiente.
Uma igreja que pratica a disciplina protege sua integridade moral. Ela declara, com suas ações, que existe um padrão e que esse padrão não é negociável, não importa quem seja o membro envolvido. Isso não é rigidez farisaica. É fidelidade ao desejo de Cristo por uma noiva “sem mácula, nem ruga… santa e irrepreensível” (Efésios 5:27).
III. Glorificar o Nome de Deus. Quando Davi pecou com Bate-Seba e providenciou a morte de Urias, Deus lhe disse: “Por causa deste ato, os inimigos do Senhor tiveram motivo para blasfemar” (2 Samuel 12:14). O pecado de um representante de Deus tem consequências para a reputação de Deus. Da mesma forma, o pecado tolerado dentro da igreja provoca blasfêmia entre os incrédulos, eles zombam da fé, questionam a realidade da transformação que o evangelho promete e concluem que a religião cristã é apenas hipocrisia organizada.
“Quando a igreja se recusa a confrontar o pecado persistente entre seus membros, ela comunica ao mundo uma mentira sobre Jesus. Diz, na prática, que Cristo não transforma vidas e que seu senhorio não exige obediência. A disciplina, portanto, protege o nome de Cristo e a credibilidade do evangelho.”— Jonathan Leeman, Disciplina na Igreja
Leeman captura o coração teológico da questão: a disciplina é, em última análise, uma questão de honra a Cristo. Cada ato de disciplina é uma declaração pública de que o evangelho é real, que a graça transforma, e que o senhorio de Jesus não é ornamental é exigente, amoroso e transformador.
Agostinho de Hipona sintetizou essa lógica de maneira memorável, comparando a disciplina à cirurgia médica:
“A disciplina na igreja não nasce da crueldade, mas da caridade. Quem corrige o irmão não o faz para ferir, mas para salvá-lo. Assim como o médico corta para curar, também a igreja repreende para restaurar, pois permitir que o pecado domine o irmão seria abandonar sua alma ao perigo.”— Agostinho, Sermões
Nenhum médico responsável recusa uma cirurgia necessária apenas porque ela é dolorosa. O amor verdadeiro às vezes precisa cortar para curar. A disciplina eclesiástica é essa cirurgia pastoral dolorosa no processo, medicinal no resultado, sempre orientada para a vida e não para a morte espiritual do paciente.
Se a disciplina tem propósitos tão nobres, o que acontece com a igreja que a abandona? Quais são as consequências de uma comunidade sem essa prática?
4. O Perigo de uma Igreja sem Disciplina
Cento e cinquenta anos atrás, o teólogo batista John Dagg escreveu uma frase que ainda ecoa nos debates eclesiásticos contemporâneos: “Quando a disciplina abandona a igreja, Cristo abandona com ela.” A frase é forte e sua provocação é intencional. Dagg não estava afirmando que Cristo abandona definitivamente toda igreja que negligencie a disciplina, estava alertando para algo mais sutil e mais ameaçador: quando uma igreja abandona a disciplina, ela está, na prática, abandonando Cristo.
Isso porque abandonar a disciplina não é apenas uma omissão administrativa é uma escolha teológica, é a decisão de não levar a sério o pecado. De não tomar o senhorio de Cristo como algo que exige obediência real, de não proteger o testemunho do evangelho e essas escolhas, somadas ao longo do tempo, transformam a igreja num reflexo do mundo que deveria iluminar.
“Nada enfraquece tanto a igreja quanto o pecado tolerado entre seus próprios membros. Quando aqueles que confessam Cristo vivem sem arrependimento, os incrédulos zombam da fé e o nome do Senhor é desonrado. Por isso os pastores devem cuidar para que a comunidade permaneça pura.”— João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus
Crisóstomo, pregando no século IV, já identificava o mecanismo pelo qual a indiferença pastoral destrói o testemunho cristão. O pecado tolerado não apenas corrompe internamente, ele exporta escândalo. Os incrédulos que observam uma igreja que proclama santidade mas tolera hipocrisia tiram uma conclusão lógica: a fé cristã é uma performance vazia.
O texto de 1 Coríntios 5 confirma esse diagnóstico de forma dramática. Paulo repreende a igreja de Corinto não apenas pelo pecado do membro, mas pelo orgulho com que a igreja o tolerava: “E vós estais cheios de arrogância, e não vos entristecestes” (v. 2). A tolerância ao pecado havia se transformado, naquela comunidade, em motivo de orgulho, talvez sob o pretexto de serem “graciosos” ou “não legalistas.” Paulo os corrige com dureza: isso não é graça, é cumplicidade.
“O pecado tolerado dentro da igreja nunca permanece isolado. Ele se espalha lentamente pela comunidade, enfraquecendo a consciência espiritual e obscurecendo o temor de Deus. Quando a disciplina é negligenciada, a corrupção moral ganha espaço e a igreja perde a beleza da santidade que deveria refletir.”— John Owen, The Nature of Apostasy
Owen descreve o processo com precisão clínica: o pecado não tratado se espalha como infecção, enfraquece como parasita e obscurece como névoa. Uma igreja sem disciplina não permanece no mesmo nível, ela regride. Perde gradualmente a capacidade de discernir o mal, confrontar o erro e manter o padrão de santidade que a distingue do mundo. Martinho Lutero, ao tratar do mesmo tema, era ainda mais direto:
“Quando a igreja deixa de corrigir o pecado público, ela se torna cúmplice dele. Cristo não instituiu sua igreja para que fosse um abrigo para a hipocrisia, mas uma comunidade de arrependimento. Onde não há disciplina, o evangelho é obscurecido e o povo perde o temor de Deus.”— Martinho Lutero, Sermões sobre Mateus
A palavra “cúmplice” é poderosa. O silêncio diante do erro não é neutralidade é participação. Dostoiévski, o grande romancista russo, expressou essa realidade com a força de sua pena: “Cada homem é responsável diante de todos e por todos. Quando alguém vive no erro e ninguém o admoesta, toda a comunidade participa de sua queda. O silêncio diante do mal não é inocência, mas cumplicidade.”
Por outro lado, o livro de Apocalipse nos mostra que Cristo julga as igrejas que toleram o pecado. Ele repreende a igreja de Pérgamo por tolerar o ensino de Balaão e a de Tiatira por tolerar a falsa profetisa (Apocalipse 2:14–20). Em ambos os casos, a exortação de Cristo é ao arrependimento e o arrependimento, nesse contexto, passa necessariamente pela disciplina eclesiástica. A negligência da disciplina não é apenas um erro pastoral, é um problema que atrai o julgamento do Senhor sobre a comunidade.
Diante de tudo isso, como a disciplina deve ser aplicada de forma que honre a Cristo, proteja a igreja e preserve a esperança de restauração?
CONCLUSÃO
Retornemos a Mono. Depois de sua excomunhão, ele deixou a América e voltou para a Indonésia. Por quase um ano, não houve contato. Então chegou um e-mail ao pastor da igreja. Mono escreveu:
“Quando deixei a igreja, eu estava com uma questão de pecado pendente, e o mais triste é que não dei a isso a devida consideração. […] Meu orgulho me levou a pensar que Deus por si próprio resolveria o assunto sem qualquer iniciativa minha. Então continuei com a minha vida. E o resultado? Não encontrei paz. […] Desejo poder descrever a você o tipo de relacionamento que tenho com ele hoje, o que é muito bonito de se descrever.”— Mono, em carta ao pastor
A igreja respondeu com alegria não com suspeita, não com condições humilhantes, não com um período de prova punitivo. Com alegria. Os membros votaram em unanimidade para confirmar o arrependimento de Mono, expressar perdão formal e renovar a comunhão com ele como irmão em Cristo. Hoje, Mono serve como evangelista entre grupos muçulmanos na Indonésia. A disciplina resultou em missão.
Esta história resume tudo o que a Bíblia ensina sobre a disciplina eclesiástica. Ela é dolorosa mas necessária, é difícil mas amorosa. Pode parecer dura, mas é mais misericordiosa do que a tolerância que deixa o pecador confortável em sua queda. A disciplina diz ao irmão: “Te amamos demais para fingir que está tudo bem.”
I. Quando membros persistem no pecado, eles deixam de representar Jesus e a igreja não pode simplesmente ignorar isso. II. Cristo nos deu um processo claro e progressivo para tratar o pecado, que começa no amor e só escalona se necessário. III. A disciplina tem propósitos nobres, restaurar o pecador, preservar a pureza da igreja e glorificar o nome de Deus. IV. Uma igreja sem disciplina está em perigo espiritual, moral e testemunhal.
O autor de Hebreus escreveu em 12:11: “Nenhuma disciplina parece agradável no momento, mas dolorosa. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz naqueles que têm sido exercitados por ela.” O fruto pode demorar e o processo é doloroso, mas o resultado gera paz, justiça e restauração, vale cada lágrima derramada no caminho.
Que nos movamos a vigiar nossa própria vida com humildade, sabendo que qualquer um de nós pode cair. Que nos movamos a cuidar uns dos outros com coragem e amor, não fechando os olhos ao pecado dos irmãos. E que nos movamos a aplicar a disciplina, quando necessário, com o coração partido e os olhos voltados para a restauração, porque é isso o que nosso Salvador faz por nós todos os dias.
“A disciplina eclesiástica é um ensino claro das Escrituras e faz parte do cuidado pastoral da igreja. Quando membros deixam de representar Jesus, a igreja não deve ignorar o problema, mas seguir o caminho estabelecido por Cristo em Mateus 18.”— Valdeci da Silva Santos, Disciplina na Igreja
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
Leia também:
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PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO
- Por que a disciplina é necessária na igreja?
- Qual é o objetivo principal de cada etapa do processo de Mateus 18:15–17?
- Por que muitas igrejas contemporâneas abandonaram a prática da disciplina? Quais fatores culturais contribuíram para isso?
- Como podemos confrontar um irmão em pecado com amor genuíno, sem cair no julgamento arrogante ou na cumplicidade omissa?
- Quais são os perigos concretos de uma igreja que tolera o pecado persistente em seu meio? Você já testemunhou algum desses perigos na prática?
- Como diferenciar disciplina bíblica de autoritarismo? Quais garantias o processo de Mateus 18 oferece para proteger o membro disciplinado?
- Qual a relação entre disciplina e misericórdia?
- Como a disciplina eclesiástica está relacionada com o testemunho do evangelho perante o mundo que nos observa?
DÚVIDAS FREQUENTES
1. Disciplina na igreja significa falta de amor?
Não. Essa é possivelmente a confusão mais comum sobre o tema. A disciplina bíblica é um ato de amor, amor difícil, amor que custa, amor que não fecha os olhos para o bem do irmão. G. K. Chesterton expressou isso com precisão: “O verdadeiro amor não consiste em ignorar o erro, mas em recusar-se a chamar o mal de bem. Uma comunidade que abandona a correção em nome da tolerância acaba perdendo não apenas a verdade, mas também a própria capacidade de amar.” A verdadeira falta de amor está em ignorar o pecado do irmão e deixá-lo caminhar sem confrontação rumo às consequências de seu pecado.
2. Toda disciplina termina em exclusão?
Não. A exclusão é o último recurso de um processo que começa com uma conversa privada. A esmagadora maioria das situações de pecado deve ser resolvida no primeiro ou segundo passo, uma conversa amorosa entre irmãos, ou com a ajuda de testemunhas. A disciplina formal e pública é reservada para pecados externos, graves e persistentemente impenitentes. O objetivo sempre é o arrependimento o mais cedo possível no processo.
3. Qual é o critério para aplicar a disciplina formal?
A passagem de Mateus 18 sugere três critérios cumulativos: o pecado deve ser externo (objetivamente observável, não apenas suspeito), grave (de magnitude suficiente para colocar em dúvida a profissão de fé) e impenitente (a pessoa foi confrontada, teve oportunidade de se arrepender e se recusou). Esses três critérios protegem o processo de arbitrariedade e garantem que a disciplina formal seja aplicada apenas quando realmente necessária.
4. Quem é responsável pela disciplina?
A disciplina começa com os membros, qualquer irmão que percebe o pecado de outro tem a responsabilidade de confrontá-lo (Mateus 18:15). Os líderes entram nas etapas mais avançadas, quando os passos iniciais falharam e o caso precisa de intervenção pastoral formal. A responsabilidade, portanto, é de toda a comunidade, não é privilégio ou fardo exclusivo dos pastores.
5. Como deve ser a restauração após o arrependimento?
A restauração deve ser imediata, pública e festiva. Quando a igreja se convence de que o arrependimento é genuíno, Paulo ordena em 2 Coríntios 2:7–8 que ela “perdoe e console” o irmão e “reafirme o amor” por ele. Não há período de prova punitivo, nem cidadania de segunda classe. A restauração é completa e deve ser celebrada, como o pai celebrou o retorno do filho pródigo (Lucas 15:24).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Literatura Cristã Reformada
- Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã.
- Leeman, Jonathan. Disciplina na Igreja: Como a Igreja Protege o Nome de Jesus. São José dos Campos: Fiel.
- Owen, John. The Nature of Apostasy. Edinburgh: Banner of Truth.
- Packer, J. I. A Igreja e a Palavra de Deus.
- Keller, Timothy. Igreja Centrada. São Paulo: Vida Nova.
- Sproul, R. C. A Santidade de Deus. São José dos Campos: Fiel.
- Spurgeon, Charles. The Metropolitan Tabernacle Pulpit.
- Baxter, Richard. The Reformed Pastor.
História da Igreja
- Agostinho de Hipona. Sermões.
- Basílio de Cesareia. Regras Morais.
- João Crisóstomo. Homilias sobre Mateus.
- Lutero, Martinho. Sermões sobre Mateus.
- Tertuliano. De Paenitentia.
- Wesley, John. Sermões sobre a Disciplina Cristã.
Artigos e Recursos
- Santos, Valdeci da Silva. Disciplina na Igreja. Ministério Fiel.
- McConnell, Mez. Autoridade e Disciplina na Igreja Local. Ministério Fiel.
- Wills, Gregory A. Quando a Disciplina Abandona a Igreja, Cristo Abandona com Ela? Ministério Fiel.
Literatura Universal
- Chesterton, G. K. Ortodoxia. São Paulo.
- Dostoiévski, Fiódor. Os Irmãos Karamázov.
- Lewis, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes.
- Solzhenitsyn, Aleksandr. O Arquipélago Gulag.
- Tolstoy, Leo. O Reino de Deus Está em Vós.
- Kierkegaard, Søren. O Desespero Humano.

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!
