A GLÓRIA DO ORDINÁRIO

Numa cultura obcecada pelo extraordinário, o chamado bíblico ao ordinário não é um convite à mediocridade, mas o caminho mais exigente e mais frutífero do discipulado cristão, porque é exatamente ali, na fidelidade do dia a dia, que Deus age de forma extraordinária pelos meios comuns de graça.

Radical. Épico. Revolucionário. Transformador. Impactante. Tremendo. Definitivo. Extremo. Impressionante. Inovador. No limite. A próxima onda. Descoberta explosiva.

1 Tessalonicenses 4.11. “Que tenhais por honra viver sossegados, tratardes dos vossos próprios negócios e trabalhardes com as próprias mãos, como vos ordenamos.”

Comum” deve ser uma das palavras mais solitárias do nosso vocabulário hoje. Quem quer ser essa pessoa comum que vive em uma cidade comum, é um membro de uma igreja comum, tem amigos comuns e trabalha em um emprego comum?” Sentimos a necessidade de ser cristãos extraordinários e de levar a nossa fé ao extremo. Queremos que tudo isso seja algo que possamos controlar, calcular e exibir para os outros, como se tivéssemos que manter uma imagem perfeita no Instagran.

Vivemos numa cultura e muitas vezes numa igreja que transformou o espetacular em critério de espiritualidade, queremos que o extrardinário se repita todos os dias e em cada encontro da igreja. O resultado é previsível: exaustão, desilusão e uma fé que oscila entre o entusiasmo e o vazio. Paulo, escrevendo aos tessalonicenses, orienta seus irmãos de forma desconcertantemente simples: viva sossegado, cuide do que é seu, trabalhe com as próprias mãos.

Tessalônica era cosmopolita a capital da Macedônia romana, um ambiente de prestígio e visibilidade. Membros da jovem comunidade cristã haviam abandonado suas responsabilidades cotidianas, talvez pela expectativa do retorno iminente de Cristo. Paulo não os chama para mais ativismo, mas os chama à sobriedade.

Nossa obsessão pelo extraordinário vem da cultura dos movimentos de avivamento espiritual, iniciada no protestantismo americano por figuras como Charles Finney, que centralizou a fé nas decisões humanas e criou técnicas para levar ao arrependimento. Essa mentalidade acabou criando um “sistema de estrelato” focado no carisma do pregador e em seus métodos inovadores, em vez de focar no evangelho em si. Com isso, passou-se a acreditar que as práticas comuns instituídas por Cristo no dia a dia da igreja e do lar eram fracas demais, valorizando-se apenas o momento espetacular e emocionante em que a pessoa se converteu em um grande evento.

Deus age pelo ordinário e isso é incrível

“Nosso Deus trino poderia fazer tudo sozinho, direta e imediatamente. No entanto, ele também disse: ‘produza a terra relva’. Deus não deixa de ser a fonte última da realidade quando está trabalhando dentro da criação.” A providência ordinária não é versão inferior da ação de Deus, o todo-podroso age em nosso cotidiano também quando cuidamos das vida simples em família, em uma carreira construída com excelência, uma vida simples que consede honra a Deus.

A Encarnação é o exemplo supremo: o Filho eterno assumiu carne por intervenção sobrenatural e cresceu por nove meses no ventre de Maria, nasceu como qualquer criança, e “crescia em sabedoria, estatura e graça” (Lc 2.52) pelos meios comuns do desenvolvimento humano. O extraordinário habitou o ordinário sem abolir nenhum dos dois. Isso inverte a hierarquia que nossa cultura impõe: o ordinário é o lugar preferido de sua ação.

João Calvino, nas Institutas da Religião Cristã (Cultura Cristã, 2008, Livro I, Cap. XVI, Sec. I), formula o fundamento: “A providência significa não que Deus olha ociosamente do céu para o que acontece na terra, mas que Ele segura o leme do universo e governa todos os acontecimentos.” Governar pelo ordinário é soberania que age por suas criaturas, meios e rotinas como instrumentos de propósitos eternos.

O sossego é um chamado à maturidade

“Que tenhais por honra viver sossegados.” O imperativo de Paulo é uma recusa madura do ativismo religioso que confunde barulho com fruto. O Novo Testamento nos chama repetidamente a crescer e amadurecer.

A palavra grega philotimeomai, literalmente “amar a honra”, é aplicada aqui ao sossego e ao trabalho manual. Paulo inverte os valores de prestígio da cultura greco-romana: a honra verdadeira não está na visibilidade pública, mas na fidelidade privada. Recentemente nomes muito admirados caíram em desgraça porque sua vida pública não estava em sintonia com sua vida privada. Aquilo que somos públicamente, precisa ser o desdobramnto do que somos particularmente em Cristo longe dos olhos de nossos admiradores. “Talvez, se descobrirmos as oportunidades do comum, um carinho pelo familiar e uma admiração pelo ordinário, podemos acabar sendo radicais, afinal.”

Chamados ao discipulado

O discipulado cristão não precisa ser épico para ser real, o discípulo precisa ser fiel. O mesmo Deus que separou as águas das terras governa o seu dia de trabalho comum, o seu almoço em família, a sua conversa com os vizinhos, amigos e familiares, com a mesma soberania, apenas sem o espetáculo que nossa cultura exige como prova de que algo importante está acontecendo. Cristo foi revolucionário pela profundidade de sua fidelidade. O chamado é o mesmo: “Sede fiéis até à morte” (Ap 2.10, NAA), não “sede espetaculares”, seja fiel a Cristo onde estiver, cercado por uma platéia ou apenas com dois ou três.

“E agora, como viveremos?” Enraíze-se nos meios ordinários de graça. Se sua vida espiritual depende da próxima experiência arrebatadora para se sustentar, ela está construída sobre areia. A Palavra lida diariamente, a oração regular, a comunhão constante com os irmãos são instrumentos que Deus usa. “Perseverai na oração, velando nela com ações de graças” (Cl 4.2, NAA). Valorize seu chamado ordinário. Seu trabalho, sua família, sua vizinhança são o campo onde Deus quer que você seja fiel agora. “Tudo o que fizerdes, fazei de todo o coração, como para o Senhor” (Cl 3.23, NAA).

Oremos. Senhor que governas o universo e também nosso dia a dia comum, perdoa-nos pela insatisfação com o ordinário onde Tu estás preente conosco. Ensina-nos a encontrar Tua glória no trabalho honesto, na família fiel, na igreja constante. Livra-nos da idolatria do espetacular. Que sejamos fiéis onde Tu nos colocaste e que isso seja suficiente, porque Tu és suficiente. Amém.

Para reflexão. Em que área da sua vida você tem buscado o extraordinário como substituto para a fidelidade cotidiana? O que seria necessário para encontrar Deus no ordinário desse lugar?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

UL TIMAS POSTAGENS

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