A família não é uma invenção cultural nem um acidente da história, mas a obra da própria aliança de Deus: nela Ele planta o evangelho na terra fértil das gerações, e por meio do amor conjugal, da criação dos filhos e do trabalho diário, forma um povo que O adora, O testemunha ao mundo e aponta, desde já, para a família maior — a Igreja, esposa de Cristo.
Texto Bíblico Principal: Gênesis 2.18-24.
Textos Complementares: Mateus 19.4-6. Efésios 5.22-33 e 6.1-4. Deuteronômio 6.4-9. Salmo 127.3-5.
INTRODUÇÃO
Podemos pensar em uma família a poucos anos atrás, agricultores que geração após geração, mantinha viva uma antiga prática: antes de qualquer refeição, o mais velho da casa lia em voz alta um trecho das Escrituras e orava pelos que ali estavam, netos, filhos, agregados. Se perguntassemos por que continuavam com esse costume ano após ano, num tempo em que tantas famílias mal conseguem sentar-se juntas à mesa, a resposta foi simples: “Foi assim que aprendemos quem éramos”. Esta família não estava apenas preservando uma tradição bonita; estava, vivendo algo profundamente bíblico, a convicção de que o lar é o primeiro lugar onde uma pessoa aprende a conhecer a Deus.
Vivemos, contudo, num tempo em que a própria ideia de família está sendo questionada, redesenhada e, muitas vezes, esvaziada de sentido. Fala-se de família como um simples contrato entre adultos, como uma fase da vida, como algo que cada um pode moldar conforme sua conveniência. E, no meio dessa confusão, muitos cristãos também perdem de vista que a família não nasceu de um costume humano, nem de uma necessidade econômica, nem de uma convenção social, ela nasceu do próprio coração de Deus, no jardim do Éden, antes mesmo de existir pecado no mundo.
Esta lição não pretende ensinar “regras” para o casamento ou para a criação dos filhos. Ela quer responder a uma pergunta mais profunda: por que a família existe? Qual é o lugar dela no plano eterno de Deus? Se conseguirmos responder a essa pergunta, tudo o que dissermos depois sobre noivado, casamento, educação dos filhos e trabalho ganhará um sentido novo, não serão apenas conselhos práticos, mas expressões de uma vocação divina.
CONTEXTO BÍBLICO E HISTÓRICO
Para compreender a visão bíblica da família, é preciso primeiro entender como ela era estruturada no mundo do Antigo e do Novo Testamento. A menor unidade social em Israel não era o indivíduo, mas a “casa do pai” em hebraico, bêt ‘āb, a família cujos membros descendiam de um ancestral comum ainda vivo na memória do povo. Essas casas se agrupavam em clãs (mispāhāh) e os clãs em tribos, formando círculos concêntricos de parentesco: o casal no centro, os filhos ao redor, e depois avós, tios e primos nas camadas mais externas.
O pai era reconhecido como cabeça e, muitas vezes, como sacerdote da família, Jó por exemplo, oferecia sacrifícios em favor de seus filhos, exercendo esse papel sacerdotal doméstico. A família era, ao mesmo tempo, unidade econômica, religiosa e jurídica: nela se resolvia praticamente todos os problemas da vida, e o sentimento de solidariedade era tão forte que a Bíblia repetidamente insiste que “uma família nunca deve extinguir-se”, daí a instituição do levirato, pela qual um parente próximo se casava com a viúva sem filhos para dar continuidade ao nome do falecido.
O noivado e o casamento, nos tempos de Jesus, não eram meros acordos afetivos, mas processos cuidadosamente regulados. O período de noivado durava geralmente um ano e possuía quase o mesmo peso legal do casamento: a noiva já era chamada de “mulher” do noivo, e a infidelidade durante esse período era julgada como adultério é por isso que José, ao saber que Maria estava grávida antes de consumado o casamento, pensou em “deixá-la secretamente”, pois um noivado rompido por infidelidade era juridicamente equivalente a um divórcio. O pagamento do mohar, o dote entregue à família da noiva, e a entrega de presentes (mattan) selavam o compromisso, que era encerrado com uma festa de vários dias, geralmente no outono, quando a colheita já havia terminado e havia tempo livre para celebrar.
A educação dos filhos, por sua vez, era responsabilidade primária do lar, o pai ensinava aos filhos a Torá e um ofício, e a mãe cuidava das filhas até o casamento. Somente cerca de cem anos antes de Cristo surgiram as primeiras escolas ligadas às sinagogas, mas mesmo essas escolas eram vistas como um prolongamento, e não uma substituição, do dever educativo dos pais. É dentro desse mundo patriarcal, agrário, comunitário, profundamente religioso que o Novo Testamento vai anunciar que, em Cristo, a família ganha um sentido ainda mais profundo: ela se torna também figura viva da união entre Cristo e sua Igreja.
1 – A Origem da Família: o Projeto de Deus
Antes de existir qualquer nação, qualquer lei civil ou qualquer sistema econômico, já existia a família. O relato da criação nos mostra Deus observando cada parte da sua obra e declarando que era boa — até chegar a um ponto em que Ele afirma que algo, sim, “não é bom”: o homem estar só. É curioso perceber que essa é a primeira coisa que Deus chama de “não boa” em toda a criação, e a solução que Ele dá não é apenas companhia, mas uma aliança de una carne, formada a partir do próprio corpo do homem, mostrando a profunda unidade e complementaridade entre os dois. Quando Deus forma a mulher e a apresenta ao homem, este não a recebe como uma posse, mas como alguém da sua própria essência — “osso dos meus ossos e carne da minha carne” — e o texto sagrado explica: “por isso, deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gênesis 2.24).
Esse versículo carrega, dentro de si, a doutrina fundamental que a tradição reformada sempre reconheceu: o casamento é uma aliança, não um simples contrato. Um contrato pode ser desfeito quando uma das partes deixa de cumprir sua função; uma aliança envolve promessa, permanência e identidade compartilhada. Foi exatamente esse texto que Jesus usou, séculos depois, para responder aos fariseus que o questionavam sobre o divórcio: Ele voltou ao “princípio”, a Gênesis, mostrando que o padrão criacional — um homem, uma mulher, unidos para toda a vida — não era uma regra cultural israelita, mas a própria vontade do Criador para toda a humanidade (Mateus 19.4-6). Isso significa que, embora a Bíblia registre desvios históricos como a poligamia praticada por Lameque, por Jacó ou até por Davi e Salomão, esses relatos nunca são apresentados como o ideal, mas como o resultado da dureza do coração humano diante do padrão original de Deus.
A família, portanto, participa também daquilo que os teólogos chamam de mandato cultural: logo depois de criar o casal, Deus o abençoa e ordena que sejam férteis, se multipliquem e cuidem da terra (Gênesis 1.28). O lar não é apenas o lugar do afeto; é a base a partir da qual a humanidade cumpre sua vocação de cultivar, ordenar e servir a criação de Deus. Uma jovem família que começa do zero — um pequeno apartamento, um orçamento apertado, sonhos ainda incertos — está, sem perceber, participando dessa mesma missão que Deus deu no princípio: multiplicar vida, cuidar do que foi dado e refletir a imagem do Criador no mundo. Diante disso, cabe perguntar: se a família nasceu do próprio projeto de Deus, e não de uma convenção humana, como isso deveria mudar a forma como olhamos para o nosso próprio lar hoje?
2 – Do Noivado ao Casamento: a Aliança que Sustenta a Família
Se a família nasce do casamento, é fundamental entender como a Bíblia trata esse compromisso — não como um evento isolado, mas como um processo de aliança que começa muito antes do dia da festa. Nos tempos bíblicos, a escolha do cônjuge normalmente envolvia os pais, especialmente o pai do noivo, que dava início às tratativas; mas os sábios de Israel também recomendavam sabedoria e cautela: “Reflita longamente antes de escolher esposa. Não olhe para a beleza, que é passageira: pense na família”, diziam os rabinos, revelando um profundo realismo sobre a vida conjugal e suas dificuldades. Após o acordo, vinha o noivado — um período que, como vimos no contexto histórico, já trazia consigo obrigações e direitos quase equivalentes aos do casamento propriamente dito.
É justamente esse pano de fundo cultural que ilumina a seriedade com que a Escritura trata a fidelidade conjugal. O Antigo Testamento apresenta, ao lado das exceções culturais como a poligamia e o concubinato, um elogio contínuo e crescente ao ideal monogâmico: o livro de Provérbios exorta o jovem a alegrar-se “com a mulher da sua mocidade” (Provérbios 5.18), e os profetas usam repetidamente a imagem do casamento fiel para descrever a própria aliança entre Deus e seu povo — quando Israel se afasta de Deus para servir a ídolos, os profetas chamam isso de adultério espiritual, o que só faz sentido porque o casamento fiel era reconhecido como o padrão mais elevado de compromisso humano. É por isso que a monogamia, mesmo quando culturalmente contestada em certos períodos de Israel, nunca deixou de ser o ideal normativo — confirmado, mais tarde, pelo próprio Senhor Jesus.
Aqui a doutrina reformada tem algo precioso a acrescentar: o casamento não é apenas um relacionamento afetivo, mas um sacramento simbólico da relação entre Cristo e a Igreja. É o apóstolo Paulo quem revela essa profundidade em Efésios 5, ao ensinar que o amor do marido pela esposa deve refletir o amor com que Cristo amou a Igreja e entregou-se por ela. O casamento cristão, portanto, não existe apenas para a felicidade do casal — embora essa felicidade seja um bem legítimo e desejado por Deus — mas para pregar, com a própria vida do casal, o evangelho da graça: um amor que se entrega, que perdoa, que permanece fiel mesmo quando é difícil. Pense num casal que atravessa décadas juntos, enfrentando doenças, perdas financeiras, filhos que se afastam da fé, e que, mesmo assim, permanece unido, orando um pelo outro: essa permanência não é apenas força de vontade humana, é um eco visível da fidelidade de Cristo por sua Igreja. Diante disso, podemos perguntar: de que forma o nosso próprio casamento — ou a expectativa que temos sobre ele — está anunciando ao mundo ao nosso redor o evangelho de Cristo?
3 – A Vida no Lar: Papéis e Responsabilidades
Uma vez formada a aliança matrimonial, a vida cotidiana da casa exigia uma organização clara de papéis. Nos tempos bíblicos, o pai era reconhecido como cabeça da família em um sentido muito amplo — a própria esposa costumava chamá-lo de “senhor”, e a expressão “casa do pai” identificava toda a unidade familiar. Isso não significava, contudo, que a mulher fosse desprovida de valor ou responsabilidade: ela administrava o lar, cuidava dos bens da casa até que os filhos tivessem idade para assumi-los, e a literatura sapiencial a descreve com grande admiração, como em Provérbios 31, onde a “mulher virtuosa” é elogiada por sua sabedoria, sua diligência, sua generosidade com os pobres e sua palavra cheia de bondade.
O Novo Testamento retoma essa estrutura, mas a transforma profundamente ao colocá-la sob o senhorio de Cristo. Quando Paulo escreve às igrejas de Éfeso e Colossos, ele não está simplesmente repetindo os costumes do seu tempo — está reinterpretando-os à luz do evangelho. O marido é chamado a amar a esposa “como Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5.25) — uma exigência muito mais elevada do que qualquer código social da época, pois pede não apenas autoridade, mas entrega sacrificial. A esposa, por sua vez, é chamada a uma submissão que não é inferioridade, mas ordem dentro da aliança, à semelhança de como a Igreja se submete a Cristo — uma submissão que só faz sentido dentro de um relacionamento de amor mútuo, e não de dominação. E aos filhos, Paulo dá uma instrução dupla: obedecer aos pais no Senhor, e aos pais, não provocarem seus filhos à ira, mas os criarem “na disciplina e admoestação do Senhor” (Efésios 6.4) — um cuidado que evita tanto o autoritarismo quanto a permissividade.
Essa é uma das marcas mais bonitas da visão bíblica da família: ninguém exerce seu papel para satisfazer a própria vontade, mas para refletir o caráter de Deus dentro de casa. Uma família em que o marido serve com sacrifício, a esposa colabora com sabedoria e os filhos são criados com firmeza e ternura não é apenas uma família “bem-sucedida” aos olhos do mundo — é um pequeno retrato do evangelho vivido na rotina, nas discussões resolvidas com perdão, nas tarefas domésticas divididas com respeito, na paciência renovada todos os dias. E isso nos leva a perguntar: os papéis que exercemos em nossa própria casa — como cônjuges, como pais, como filhos — estão sendo vividos como um serviço de amor, ou como uma disputa de poder?
4 – Filhos: Herança do Senhor
Poucas coisas revelam tão claramente a visão bíblica da família quanto sua atitude em relação aos filhos. Numa época em que muitos, ao redor de Israel, viam os filhos apenas como mão de obra ou continuidade de linhagem, a Escritura insiste em algo mais profundo: “Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão” (Salmo 127.3). Um filho, portanto, não é um acidente nem um peso, mas um presente que Deus concede — e, como toda herança preciosa, exige cuidado responsável.
Esse cuidado se expressava, sobretudo, na educação. O mandamento central do Antigo Testamento sobre esse tema está em Deuteronômio 6: os pais deveriam ensinar diligentemente os mandamentos de Deus aos filhos, “e as repetirás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te” (Deuteronômio 6.7). Perceba que esse ensino não acontecia apenas num momento formal do dia, mas permeava toda a rotina da família — as refeições, as caminhadas, o momento de dormir. Nos tempos de Jesus, essa responsabilidade continuava sendo primariamente do lar: o pai ensinava o filho a ler as Escrituras e a exercer um ofício, e somente por volta de cem anos antes do nascimento de Cristo surgiram as primeiras escolas formais, ligadas às sinagogas — mas mesmo essas escolas eram vistas como um complemento, nunca uma substituição, do dever educativo dos pais.
A disciplina também fazia parte dessa educação, mas sempre unida ao amor. Os Provérbios ensinam que “não retires da criança a disciplina” (Provérbios 23.13), mas o mesmo livro também ensina que o pai que ama seu filho “diligentemente o disciplina” (Provérbios 13.24) — a disciplina bíblica nunca é motivada por raiva ou desejo de controle, mas pelo desejo de que o filho cresça em sabedoria e temor do Senhor. É por isso que Paulo, ao escrever aos efésios, equilibra essa mesma exigência: “não provoqueis à ira vossos filhos, mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor” (Efésios 6.4) — ambos os extremos, o autoritarismo sem amor e a ausência de correção, são rejeitados pela sabedoria bíblica.
Há algo profundamente pastoral nisso: pense numa mãe que, cansada depois de um longo dia, ainda assim se senta ao lado da cama do filho pequeno para orar com ele antes de dormir; ou num pai que, mesmo sem muitos recursos, dedica tempo para explicar ao filho por que a família confia em Deus mesmo nas dificuldades. Esses pequenos gestos, repetidos ao longo dos anos, são exatamente o que Deuteronômio 6 pedia: uma fé que se transmite não apenas em palavras solenes, mas na vida cotidiana. E isso nos convida a perguntar: que tipo de herança espiritual estamos, de fato, deixando para as próximas gerações da nossa família?
5 – Trabalho, Fé e Testemunho da Família
Um dos aspectos menos lembrados, mas profundamente bíblicos, da vida familiar é o trabalho. Na Palestina dos tempos bíblicos, a família era também uma unidade econômica: pais e filhos trabalhavam juntos na terra, no pastoreio ou em algum ofício, e essa cooperação diária era parte essencial da formação do caráter e da provisão do lar. As Escrituras nunca desprezam esse trabalho; ao contrário, o tratam como vocação abençoada por Deus. O próprio Jesus, antes de iniciar seu ministério público, provavelmente aprendeu o ofício de carpinteiro com José, participando da vida comum de uma família de trabalhadores.
A literatura sapiencial reforça continuamente essa dignidade do trabalho: “pela força do boi há abundância de colheitas” (Provérbios 14.4), e a mulher virtuosa de Provérbios 31 é elogiada justamente por sua diligência prática — ela negocia, produz, administra recursos e ainda estende a mão ao pobre e ao necessitado. Esse último detalhe é essencial: o trabalho da família bíblica nunca é apenas para o próprio sustento, mas também para a generosidade. Paulo instrui os cristãos a trabalharem com as próprias mãos para que tenham “que repartir com o que tiver necessidade” (Efésios 4.28, cf. Colossenses 3.23), e as cartas pastorais insistem repetidamente na prática da hospitalidade como marca do lar cristão — receber viajantes, cuidar de viúvas, servir à igreja local (1 Timóteo 5.10; Tito 2.3-5).
É justamente aqui que a família se torna testemunho diante da sociedade. Um lar que trabalha com honestidade, que administra bem o pouco ou o muito que tem, que abre as portas para quem precisa de acolhimento, está pregando um sermão silencioso sobre o caráter de Deus — um Deus que provê, que é generoso, que acolhe os estranhos. Imagine uma família que, mesmo com recursos limitados, decide sempre reservar um lugar a mais à mesa para quem estiver sozinho num domingo à tarde: essa prática simples ensina aos filhos, mais do que qualquer sermão, o que significa viver o evangelho em casa. E isso nos leva a perguntar: nossa família tem sido reconhecida, pelos que nos rodeiam, pela forma como trabalha e compartilha o que recebe de Deus?
6 – A Família na História da Redenção
Depois de percorrermos a origem, o casamento, os papéis domésticos, os filhos e o trabalho, fica ainda uma pergunta que amarra tudo: por que Deus dá tanta importância à família? A resposta está no fato de que a família ocupa um lugar central em toda a história da redenção. Deus não escolheu salvar indivíduos isolados, mas formar um povo — e esse povo cresceu, historicamente, a partir de famílias e alianças familiares. Quando Deus chama Abraão, Ele promete abençoar não apenas a ele, mas sua descendência; quando Israel celebra a Páscoa, a ordem é que seja celebrada em família, geração após geração, para que os filhos perguntem “que quer dizer isto?” e os pais possam contar a obra de Deus (Êxodo 12.26-27).
No Novo Testamento, esse padrão continua, mas ganha uma dimensão surpreendente: a salvação, no livro de Atos, muitas vezes alcança famílias inteiras — “crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa”, disseram Paulo e Silas ao carcereiro de Filipos (Atos 16.31), e ele foi batizado “com todos os seus”. A família continuou sendo, na igreja primitiva, o primeiro espaço de discipulado: era nos lares que os primeiros cristãos se reuniam, partiam o pão e ensinavam a fé antes mesmo de existirem templos ou prédios eclesiásticos. Não é surpresa, portanto, que os primeiros escritores cristãos tenham tratado o casamento com tanta reverência: Clemente de Alexandria, já no início do terceiro século, ensinava que o casamento, “como uma imagem sagrada”, deveria ser mantido puro; e Inácio, em sua carta a Policarpo, exortava os cristãos a preservarem a pureza do matrimônio como algo digno de honra diante de Deus.
Mas o ponto culminante dessa história é que a própria família se torna, no fim das Escrituras, imagem da consumação de todas as coisas: o livro de Apocalipse descreve a Igreja como a “noiva do Cordeiro”, preparada e adornada para o seu Esposo (Apocalipse 21.2, 9). Tudo o que vivemos hoje em nossas famílias terrenas — o compromisso da aliança, o amor que se entrega, a fidelidade que persevera — é, de certa forma, um ensaio para essa realidade maior: a união eterna entre Cristo e o seu povo. Cristo, aliás, não apenas ensinou sobre a família; Ele a restaurou. Onde o pecado trouxe divórcio, rivalidade e dureza de coração, o evangelho traz reconciliação, perdão e um novo poder para amar. E é isso que nos leva à pergunta final desta seção: se a nossa família terrena é chamada a apontar para essa realidade eterna, o que precisa mudar, hoje, para que ela reflita mais fielmente esse propósito?
CONCLUSÃO
Chegamos ao final deste percurso pela Bíblia inteira, e talvez a melhor forma de resumir tudo o que vimos seja voltar à pergunta que fizemos no início: por que a família existe? A resposta que a Escritura nos dá, do princípio ao fim, é que a família não nasceu de um acordo social, nem é apenas um espaço de afeto humano — ela é a própria obra de Deus, formada no jardim do Éden antes do pecado, ferida pela queda, mas continuamente redimida e usada por Deus como palco da sua aliança. Vimos que o casamento nasce de um projeto divino de complementaridade e fidelidade; que o noivado e a união conjugal, nos tempos bíblicos, carregavam um peso de compromisso que hoje muitas vezes se perdeu; que os papéis dentro do lar existem não para dominar, mas para servir; que os filhos são herança preciosa que Deus confia aos pais para serem educados no seu caminho; que o trabalho e a generosidade da família são testemunho diante do mundo; e que, no fim de tudo, a própria história da redenção caminha, do início ao fim, entrelaçada com a história das famílias que Deus chamou para si.
Essa verdade central — a família é uma instituição criada por Deus para refletir sua glória, transmitir a fé às gerações e servir como ambiente de amor, discipulado, trabalho e adoração — não é apenas uma bela ideia teológica. Ela nos convoca a uma resposta prática. Se você é casado, essa lição convida você a olhar novamente para o seu cônjuge não como alguém que deveria atender às suas expectativas, mas como alguém a quem você foi chamado a amar com o mesmo amor sacrificial de Cristo. Se você tem filhos, ela convida você a perguntar que herança espiritual está sendo passada, dia após dia, nas conversas simples da rotina. Se você trabalha e sustenta uma casa, ela convida você a lembrar que seu trabalho não é apenas sobrevivência, mas vocação e testemunho. E, se você ainda não constituiu família, ou se sua família não corresponde ao ideal bíblico por causa de perdas, ausências ou feridas do passado, essa lição também é para você: porque a mesma graça que restaura casamentos restaura também corações solitários, e a Igreja — a família maior de Deus — existe justamente para acolher quem, por qualquer razão, não tem uma família terrena ao seu lado.
Que o Senhor, que criou a família no princípio e a redimiu por meio de Cristo, continue moldando os nossos lares — sejam eles quais forem — para que, como Josué, cada um de nós possa dizer com convicção: “eu, porém, e a minha casa serviremos ao Senhor”.
PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO
- De que forma a compreensão de que o casamento é uma aliança, e não apenas um contrato, muda a maneira como enfrentamos as dificuldades dentro de um relacionamento conjugal?
- Pensando em Deuteronômio 6.4-9, quais são as oportunidades cotidianas — refeições, trajetos, conversas antes de dormir — que sua família tem usado (ou poderia usar melhor) para transmitir a fé às próximas gerações?
- Como a imagem da Igreja como “noiva de Cristo” (Apocalipse 21) deveria influenciar a forma como vivemos, hoje, nossos relacionamentos familiares?
DÚVIDAS FREQUENTES
1. Se a Bíblia registra casos de poligamia entre figuras como Jacó, Davi e Salomão, isso significa que ela aprova essa prática? Não. Embora o Antigo Testamento narre esses episódios com honestidade, ele nunca os apresenta como o ideal divino. O próprio texto de Gênesis 2 estabelece a monogamia como padrão original — “e serão ambos uma carne” — e Jesus, em Mateus 19, retorna diretamente a esse texto para reafirmar que esse é o desenho de Deus “desde o princípio”. Os casos de poligamia, ao contrário, são quase sempre seguidos de conflitos e sofrimentos dentro dessas famílias, o que reforça, pela via da narrativa, que esse não era o caminho abençoado por Deus.
2. A submissão da esposa ao marido, ensinada em Efésios 5, significa que a mulher tem menos valor do que o homem? De forma alguma. A mesma passagem que fala de submissão começa afirmando que os cônjuges devem “sujeitar-se uns aos outros no temor de Cristo” (Efésios 5.21), e exige do marido um padrão de amor sacrificial ainda mais exigente — amar “como Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela”. Submissão, na Escritura, não é sinônimo de inferioridade, assim como a submissão do Filho ao Pai, dentro da Trindade, não diminui em nada a sua plena divindade. Trata-se de uma ordem dentro da aliança, vivida em mútuo amor e respeito.
3. Minha família não corresponde ao “modelo ideal” apresentado nesta lição — sou pai ou mãe solteira, ou minha família foi marcada por divórcio ou ausência. Essa lição ainda vale para mim? Sim, e talvez ainda mais. A Bíblia nunca esconde que o pecado feriu profundamente a família humana — desde o primeiro casal, passando por divórcios, perdas e rupturas registradas em toda a Escritura. Mas o mesmo Deus que instituiu a família também promete restaurá-la pela graça, e coloca a Igreja como a família maior onde viúvas, órfãos e solitários encontram acolhimento (Salmo 68.6; Tiago 1.27). Nenhuma configuração familiar ferida está fora do alcance da graça de Deus.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!



