Texto áureo: Efésios 2.4-5 — “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos).”
Texto bíblico principal: Efésios 2.1-9.
Textos bíblicos complementares: Romanos 3.10-12; Jeremias 17.9; Gênesis 6.5; 1 Coríntios 2.14 e João 6.44.
Explicação do Texto — Efésios 2.1-9.
A carta aos Efésios foi escrita pelo apóstolo Paulo, provavelmente durante seu encarceramento em Roma, dirigida a uma igreja formada majoritariamente por gentios convertidos do paganismo, muitos deles, como registra o livro de Atos, anteriormente envolvidos com práticas de magia e culto a divindades pagãs. Compreender essa origem ajuda a entender por que Paulo escolhe, logo no início do capítulo 2, descrever com tanta franqueza a condição espiritual que aqueles leitores haviam deixado para trás.
A passagem nasce de um movimento estrutural deliberado: tendo Paulo acabado de falar do poder que ressuscitou Cristo dentre os mortos (1.19-20), ele agora aplica esse mesmo poder à experiência concreta de seus leitores. A expressão “também vós”, que abre o capítulo 2, retoma diretamente o que já havia sido dito sobre Cristo como cabeça de todas as coisas.
Diante desse pano de fundo, Paulo traça duas realidades espirituais opostas. De um lado, a condição do homem sem Cristo: morto em transgressões e pecados, escravizado simultaneamente ao “curso deste mundo”, ao “príncipe da potestade do ar” e às “concupiscências da carne”, e, por natureza, “filho da ira” (vv. 1-3). Essa morte espiritual não impede o bem moral ou social, o incrédulo pode ser, “um bom cidadão, um bom pai, uma boa mãe” , mas o incapacita inteiramente para agradar a Deus. De outro lado está o povo de Deus, que, embora tenha vivido exatamente essa mesma condição, foi alcançado por uma intervenção que nasce inteiramente de Deus, jamais do próprio esforço humano.
Alguns termos merecem atenção especial nesse contexto. A palavra grega para “mortos” (nekrous) descreve, não uma morte física, mas a perda da comunhão viva com Deus. A expressão “filhos, por natureza, da ira” aponta para a incapacidade humana de romper por si mesma os laços do pecado. E o verbo grego usado para “sois salvos” está no tempo perfeito, indicando uma ação já concluída, mas cujos efeitos permanecem contínuos e permanentes na vida do crente.
Colocada dentro da grande história da redenção, esta passagem ocupa um lugar central: ela mostra, na experiência concreta de homens e mulheres reais, o mesmo poder que ressuscitou Cristo agindo para reverter a morte espiritual herdada desde a queda em Gênesis 2.17, antecipando, já aqui, o tema da nova criação que Paulo desenvolverá plenamente em 2 Coríntios 5.17.
A LIÇÃO EM UM PARÁGRAFO
A Depravação Total ensina que o pecado corrompeu toda a natureza humana: mente, vontade e coração, deixando o homem incapaz, por si mesmo, de buscar a Deus ou de se salvar. Entender isso destrói o orgulho espiritual, revela a real necessidade do evangelho e faz brilhar, por contraste, a grandeza da graça que nos resgata.
INTRODUÇÃO
Em agosto de 1971, um psicólogo da Universidade de Stanford, chamado Philip Zimbardo, conduziu um experimento que ficaria conhecido em todo o mundo como “Experimento da Prisão de Stanford”. Ele reuniu um grupo de vinte e quatro estudantes universitários, jovens comuns, sem histórico de violência, aprovados em testes psicológicos que os classificaram como pessoas emocionalmente estáveis e saudáveis. Zimbardo dividiu esses jovens em dois grupos por sorteio: metade seria “guarda”, metade seria “prisioneiro”, numa simulação de cadeia montada no porão do prédio de psicologia.
O experimento estava previsto para durar duas semanas, mas foi encerrado em apenas seis dias.
Em menos de uma semana, alguns dos “guardas”, rapazes que, poucos dias antes, eram estudantes tranquilos, sem nenhuma inclinação conhecida para a crueldade, começaram a humilhar, a privar de sono e a maltratar os colegas que faziam o papel de prisioneiros. Não houve treinamento para isso, nenhuma ordem explícita mandando agir com violência. Bastou colocar essas pessoas comuns numa posição de poder, sem vigilância externa, para que algo que já estava lá dentro delas viesse à superfície.
O caso do “Experimento da Prisão de Stanford” não é sobre pessoas más colocadas à prova. É sobre pessoas comuns como você e como eu, colocadas numa situação em que os freios habituais foram retirados. E o resultado incomodou o mundo inteiro, porque ele não aponta o dedo para alguns poucos “tipos perigosos” de gente. Ele aponta para dentro de qualquer coração humano.
É exatamente esse ponto que a Bíblia toca quando fala do pecado. O pecado não fala de um grupo especialmente mau, separado do restante da humanidade, mas de uma condição que atinge a todos, sem exceção, silenciosamente presente até mesmo enquanto a vida parece organizada, educada e sob controle. O que acabamos por reconhecer é que o pecado é uma realidade presente em toda a humanidade, afetando todas as áreas da experiencia humana. Dentro da teologia reformada chamaos isto de “Depravação Total”.
O QUE É, E O QUE NÃO É, A DEPRAVAÇÃO TOTAL
Quando alguém ouve pela primeira vez a expressão “depravação total”, é comum imaginar que ela está dizendo que toda pessoa é tão má quanto poderia ser, como se todo ser humano fosse, em potencial, um assassino ou um ditador. Isso não é o que a doutrina ensina e vale a pena esclarecer logo de início, porque um mal-entendido aqui compromete todo o desenvolvimento do raciocínio.
O pastor e teólogo R.C. Sproul, ao explicar esse ponto, usou o exemplo de um dos homens mais cruéis da história: mesmo alguém como Hitler, disse ele, dificilmente havia esgotado toda a maldade que um ser humano é capaz de cometer, ainda seria possível conceber alguém pior do que ele foi. A palavra “total”, portanto, não fala do grau de maldade em cada ato, mas da extensão do pecado dentro da pessoa inteira. Não existe uma parte de nós que tenha ficado de fora da queda. A mente foi afetada, a vontade foi afetada, as emoções foram afetadas, a consciência foi afetada. Não há um único lugar da alma humana que tenha permanecido neutro ou intacto aos efeitos do pecado.
Isso também não significa que o ser humano perdeu a imagem de Deus, ou que se tornou incapaz de qualquer ato de bondade comum. Pais continuam amando os filhos. Vizinhos continuam se ajudando. Pessoas fora da fé continuam sendo capazes de gestos de coragem, de generosidade, de justiça relativa. A tradição cristã sempre chamou isso de graça comum, a bondade de Deus que contém o pecado humano dentro de certos limites, impedindo que o mundo mergulhe imediatamente no caos total. É por isso que Sproul podia dizer, sem contradição, que existe uma graça que restringe todo o mundo, e que, se essa restrição fosse retirada, qualquer um de nós seria capaz de fazer parecer pouco até mesmo os piores exemplos da história.
Então, o que a depravação total realmente afirma? Ela afirma que o pecado atingiu toda a pessoa, a razão, a vontade, os afetos, a consciência, de tal forma que o ser humano, por seus próprios esforços, não consegue fazer, entender ou desejar aquilo que agrada espiritualmente a Deus. Repare bem nessas três palavras, porque elas vão guiar boa parte desta lição: o homem sem Cristo não pode fazer, não pode entender e não pode desejar as coisas de Deus, esta é em ressumo a condição da natureza humana.
1. O HOMEM SEM CRISTO ESTÁ MORTO EM SEUS DELITOS E PECADOS – Efésios 2.1-3.
Paulo começa com uma frase que, se lida com atenção, ofende qualquer leitor: “E vós estáveis mortos em vossos delitos e pecados.” Não doentes. Não fracos. Não feridos. Mas, mortos.
Essa palavra precisa ser levada a sério, porque é justamente aqui que a visão bíblica se diferencia de qualquer outra explicação sobre a condição humana. Um doente pode pedir socorro. Um homem que se afoga ainda consegue gritar por ajuda, ainda consegue se debater e tentar se salvar. O morto não é capaz de realizar nada disso. Ele não sente sede de socorro, porque não sente nada. Essa é a imagem que Paulo escolhe deliberadamente: antes de Cristo agir a condição do homem é de um defunto encapaz de qualquer ação, porque é espiritualmente morto, separado de Deus e incapaz de reconhecê-lo e caminhar em sua direção.
Vale a pena parar aqui e comparar essa imagem com o que vimos na introdução desta lição. O estudo de Stanford revelou o que já está escondido dentro de pessoas comuns; a Bíblia vai além, e revela algo ainda mais grave: a total incapacidade de, por conta própria, buscar o bem espiritual. É como comparar um homem que se afoga com um homem que já morreu e está sepultado nas profundezas do oceano. Para o primeiro, basta jogar uma boia. Para o segundo, é necessário nada menos do que uma ressurreição.
Paulo detalha, nos versículos 2 e 3, como essa morte se manifestava na vida prática dos seus leitores antes da conversão: eles viviam segundo o rumo deste mundo, seguindo o príncipe das potestades do ar (uma referência ao poder de Satanás sobre os que ainda não conhecem a Cristo), satisfazendo os desejos da carne e dos pensamentos, e eram, “por natureza”, filhos da ira, exatamente como qualquer outra pessoa. Com a expressão “por natureza”: Paulo está descrevendo uma condição que já vem de dentro do ser humano, desde o nascimento.
O salmista já havia expressado essa mesma verdade séculos antes, numa confissão pessoal e sincera: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmo 51.5). Davi reconhece que, desde o momento da concepção, já carregava consigo a inclinação para o pecado, herdada de nossos primeiros pais. É a mesma realidade descrita pelo profeta Jeremias, num dos versículos mais diretos de toda a Bíblia sobre a condição do coração humano: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9).
Paul Washer, ao expor essa mesma realidade, usou uma ilustração que vale a pena trazer para nossa reflexão. Ele descreveu o que aconteceria se fosse possível retirar do coração de uma pessoa todos os pensamentos que ela já teve, guardá-los como um vídeo, e depois exibi-los diante de todos:
“Você cairia de joelhos e imploraria para eu não fazer isso, porque você já pensou coisas tão perversas que você não poderia compartilhar nem com o seu melhor amigo. Se os seus melhores amigos soubessem o que você já pensou deles em algum momento da sua vida, eles não seriam amigos seus.”
A imagem é desconfortável de propósito. Ela desfaz a ilusão comum que todos nós carregamos: de que o problema do pecado está “lá fora”, nos outros, nas circunstâncias, na sociedade. Não. O monstro mora dentro de cada um de nós, o problema está dentro. É o próprio Jesus quem confirma isso, ao ensinar que não é o que entra no homem que o contamina, mas o que sai do seu coração: “Porque do interior do coração dos homens procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as prostituições, os furtos” (Mateus 15.19).
Diante disso, fica evidente por que a Bíblia descreve o estado do pecador sem Cristo com uma palavra tão forte quanto “morto”. E fica evidente, também, por que nenhuma solução meramente humana, mais educação, melhores leis, reformas sociais é capaz de resolver, sozinha, pois é um problema da nossa própria natureza.
2. A EXTENSÃO DA CORRUPÇÃO: TODA A PESSOA FOI AFETADA
É aqui que entram as três palavras que já introduzimos: o homem sem Cristo não pode fazer, não pode entender e não pode desejar as coisas de Deus.
O homem não pode fazer o bem espiritual por si mesmo. O homem sem Cristo é capaz de realizar coisas boas aos olhos da sociedade, é a graça comum que age em todos. Mas, para que uma obra seja aceita por Deus como verdadeiramente boa, ela precisa nascer da fé, seguir a vontade de Deus e ter como objetivo a glória de Deus e é justamente isso que o coração não regenerado não consegue produzir. Paulo escreve aos romanos: “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Romanos 8.7-8).
O homem não pode entender as coisas do Espírito por si mesmo. Paulo escreve aos coríntios: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2.14). Sem a ajuda do Espírito Santo, ela nunca vai realmente compreender, no sentido bíblico da palavra, o valor e a beleza dessas verdades, elas continuam soando, para ela, como algo sem sentido.
O homem não pode desejar vir a Cristo por si mesmo. Este é, talvez, o ponto mais difícil de aceitar, porque toca diretamente na questão da vontade. O próprio Jesus afirma: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (João 6.44). E, em outro momento, ele confronta seus ouvintes com a raiz real do problema: “E não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5.40). Repare que o problema descrito por Jesus atinge o problema central em questão aqui, a falta de vontade, uma vontade que, por sua própria natureza corrompida, nunca escolhe espontaneamente a Deus.
Romanos 3.10-12 resume essas três incapacidades numa única sequência devastadora, citando o Antigo Testamento: “Não há justo, nem sequer um; não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um só.” Esta incapacidade é universal, pois atinge todo ser humano e absoluta porque não pode ser vencida, nenhum ser humano manifesta qualquer desejo por Deus.
Vale a pena, aqui, esclarecer uma confusão comum: dizer que o homem não pode buscar a Deus não é o mesmo que dizer que ele é impedido, como se Deus estivesse segurando alguém que deseja verdadeiramente vir a Ele. A questão se refere a uma incapacidade interna. É como perguntar a alguém que odeia profundamente um determinado alimento se ele é “livre” para escolhê-lo: sim, ninguém o está fisicamente impedindo, mas o próprio coração da pessoa nunca vai, por conta própria, escolher aquilo que ela odeia. É exatamente essa a condição espiritual do pecador diante de Deus: ele tem liberdade de escolha, mas o seu coração está inclinado, de forma constante e natural, para longe de Deus.
3. RESPONSABILIDADE HUMANA E A VERDADEIRA NATUREZA DA LIBERDADE
Quando a Bíblia nega que o homem tenha “livre-arbítrio”, ela está negando algo mais específico: a ideia de que o ser humano possa escolher de modo completamente neutro, sem nenhuma influência da sua própria natureza como se fosse capaz, a qualquer momento, de escolher tanto o bem quanto o mal com igual disposição de coração. Essa neutralidade nunca existiu, nem antes nem depois da queda de Adão. Nós somos portadores de algo que a teologia chama de livre agência: a pessoa faz escolhas reais, é responsável por elas, não age contra a própria vontade nem é forçada por nenhuma força externa, mas essas escolhas sempre nascem de dentro da sua própria natureza.
Jesus resume esse princípio com uma imagem tirada da natureza: “Uma árvore boa não pode dar maus frutos, nem uma árvore má dar frutos bons” (Mateus 7.18). A árvore escolhe livremente que fruto produzir, no sentido de que ninguém a obriga; mas ela só é capaz de produzir aquilo que sua própria natureza permite. Da mesma forma, o pecador rejeita a Cristo livremente, sem coação alguma, mas rejeita porque, no seu estado natural, o seu coração não deseja outra coisa. Como ensina o próprio Jesus: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36), o que implica, por contraste, que, fora dessa libertação, o homem continua sendo escravo do pecado (João 8.34).
Não há, portanto, contradição nenhuma entre afirmar a depravação total e afirmar a responsabilidade humana. Ninguém é condenado por um pecado que não escolheu praticar; cada pessoa é julgada por decisões reais, tomadas de acordo com aquilo que o seu próprio coração desejava. O problema ao qual todos nós estamos presos é essta vontade que sempre se inclina para o lado errado, como um carro com a direção desalinhada, que puxa constantemente para um lado, mesmo que o motorista continue segurando o volante com as próprias mãos, tentando inutilmente manter o veiculo na estrada.
É exatamente por essa razão que a salvação não pode começar com um simples convite dirigido a uma vontade já inclinada contra Deus. Ela precisa começar de outro jeito, não com uma sugestão feita a um moribundo, mas com uma ressurreição concedida a um cadáver.
4. “MAS DEUS”: A GRAÇA QUE RESSUSCITA OS MORTOS – Efésios 2.4-9.
Depois de descrever, com toda a franqueza, o estado de morte espiritual em que todos nós estávamos, Paulo escreve duas das palavras importantes: “Mas Deus”.
“Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo” (Efésios 2.4-5). Repare bem no verbo: “vivificou”, deu vida a quem estava morto, a ressurreição completa, concedida a alguém que não tinha absolutamente nada para contribuir.
É exatamente essa a diferença que separa o evangelho bíblico de qualquer outra religião ou filosofia de autoajuda espiritual. Nenhuma delas ousa dizer que o homem estava morto; a maioria prefere dizer que ele está doente, ou perdido, ou apenas desorientado, algo que ele mesmo, com o esforço certo, poderia consertar. A Bíblia é mais honesta, e por isso mesmo mais gloriosa: ela diz que estávamos mortos, e que só um ato soberano de Deus poderia nos trazer de volta à vida.
Paulo faz questão de deixar isso absolutamente claro nos versículos seguintes, para que ninguém, tente reivindicar para si o crédito da própria salvação: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8-9). Cada palavra dessa frase foi escolhida com cuidado. “Pela graça”, não por mérito. “Por meio da fé”, não por esforço próprio, mas fé que é, ela mesma, um instrumento pelo qual recebemos o que já foi dado. “Não vem de vós”, nem a graça, nem a fé têm sua origem em nós. “É dom de Deus”, algo dado gratuitamente, nunca conquistado. “Não vem das obras, para que ninguém se glorie”, Paulo antecipa, e fecha por completo, qualquer porta que o orgulho humano poderia tentar abrir.
É por isso que a doutrina da depravação total, longe de ser uma mensagem apenas desanimadora, é o alicerce necessário para que a graça seja compreendida em toda a sua grandeza. Só quem entende que estava morto consegue apreciar de verdade o valor de ter sido ressuscitado. Você só consegue enxergar de verdade a beleza da graça de Deus quando a contrasta com o lado sombrio da nossa própria condição diante d’Ele, assim como só é possível ver as estrelas quando o céu, ao redor delas, está completamente escuro.
POR QUE ESSA DOUTRINA IMPORTA PARA A VIDA CRISTÃ
Vale destacar as consequências práticas da Depravação Total para a vida do crente.
Humildade genuína. Se ninguém contribuiu, nem um pouco, para a própria salvação, então ninguém tem motivo algum para se orgulhar diante de outra pessoa. O crente que entende de onde foi resgatado não olha para os que ainda estão fora de Cristo com desprezo, mas com a mesma compaixão que gostaria de ter recebido antes de ser alcançado.
Uma evangelização mais dependente de Deus, e não menos urgente. Se o pecador está morto, nenhum argumento humano, por mais brilhante que seja, é capaz de ressuscitá-lo sozinho. Isso não desanima a pregação do evangelho; pelo contrário, a liberta da pressão de “convencer” alguém por conta própria, e a transforma naquilo que ela sempre foi: o instrumento que o Espírito Santo usa para dar vida a quem está morto.
Honestidade sobre os problemas do mundo. A doutrina da depravação total explica, de forma mais realista do que qualquer teoria puramente social ou educacional, por que o mundo continua produzindo tanta injustiça, tanta crueldade e tanto sofrimento, mesmo depois de tantos avanços em educação e tecnologia. O problema mais profundo da humanidade sempre foi um coração que precisa ser transformado por dentro.
Gratidão que não se esgota. Quando compreendemos, com sinceridade, o quanto estávamos perdidos, a nossa salvação é reconhecida como aquilo que sempre foi: uma maravilha absolutamente imerecida.
CONCLUSÃO
Voltemos, por um instante, à cena de Stanford, o que aquele experimento revelou, de forma acidental e perturbadora, a Bíblia já havia revelado, séculos antes, com absoluta clareza: o problema mais grave do ser humano não está nas circunstâncias ao seu redor, está dentro do seu próprio coração. Nenhum sistema social, por mais bem planejado que seja, consegue mudar isso. Somente uma intervenção que venha de fora da própria natureza humana pode alcançar essa raiz e é exatamente isso que Deus fez em Cristo.
Efésios 2.1-9 traça, em apenas nove versículos, o percurso mais dramático de toda a existência humana: da morte para a vida, da ira para a graça, da escravidão do pecado para a liberdade de filhos de Deus. E o texto termina exatamente onde deveria terminar, não em orgulho humano, mas em adoração: “para que ninguém se glorie.” A salvação, do início ao fim, pertence a Deus. Foi Ele quem, estando nós ainda mortos, decidiu nos dar vida junto com Cristo. E é justamente por isso que a única resposta verdadeiramente adequada diante dessa verdade não é o desespero, nem o orgulho, mas a gratidão profunda de quem sabe exatamente de onde foi tirado e para onde, pela pura graça de Deus, foi levado.
PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO
- O que a expressão “depravação total” realmente significa, e o que ela não significa?
- Segundo Romanos 8.7-8 e 1 Coríntios 2.14, de que forma o pecado afeta a mente e a vontade do ser humano?
- Qual é a diferença entre “livre-arbítrio”, no sentido popular, e “livre agência”, no sentido bíblico?
- O que muda, na forma como olhamos para a nossa própria salvação, quando entendemos a expressão “mas Deus” em Efésios 2.4?
- Como a doutrina da depravação total deveria influenciar a forma como tratamos pessoas que ainda não conhecem a Cristo?
- Por que essa doutrina, mesmo sendo desconfortável, é necessária para que a graça seja plenamente apreciada?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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- CALVINO, João. As Institutas, vol. 1. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.
- CATECISMO DE HEIDELBERG (1563), questão 7.
- CÂNONES DE DORT (1619), Capítulo 1.
- CONFISSÃO BELGA (1561), artigo 14.
- CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER (1647), Capítulo 6.
- GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.
- GONZÁLEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo, vol. 1. São Paulo: Edições Vida Nova, 2002.
- KELLY, J.N.D. Patrística. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009.
- LUTERO, Martinho. Nascido Escravo (Do Arbítrio Escravo). São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2007.
- RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paulo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
- SEGUNDA CONFISSÃO HELVÉTICA (1566), artigo 8.
- SPROUL, R.C. Aula/palestra transcrita sobre Teologia Reformada e os Cinco Pontos do Calvinismo (fonte: transcrição em áudio, sem dados editoriais completos disponíveis).
- WASHER, Paul David. A Santidade de Deus e a Depravação do Homem. Sermão pregado em 1º de março de 2014, na 16ª Consciência Cristã — VINACC, Campina Grande, PB. Transcrição publicada por O Estandarte de Cristo, 1ª edição, março de 2015. (HeartCry Missionary Society).
- ZIMBARDO, Philip. O efeito Lúcifer: como pessoas boas se tornam más (M. Lino, Trad.). Record, 2007.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
UL TIMAS POSTAGENS

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!




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