LIÇÃO 02 – HUMANISMO

O homem como senhor de si mesmo e supremacia de Cristo diante da usurpação do trono de Deus.
Texto Áureo “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis […] tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.” (Colossenses 1.16-17)
Texto Bíblico Principal: Colossenses 1.15-17
Textos Complementares: Gênesis 1.27 · Romanos 1.21-25 · Provérbios 14.12 · Romanos 11.36 · Salmo 146:3-4 ·1 Coríntios 1:20-25
INTRODUÇÃO
Existe um desejo que atravessa gerações, culturas e temperamentos, e que raramente precisa ser ensinado, porque já nasce com o coração humano: o desejo de ser dono de si mesmo. Ninguém precisa convencer uma criança a querer decidir sozinha, e ninguém precisa convencer um adulto a resistir quando alguém tenta lhe dizer o que fazer. Há algo dentro de nós que se inclina naturalmente para a autonomia, para a ideia de que a última palavra sobre a nossa vida deveria ser sempre a nossa própria palavra.
Essa inclinação recebeu, ao longo da história, diversos nomes. Hoje ela é chamada de humanismo, e talvez você já tenha ouvido essa palavra sem parar para pensar no que ela realmente significa. Em termos simples, o humanismo é a convicção de que o ser humano é a medida de todas as coisas, a fonte de sua própria moral, o intérprete final da sua própria felicidade e o único juiz legítimo sobre o que é certo para a sua vida. Ele não precisa negar Deus explicitamente para funcionar. Basta que Deus seja empurrado para fora do centro e substituído pelo eu.
Há alguns anos, um homem casado havia vinte anos, pai de três adolescentes, procurou aconselhamento pastoral. Antes de contar sua história, ele fez três perguntas: Deus é um Deus de amor? É um Deus bondoso? É um Deus misericordioso? A resposta a cada uma delas foi sim. Era exatamente o que ele esperava ouvir, porque em seguida ele argumentou que, se Deus é tudo isso, então certamente desejaria a sua felicidade pessoal. E a felicidade que ele havia encontrado, segundo suas próprias palavras, tinha o rosto de outra mulher. O casamento havia esfriado, ele não enxergava mais saída, e estava decidido a deixar a esposa e os filhos para recomeçar com quem ele chamava de sua verdadeira metade. Diante da explicação de que a vida plena que ele buscava dependia da obediência à Palavra de Deus, e não da fuga dela, ele foi direto: o importante era a sua felicidade, a sua realização, a sua alegria pessoal. Tempos depois, soube-se que ele de fato abandonou a família. Perguntado sobre como os filhos reagiriam, respondeu apenas: eles se viram.
Essa história não é incomum. Ela é, na verdade, o humanismo em sua forma mais cotidiana e mais dolorosa: não como uma tese filosófica discutida em universidades, mas como uma decisão tomada na sala de estar de uma casa, quando alguém decide que sua vontade pesa mais do que a vontade de Deus. E isso nos coloca diante da pergunta que deveria abrir o coração de qualquer pessoa disposta a pensar com honestidade: quando buscamos a felicidade ou a verdade fora dos parâmetros que Deus estabeleceu, estamos nos libertando ou estamos apenas trocando de dono?
CONTEXTO BÍBLICO E HISTÓRICO
Para entender por que Colossenses 1.15-17 é a resposta certa a essa pergunta, é preciso voltar à situação da igreja que recebeu essa carta. Paulo escreve estando preso em Roma, por volta da década de 60 depois de Cristo, a uma comunidade que ele não havia fundado pessoalmente, mas que nascera do trabalho de Epafras. Os colossenses viviam em uma região onde o cristianismo recém-chegado se misturava com influências judaicas, especulações místicas orientais e um certo fascínio por poderes espirituais intermediários. Ensinava-se ali que crer em Cristo era apenas o primeiro passo de uma jornada mais longa, e que a verdadeira plenitude exigia complementos: rituais, observâncias, e sobretudo a mediação de seres espirituais que preencheriam a distância entre o homem e o Deus supremo.
Em outras palavras, os colossenses estavam sendo seduzidos pela ideia de que Cristo, sozinho, não bastava. E é exatamente contra essa insinuação que Paulo ergue um dos textos mais densos de todo o Novo Testamento. Ele não escreve para corrigir um detalhe de comportamento, mas para reconstruir, desde a raiz, a compreensão que aquela igreja tinha sobre quem é Cristo e sobre o lugar que ele ocupa em relação a tudo o que existe.
Há algo profundamente atual nessa situação. Assim como os colossenses foram tentados a buscar sabedoria e plenitude fora de Cristo, o homem contemporâneo é tentado a buscar sentido, moralidade e felicidade fora de Deus, confiando exclusivamente na própria razão, nos próprios sentimentos e na própria capacidade de determinar o que é bom. A roupagem mudou, mas o impulso é o mesmo: a convicção de que Cristo, sozinho, não é suficiente, e de que algo mais — o eu, a ciência, o desejo, a autonomia — precisa ser acrescentado para que a vida realmente faça sentido. Diante disso, a afirmação de que nele tudo subsiste funciona como um antídoto direto contra qualquer ilusão de autossuficiência humana, porque lembra a quem lê que a realidade, inclusive a nossa própria vida, jamais foi projetada para funcionar de forma independente de Deus.
1. A Ilusão do Trono Vazio: a essência do humanismo
O humanismo nasce sempre do mesmo gesto: o homem decide que sua sabedoria e seus desejos são a autoridade suprema sobre sua própria existência. Esse gesto não começou no século passado. Ele remonta ao jardim do Éden, quando Adão e Eva concluíram que a ordem de Deus valia menos do que o próprio julgamento sobre o que parecia bom, agradável e desejável aos seus olhos. Remonta também a Caim, que escolheu sua própria forma de agradar a Deus, ignorando o que havia sido revelado. E remonta à arrogância de Babel, quando um povo inteiro decidiu construir uma torre para alcançar os céus por seus próprios méritos, sem depender de ninguém além de si mesmo.
Vale observar que essa raiz humanista, embora antiga, não nasceu sempre com o rosto que conhecemos hoje. No Renascimento, pensadores como Pico della Mirandola descreviam a liberdade humana como um presente do próprio Deus: diferente das pedras e dos animais, que nasceram com uma natureza fixa, o homem teria recebido a capacidade única de moldar seu próprio destino, elevando-se pelo conhecimento ou rebaixando-se pela negligência. Naquele momento, valorizar o homem ainda não significava negar o Criador. Mas essa relação foi se desgastando ao longo dos séculos. A Revolução Científica e o Iluminismo começaram a explicar o universo por leis mecânicas que dispensavam a intervenção divina, e pensadores do século dezenove, como Feuerbach, chegaram a propor que o próprio Deus não passava de uma projeção das virtudes humanas no céu. Nietzsche declarou que Deus estava morto, resumindo uma sociedade que já não julgava necessário fundamentar sua moral ou sua ciência em nada além de si mesma. E no século vinte, com o existencialismo de Sartre, o processo chegou ao seu ponto mais radical: se não há Deus para traçar um destino, o homem estaria condenado a ser o único autor, juiz e responsável pelo sentido de sua própria história.
O que começou como um elogio à dignidade humana terminou, portanto, como uma tentativa de ocupar o próprio trono que pertence a Deus. E essa tentativa nunca fica restrita aos livros de filosofia. Ela desce até a vida prática, disfarçada de linguagem aceitável e até simpática. Quando alguém troca de cônjuge em nome da própria felicidade, ignorando o que Deus estabeleceu sobre o casamento, está destronando Deus. Quando alguém defende o aborto como mera escolha pessoal, tratando a vida em formação como se fosse propriedade exclusiva de quem decide sobre ela, está destronando Deus. Ted Turner, fundador da CNN, chegou a declarar publicamente que os Dez Mandamentos já não seriam relevantes para o homem moderno, oferecendo-se, em tom de brincadeira que revela algo sério, para redefinir por conta própria os parâmetros da vida humana. Talvez você nunca tenha feito uma declaração tão explícita quanto essa. Mas talvez valha a pena perguntar: existem áreas da sua vida em que você já decidiu, silenciosamente, que sua vontade tem mais peso do que a Palavra de Deus?
2. A Realidade do Trono Ocupado: Cristo, o sustentador de todas as coisas
É exatamente aqui que Colossenses 1.15-17 se torna decisivo. Paulo não escreve um argumento filosófico contra o humanismo; ele simplesmente revela quem Cristo é, e a revelação, por si só, desmonta qualquer pretensão de autonomia. Cristo é chamado de imagem do Deus invisível, e essa palavra, no grego original, não descreve uma cópia distante ou uma sombra pálida da divindade. Ela aponta para uma relação de essência: olhar para o Filho é contemplar a própria natureza do Pai. Ele também é chamado de primogênito de toda a criação, expressão que não indica que Cristo tenha sido o primeiro ser criado, mas que estabelece sua posição de governante e causa suprema sobre tudo o que existe.
O versículo dezesseis desenvolve essa ideia por meio de uma fórmula que se repete ao longo de toda a Escritura: todas as coisas foram criadas nele, por meio dele e para ele. Essa tríplice preposição fecha qualquer brecha para a autonomia humana. Nele significa que Cristo é a esfera dentro da qual tudo existe. Por meio dele significa que ele é o agente ativo da criação, e não um espectador distante. Para ele significa que o propósito final de tudo o que existe, incluindo a nossa própria vida, aponta para a glória do Filho, e não para a satisfação dos nossos próprios planos. E o versículo dezessete acrescenta algo que talvez seja o mais impressionante de tudo: nele tudo subsiste. O verbo usado por Paulo descreve um poder contínuo, ativo, presente, que mantém o universo coeso a cada instante. Não se trata de um Deus que criou o mundo e depois se afastou, deixando-o funcionar sozinho como um mecanismo independente. Trata-se de um Cristo que, agora mesmo, sustenta cada átomo, cada estrela, cada respiração.
Esse dado muda completamente a forma como devemos encarar a realidade. O universo não é um sistema autônomo entregue ao acaso, aos governos, às ideologias ou à vontade humana. Ele está firmemente ancorado nas mãos do Cristo exaltado. Isso significa que, quando o noticiário parece anunciar apenas caos, quando as estruturas sociais parecem desmoronar, quando a vida pessoal parece fora de controle, existe um fundamento que não treme: nele tudo subsiste. Talvez você esteja vivendo um momento em que tudo parece incerto. Vale a pena parar e lembrar que a mesma palavra que sustenta as galáxias sustenta também a sua vida, mesmo quando você não consegue enxergar isso com clareza.
Se Cristo sustenta todas as coisas, e se somos absolutamente dependentes dele, surge então uma pergunta que toca diretamente a nossa identidade: qual é, afinal, o verdadeiro valor do ser humano?
3. A Verdadeira Dignidade Humana: Imago Dei diante do orgulho humanista
É preciso dizer algo com toda a clareza, para que ninguém pense que o cristianismo diminui o valor do homem ao afirmar a supremacia de Cristo. Acontece exatamente o contrário. O humanismo, ao remover Deus da equação, acaba entregando ao homem um valor relativo, utilitário e, em última análise, descartável, porque um valor que depende apenas da própria opinião humana pode ser negociado, reduzido ou eliminado conforme a conveniência do momento. A Bíblia, ao contrário, ancora a dignidade humana em algo que nenhuma circunstância pode corroer: fomos criados à imagem e semelhança de Deus.
Gênesis 1.27 declara que Deus criou o homem à sua própria imagem, homem e mulher os criou. Esse texto ensina algo que o humanismo jamais conseguiria oferecer: o valor humano não nasce da nossa capacidade de raciocinar, de produzir, de decidir ou de conquistar. Ele é derivado, refletido, recebido de Deus. Somos preciosos não porque provamos nosso valor, mas porque carregamos, ainda que manchada pelo pecado, a marca do nosso Criador. É por essa razão que a Bíblia pode afirmar, ao mesmo tempo, que o homem é totalmente dependente de Cristo para subsistir e que o homem é imensamente valioso diante de Deus. Essas duas verdades não se contradizem; elas se completam.
O diagnóstico que Paulo faz em Romanos 1.21 e 25 explica por que o humanismo, apesar de nascer de um desejo legítimo de valorizar o ser humano, acaba produzindo o efeito contrário. Quando o homem conhece a Deus e ainda assim não o glorifica como Deus, seu coração se torna insensato, e ele passa a servir mais à criatura do que ao Criador. É exatamente isso que acontece quando a felicidade pessoal é elevada acima da obediência, quando o embrião passa a ser tratado como acidente evolutivo em vez de vida planejada por Deus desde o ventre, como declara o Salmo 139. Provérbios 14.12 resume com precisão o resultado inevitável desse caminho: há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte. O que a cultura chama de progresso, de libertação ou de autenticidade pode, na verdade, ser apenas mais uma variação do mesmo erro antigo: confiar no próprio coração como se ele fosse uma bússola confiável, quando a Escritura o descreve como enganoso mais do que todas as coisas.
CONCLUSÃO
O humanismo promete liberdade, mas o que ele entrega, na prática, é confusão, instabilidade e escravidão a um ego que nunca está satisfeito. A história do homem que abandonou a esposa e os filhos em busca da própria felicidade não termina bem, porque nenhuma história termina bem quando começa destronando Deus para colocar o eu no lugar dele. Cristo, por outro lado, é apresentado por Paulo como o Criador e o Sustentador de todas as coisas, aquele em quem, por meio de quem e para quem tudo existe. E é justamente nele, e não fora dele, que o ser humano encontra seu verdadeiro propósito, sua verdadeira dignidade e sua verdadeira liberdade.
Viver essa verdade significa reconhecer, com humildade, que não somos o centro do universo, por mais que a cultura ao nosso redor insista em nos convencer disso. Significa também descansar, porque um Deus que sustenta as galáxias é plenamente capaz de sustentar a sua vida. A felicidade que vale a pena buscar não é aquela que se constrói ignorando a Palavra de Deus, mas aquela que nasce da submissão ao senhorio de Cristo, o único Arquiteto que conhece verdadeiramente o propósito para o qual fomos formados.
Talvez seja este o momento de examinar, com sinceridade diante de Deus, as áreas da vida em que você tem tentado ocupar o trono que só pertence a ele. Não é preciso uma declaração pública como a de Ted Turner para destronar Deus; muitas vezes basta uma decisão silenciosa, tomada no coração, de que a nossa vontade importa mais do que a vontade dele. Que este seja, então, um convite ao arrependimento e à entrega, reconhecendo que a verdadeira liberdade nunca esteve em nos tornarmos senhores de nós mesmos, mas em nos rendermos completamente àquele em quem tudo subsiste.
PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO EM CLASSE
- De que maneiras sutis o humanismo — a ideia de que “eu sou a autoridade final da minha vida” — tem influenciado nossas decisões familiares, financeiras ou profissionais?
- Como a afirmação de Colossenses 1.17, de que todas as coisas subsistem por Cristo, nos consola em tempos de incerteza global ou caos social?
- Por que a doutrina da Imago Dei, apresentada em Gênesis 1.27, oferece uma base mais sólida e inegociável para a dignidade humana do que o humanismo secular?
- Provérbios 14.12 alerta sobre o caminho que “parece direito”. Quais são exemplos modernos de caminhos que parecem corretos à razão humana, mas conduzem à morte espiritual?
- Como podemos, na prática, entronizar a Deus em nosso dia a dia, em vez de buscarmos apenas a nossa felicidade pessoal como fim último?
DÚVIDAS FREQUENTES
O cristianismo não é contra o valor do ser humano, já que critica o humanismo? Não. O cristianismo eleva o valor humano ao máximo possível, pois afirma que somos feitos à imagem de Deus. O humanismo secular, ao remover Deus da equação, acaba tornando o valor humano relativo, utilitário e, em última instância, descartável.
Buscar a felicidade é errado para o cristão? Não é errado em si mesmo. O erro está em buscá-la por meio da desobediência à Palavra de Deus e da autonomia pecaminosa. A alegria verdadeira e duradoura é fruto da obediência e da submissão ao Criador, não da rebeldia contra ele.
Como Colossenses 1 se conecta diretamente com a crítica ao humanismo? Colossenses 1.15-17 afirma que Cristo é o Criador e o Sustentador de todas as coisas. Essa afirmação destrói, pela raiz, a premissa humanista de que o homem ou o universo seriam autônomos, revelando que toda a realidade depende de Cristo e existe para ele.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- BAXTER, Richard. Reformando a Família: Conselhos para um Lar Cristão. Editora Caridade Puritana, 2020.
- LOPES, Augustus Nicodemus; LOPES, Minka Schalkwijk. A Bíblia e sua Família. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011.
- KEMP, Jaime. Forças Destruidoras da Família: A Sobrevivência da Família na Pós-Modernidade. São Paulo: Editora Vida, 2012.
- CÉSAR, Elben M. Lenz. Casamento e Família: Encantamento e Obrigações. Viçosa: Editora Ultimato, 2013.
- CALVINO, João. Salmos IV. Comentário ao Salmo 127.
- KIDNER, Derek. Salmos 73 a 150. Série Introdução e Comentário.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!






