EMBAIXADORES DE CRISTO

O Deus que reconciliou o mundo consigo mesmo em Cristo não apenas salvou os seus, mas os comissionou como embaixadores de uma nova criação — portadores da palavra que desfaz a inimizade, de sorte que ser embaixador de Cristo não é uma função opcional da vida cristã, mas a consequência inevitável de ter sido reconciliado pelo próprio Deus.

2 Coríntios 5.17-21. “Assim que, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas passaram; eis que se fizeram novas. E tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação; a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus apelasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele nos tornássemos justiça de Deus.”

Introdução

Em 1945, após a rendição da Alemanha nazista, os Aliados enviaram representantes às cidades ocupadas não para combater mas para declarar que a guerra havia terminado. A missão não era militar; era de proclamação. Haviam pessoas que ainda viviam como se a guerra continuasse, escondidas, com medo, sem saber que a realidade havia mudado. O trabalho dos enviados era simples: encontrá-las e dizer que “a guerra acabou, você pode sair.”

C. S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples (2009, p. 51), descreve a condição humana antes do evangelho com precisão semelhante: “O inimigo ocupa este mundo. O Cristianismo é a história de como o rei legítimo desembarcou, poderia se dizer em disfarce, e nos convida todos a tomar parte em uma grande campanha de sabotagem.” A guerra já foi decidida na cruz, o que resta agora é a proclamação.

É exatamente isso que Paulo descreve em 2 Coríntios 5.17-21. Deus reconciliou o mundo consigo mesmo em Cristo. A inimizade foi desfeita. O preço foi pago. E agora Ele envia representantes — não para combater, mas para declarar: reconciliai-vos com Deus.

O que acontece com alguém que foi de fato reconciliado com Deus e continua vivendo como se essa reconciliação fosse apenas uma doutrina a ser crida, não uma realidade a ser portada?

Paulo escreveu 2 Coríntios por volta do ano 56 d.C., a partir da Macedônia, numa situação de crise aguda: sua autoridade apostólica estava sendo atacada por adversários que o acusavam de fraqueza, de motivações impuras e de um ministério sem a glória que seria de se esperar de um autêntico enviado de Deus. O Comentário de II Coríntios cita Robert Gundry para situar o tom da carta: “mais do que qualquer outra epístola de Paulo, 2 Coríntios permite-nos sondar os sentimentos íntimos do apóstolo sobre si mesmo, sobre seu ministério apostólico e sobre seu relacionamento com as igrejas que fundava e nutria.”

É nesse contexto de legitimidade contestada que Paulo formula a mais radical de suas declarações sobre identidade e missão. Seus adversários em Corinto se apresentavam com cartas de recomendação, eloquência e ares de superioridade espiritual. Paulo responde não com credenciais, mas com teologia: a autoridade do embaixador vem exclusivamente de quem o enviou — não do mensageiro.

O que acontece quando a Igreja confunde a glória do mensageiro com a autoridade da mensagem?

1. Nova Criatura: Posição, Não Processo

O substantivo grego ktísis — criação — não admite leitura progressiva. Paulo não diz que o crente melhorará gradualmente; diz que “as coisas antigas passaram” e “se fizeram novas” — verbos no aoristo, indicando fato consumado. O Comentário de II Coríntios é preciso ao citar Fritz Rienecker: Paulo “não está descrevendo a prática do cristão, mas a posição do cristão” — não há aqui ideia de mudança do passado da pessoa, mas mudança de sua posição em relação a Deus e ao mundo.

João Calvino, em seu Comentário de 2 Coríntios (p. 152), aprofunda o argumento desde a perspectiva da eleição: Paulo “não está falando da criação em geral, mas da graça da regeneração que Deus confere especialmente a seus próprios eleitos; e ele diz que esta graça é de Deus, não em seu caráter de Criador e Artífice do céu e terra, mas como o novo Criador da igreja, remodelando seu povo segundo a sua própria imagem.” A nova criação não é conquista devocional — é obra do novo Criador.

Isso tem implicações diretas para a vida cristã. Quem compreende que está numa posição nova — conferida por Deus, não conquistada pelo esforço — deixa de viver pela performance e começa a viver pela gratidão. E a gratidão, por sua natureza, transborda.

2. Reconciliação: O Ofendido Paga a Conta

“Tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo.” A estrutura gramatical do versículo 18 é teologicamente explosiva: o sujeito da reconciliação é Deus — o ofendido. O Comentário de II Coríntios articula a inversão com clareza: “O homem é o ofensor, e Deus é o ofendido. A reconciliação deveria ter partido de nós, a parte ofensora, mas partiu de Deus, a parte ofendida.” Isso destrói qualquer teologia que faça a salvação depender de um primeiro movimento humano em direção a Deus.

O mecanismo da reconciliação está no versículo 21 — e é ali que a teologia reformada encontra seu coração: “Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós.” Calvino descreve a grande troca com precisão cirúrgica: Cristo “assumiu, por assim dizer, nossa pessoa, de modo que ele pôde ser o infrator em nosso lugar e, assim, ser considerado pecador, não em razão de suas próprias ofensas, mas em razão das ofensas alheias.” (Comentário de 2 Coríntios, p. 160). O Comentário Esperança radicaliza: “No Calvário Deus vê em Jesus apenas pecados. Deus vê em nós apenas justiça!” A cruz não é apenas o lugar onde o pecado foi punido — é o lugar onde a identidade foi trocada.

3. Embaixadores: Autoridade que Vem de Outro

“Somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus apelasse por nosso intermédio.” A palavra grega presbeuein carregava peso político imediato no mundo romano. O Comentário de II Coríntios recupera o contexto: nas províncias imperiais estratégicas, o presbeutes era representante pessoal do imperador — suas palavras tinham efeito de lei, sua missão era declarar paz, e sua autoridade derivava inteiramente do mandante, não de suas qualidades pessoais. Quando o Senado incorporava uma nova região, enviava embaixadores para definir os termos de paz e promulgar uma constituição. “Assim, Deus enviou seus embaixadores para declarar paz, e não guerra.”

Calvino insiste na consequência eclesiológica: “quando um ministro devidamente ordenado declara, da parte do evangelho, que Deus se nos tornou propício, ele deve ser ouvido na qualidade de embaixador de Deus, mantendo sobre si um dever público como representante de Deus e legalmente investido de autoridade para fazer-nos esta declaração.” (Comentário de 2 Coríntios, p. 154). A autoridade do pregador não vem de sua inteligência, de sua retórica nem de seu prestígio. Vem de quem o enviou e do que lhe foi confiado: a palavra da reconciliação.

Isso responde ao contexto de Corinto — e responde ao nosso. O embaixador não precisa ser impressionante. Precisa ser fiel. Não precisa impressionar o inimigo com sua grandeza; precisa entregar com fidelidade a oferta de paz que o Rei enviou.

Conclusão

Há uma sequência lógica inescapável em 2 Coríntios 5.17-21. Quem está em Cristo é nova criatura — posição conferida por Deus. Essa posição nova tem como fundamento a reconciliação consumada na cruz — iniciativa do ofendido, paga pelo Filho. E da reconciliação recebida brota inevitavelmente o ministério da reconciliação — não como opção para os mais engajados, mas como forma que a nova existência assume no mundo.

Paulo não estava chamando os coríntios a um programa de evangelismo. Estava descrevendo o que acontece naturalmente com quem foi de fato tocado pelo evangelho: transborda. O que conteve é grande demais para caber dentro dos limites de uma existência privada.

“E agora, como viveremos?” Primeiro: viva a partir da posição, não da performance. Você não é cristão porque se esforça para sê-lo — é nova criatura porque Deus o refez em Cristo. Deixe essa certeza mudar o ponto de partida de cada dia. “Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus” (Rm 6.11, NAA).

Segundo: leve a sério a palavra “embaixador.” Embaixadores não improvisam a mensagem — a transmitem com fidelidade. Pergunte-se: a mensagem que você tem portado ao seu círculo de relações é a mensagem do Rei, ou uma versão domesticada que evita o custo do confronto? “Sede sempre prontos a responder a qualquer pessoa que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15, NAA).

Terceiro: implore, não imponha. Paulo diz “rogamos” — a postura do embaixador do evangelho é de súplica, não de dominação. O Comentário Esperança observa que o serviço de embaixador “está livre de qualquer atitude autocrática, de reivindicações e objetivos pessoais.” Declarar paz não é vencer um debate — é convidar um inimigo para casa. “Sede sábios para com os que estão de fora, remindo o tempo” (Cl 4.5, NAA).

Oremos. Senhor que tomaste a iniciativa de reconciliar o que estava perdido — e que pagaste com sangue de Filho o preço dessa paz — guarda-nos de reduzir o evangelho a doutrina que cremos sem portar. Faze-nos embaixadores que não precisam de credenciais humanas porque carregam a autoridade daquele que os enviou. Que a nova criação que somos em Cristo se manifeste na palavra que falamos, na postura com que abordamos o mundo e na fidelidade com que entregamos a mensagem que nos foi confiada. Para a Tua glória. Amém.

Para reflexão. O embaixador não carrega autoridade própria, carrega a autoridade daquele que o enviou. Onde você tem tentado apresentar o evangelho com credenciais suas em vez de simplesmente entregar a mensagem do Rei?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

UL TIMAS POSTAGENS

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