A gratidão genuína nasce da experiência viva da graça, do reconhecimento de que foi o Senhor quem tirou do abismo aquele que não tinha como sair sozinho.
Salmo 116:1–14. “Amo ao Senhor, porque ele ouviu a minha voz e a minha súplica. Porque inclinou a mim os seus ouvidos; portanto, o invocarei enquanto viver. Os cordéis da morte me cercaram, e angústias do inferno se apoderaram de mim; encontrei aperto e tristeza. Então invoquei o nome do Senhor, dizendo: Ó Senhor, livra a minha alma. Piedoso é o Senhor e justo; o nosso Deus tem misericórdia. O Senhor guarda os símplices; fui abatido, mas ele me livrou. Volta, minha alma, para o teu repouso, pois o Senhor te fez bem. Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda. Andarei perante a face do Senhor na terra dos viventes. Cri, por isso falei. Estive muito aflito. Dizia na minha pressa: Todos os homens são mentirosos. Que darei eu ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito? Tomarei o cálice da salvação, e invocarei o nome do Senhor. Pagarei os meus votos ao Senhor, agora, na presença de todo o seu povo.”
Em 1741, Jonathan Edwards pregou diante de uma congregação em Enfield, Connecticut, um sermão baseado em Deuteronômio 32:35, “A minha é a vingança e a recompensa, ao tempo que resvalará o seu pé; porque o dia da sua ruína está próximo, e as coisas que lhes hão de suceder se apressam”. Essa pregação ficaria famosa pela imagem de um pecador suspenso como aranha sobre o fogo, sustentado apenas pela mão misericordiosa de Deus. Ainda hoje quando se comenta esse episódio, fala-se de homens e mulheres que nunca haviam chorado em público em lágrimas adarrados as bancadas das igrejas e gemendo. Tinham percebido, de repente, que não eram os arquitetos de sua própria sobrevivência, Deus os estava sustentado e eles não se davam conta disto.
O Salmo 116 nasce exatamente dessa percepção e o salmista anônimo a expressa com uma abertura singular no saltério inteiro: “Eu amo!”, sem objeto explícito. Como se o amor transbordasse antes mesmo que houvesse palavras suficientes para contê-lo. Calvino comenta que “este modo de falar é muito enfático, mostrando que ele não podia receber alegria e descanso senão em Deus.” O amor que abre o poema é o que resta em quem foi tirado do fundo do poço e ainda consegue respirar.
O abismo que nenhum homem escolhe
Os “cordéis da morte” – chevlê mavet, carregam no hebraico um duplo sentido brutal: cordas e dores, como as dores do parto, mas também como as cordas que amarram uma vítima a caminho da execução. O salmista se via já capturado, sem rota de fuga, conduzido ao Sheol, a região do silêncio, o lugar onde não há mais louvor, não há mais comunidade, onde Deus não se faz presente. Para o israelita, morrer não era apenas parar de respirar. Era ser cortado da terra dos viventes, separado do povo da aliança, silenciado para sempre diante de Deus.
E é nesse ponto, no mais estreito dos apertos, onde as emoções transbordavam e a razão começava a ceder que o salmista fez a única coisa que ainda era possível: invocou o nome do Senhor. O verbo hebraico sugere urgência, um grito com todas as forças, não uma oração de forma. Toda a teologia da oração está ali comprimida em quatro palavras: “Ó Senhor, livra a minha alma.” Sem argumentação sofisticada, sem mérito algum para apresentar, sem barganha religiosa, nada para oferecer. Apenas um alguém sem proteção própria, sem rede de influência, exposto ao que não pode controlar, clamando ao Deus da aliança.
O caráter antes da resposta
O salmista não relata imediatamente o que Deus fez. Ele para. E declara quem Deus é: “Piedoso é o Senhor e justo; o nosso Deus tem misericórdia.” Ele “passa a realçar os frutos do amor sobre o qual falara, pondo diante de si os títulos de Deus, a fim de que servissem para preservar sua fé.” A misericórdia de Deus antecede o livramento que o salmista recebeu e apresenta Deus agindo porque é quem Ele é, bondoso e cheio de graça.
É aqui que a tese do salmo encontra sua base mais firme: gratidão é reconhecer que não escapamos do abismo sozinhos, foi a misericórdia do Senhor. O título yhwh, o Nome pactual, aparece em todo o poema como lembrete insistente de que o Deus que ouviu não era como os outros deuses dos povos, não era um deus genérico, fruto da religiosidade humana, ele é aquele que tomou um povo para Si e fez com eles uma aliança eterna. Quando o salmista o invoca, está apelando ao Deus que prometeu fidelidade e que, ao responder, confirma que a promessa sempre esteve de pé.
O livramento foi total. “Tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda”. A graça reverteu ponto a ponto as aungústias de estar preso no abismo, o salmista então toma uma resolução para toda a vida: “o invocarei enquanto viver.”
A gratidão sempre dá seu testemunho
Os santos perseveram não porque nunca vacilam, mas porque são sustentados por Aquele em quem creram e é desse chão, da fé que sobreviveu ao desespero, que nasce o versículo 10: “Cri, por isso falei.” Paulo citará essa frase em 2Coríntios 4:13 como fundamento apostólico, “Tendo, porém, o mesmo espírito da fé, como está escrito: Eu cri; por isso, é que falei. Também nós cremos; por isso, também falamos”. A fé não pode permanecer inoperante no coração, mas deve, necessariamente, manifestar-se. A gratidão verdadeira não cabe no silêncio, ela declara o que o Senhor fez e faz. O plural yeshu’ot – salvações, no versículo 13, não é um erro do esxritor: as misericórdias de Deus são tantas que não cabem no singular.
Que darei eu ao Senhor por todos os seus benefícios?”, não tem resposta proporcional, Deus “não espera recompensa de nossa parte, nem pode receber nenhuma, além de não sentir necessidade de nada, o que temos para oferecer?” Somos convocados pelo próprio Deus para uma vida de adoração.
O Salmo 116 é o retrato de um ser humano que desceu ao fundo, cordéis, laços, aperto, lágrimas e foi tirado de lá por uma misericórdia que veio do trono da graça de Deus. O percurso vai da angústia ao reconhecimento do caráter de Deus, do livramento experimentado à fé confessada, e da gratidão privada ao louvor público. Cada etapa pressupõe a anterior. E no centro de tudo, como o eixo em torno do qual o poema inteiro gira, está o Deus que inclinou os seus ouvidos.
E agora, como viveremos? Erguer o cálice não era gesto de quem havia pago sua dívida, era gesto de quem reconhecia que jamais poderia pagá-la. A vida de gratidão que o salmo convoca não é uma lista de obrigações religiosas cumpridas com esforço, mas o transbordamento natural de quem percebeu, na carne, que não saiu do abismo por força própria. Pergunte a si mesmo: a sua gratidão tem testemunho? Ela é pública? Ela instrui alguém sobre quem é o Deus que salva?
Oremos. “Invocarei o nome do Senhor enquanto viver, pois ele inclinou os seus ouvidos ao meu clamor no dia em que os cordéis da morte me cercaram. A minha alma volta ao seu repouso, porque o Senhor me fez bem, livrou minha alma da morte, meus olhos das lágrimas, meus pés da queda. Que darei eu ao Senhor por todos os seus benefícios? Tomarei o cálice da salvação e proclamarei o teu nome diante de todo o teu povo. Pois grande é a tua misericórdia para comigo; tu me livraste do mais profundo do Sheol. A ti seja todo o louvor, Senhor, para sempre.”
Para refletir. Quando você desceu ao seu próprio abismo, seja de perda, traição ou desespero, a fé sobreviveu o suficiente para produzir confissão? O que essa experiência revelou sobre quem sustentou você?
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
UL TIMAS POSTAGENS

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!
