O ESCÂNDALO DO EVANGELHO

Romanos 1.16. “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego.”

Por que Paulo precisou declarar que não se envergonhava do evangelho? A afirmação soa defensiva, quase como se antecipasse acusações. A resposta é perturbadora: o evangelho que Paulo pregava era universalmente desprezado. Para judeus, anunciar um Messias crucificado era blasfêmia capital. Para gregos, proclamar ressurreição corporal era estupidez filosófica. O apóstolo sabia que, ao abrir a boca, seria odiado por todas as visões de mundo dominantes de sua época.

“O evangelho não é uma mensagem que complementa nossa sabedoria; é uma mensagem que a destrói.” (Michael Horton, Cristianismo sem Cristo, Editora Cultura Cristã, 2010, 256 páginas). Esta destruição não é acidental, é intencional. O evangelho foi projetado para ofender antes de curar, para matar antes de conceder vida.

Se o evangelho que o apóstolo pregava era escandaloso no primeiro século, o que mudou para torná-lo agradável nos dias de hoje?

Carta ao Coração do Império

A carta aos Romanos foi escrita para cristãos vivendo no centro do poder mundial. Roma não era apenas capital política; era laboratório ideológico onde todas as filosofias convergiam: estoicismo, epicurismo, culto imperial, sincretismo religioso. Quando Paulo declarou não se envergonhar do evangelho, estava fazendo declaração de guerra intelectual contra todo establishment (ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui uma sociedade ou um Estado) cultural de sua época.

O historiador Justo González registra: “A pregação cristã primitiva não oferecia uma opção religiosa adicional, mas reivindicava lealdade absoluta que colocava em questão toda a estrutura da sociedade romana.” (Justo L. González, Uma História do Pensamento Cristão, vol. 1, Editora Cultura Cristã, 2004, 416 páginas). Os primeiros cristãos foram chamados de “ateus” porque negavam a existência dos deuses romanos. Eram vistos como subversivos porque se recusavam a dizer “César é Senhor.”

Se a igreja primitiva foi marcada como intolerante por sua exclusividade, por que a igreja moderna busca aprovação das mesmas cosmovisões (conjunto de crenças, valores e concepções intuitivas que formam a lente particular pela qual um indivíduo ou grupo enxerga e interpreta o mundo) que crucificaram Cristo?

CONTRA O RELATIVISMO: A ARROGÂNCIA DA VERDADE ABSOLUTA

Vivemos sob tirania do relativismo, sistema que afirma a inexistência de absolutos. Esta contradição lógica revela não problema intelectual, mas de vontade. Paulo descreve em Romanos 1.18 a dinâmica: homens que “suprimem a verdade pela injustiça.” O verbo grego katechō significa segurar à força, reprimir violentamente. A questão não é capacidade intelectual, mas rebelião moral.

Agostinho confessou: “Não procurava humildemente a verdade, mas arrogantemente a disputava.” (Agostinho de Hipona, Confissões, Editora Vozes, 2011, 416 páginas). O homem caído não ignora Deus por falta de evidência; ignora-O apesar da evidência. Como avestruz que enterra a cabeça, o relativista moderno nega absolutos morais não porque sejam intelectualmente insustentáveis, mas porque são moralmente inconvenientes.

O evangelho escandaliza porque recusa negociar com esta fantasia. Não oferece “uma” verdade entre muitas, mas “a” verdade que julga todas as outras. Quando Jesus declara “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14.6), não está sendo tolerante, está sendo totalmente intolerante a qualquer alternativa. Esta exclusividade não é defeito do evangelho; é sua essência.

CONTRA O PLURALISMO: A INTOLERÂNCIA DA TOLERÂNCIA

Os primeiros cristãos foram perseguidos como ateus no mundo mais religioso da história. Roma estava saturada de templos, altares, ídolos. A atmosfera era de sincretismo comercial, deuses eram trocados como mercadorias. Funcionava perfeitamente até cristãos declararem que “deuses feitos por mãos humanas não são deuses” (Atos 19.26).

R.C. Sproul identifica o paradoxo: “O pluralismo religioso moderno é absolutamente intolerante com qualquer religião que reivindique ser absolutamente verdadeira.” (R.C. Sproul, A Santidade de Deus, Editora Cultura Cristã, 1997, 280 páginas). Exige-se que todas as cosmovisões sejam igualmente válidas, exceto aquela que afirma não serem todas igualmente válidas.

Elias confrontou esta paralisia mental no Carmelo: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o” (1 Reis 18.21). Cristo não é “um” caminho possível; é “o” caminho único, ou não é caminho algum. Se cristianismo concedesse apenas um artigo, trocasse “o” por “um”, o escândalo evaporaria. Mas também evaporaria a salvação.

CONTRA O HUMANISMO: A HUMILHAÇÃO DA AUTONOMIA

A cultura contemporânea expurgou Deus e entronizou o homem. Derrubou altares ao Deus vivo e ergueu monumentos ao ego humano com fervor religioso. O homem tornou-se medida, centro e fim de todas as coisas. Auto-estima é virtude suprema, auto-realização é salvação secular.

João Calvino diagnostica: “O homem nunca alcança conhecimento claro e sólido de si mesmo, a menos que primeiro contemple a face de Deus.” (João Calvino, Institutas da Religião Cristã, Livro I, Cap. I, Seção 1). Separado de Deus, o homem não descobre sua dignidade, mas alimenta sua ilusão. A autoestima moderna é narcisismo teológico, adoração da criatura em lugar do Criador.

O evangelho destrói esta fantasia através de diagnóstico brutal: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Não oferece técnicas de aprimoramento moral, mas decreto de execução seguido de ressurreição. Charles Hodge explica: “A primeira obra do Espírito é convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo.” (Charles Hodge, Teologia Sistemática, Editora Hagnos, 2001, 1.712 páginas). Antes de consolar, o evangelho confronta. Antes de edificar, derruba.

O PODER PARADOXAL: LOUCURA QUE SALVA

Paulo reconhece em 1 Coríntios 1.18 que “a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus.” O evangelho não se torna poder apesar do escândalo, mas através dele. Deus deliberadamente escolheu método ofensivo para destruir sabedoria humana e confundir pretensões intelectuais.

B.B. Warfield observa: “O evangelho não vem ao mundo como suplicante pedindo aceitação, mas como rei exigindo submissão.” (B.B. Warfield, The Power of God unto Salvation, The Works of Benjamin B. Warfield, vol. 7, Baker Books, 1991, 568 páginas). Não negociamos termos; rendemo-nos incondicionalmente ou permanecemos em rebelião. Como mensagem tão ofensiva pode ser “poder de Deus para salvação”?

Por que o Evangelho Verdadeiro Ainda Ofende?

Em 1521, Martinho Lutero compareceu à Dieta de Worms para retratar seus escritos. Diante de toda autoridade eclesiástica e imperial, declarou: “Aqui estou; não posso fazer outra coisa. Deus me ajude.” Recusou suavizar o evangelho para agradar príncipes ou papas. Cinco séculos depois, igrejas modernas mercantilizam o evangelho com estratégias de marketing, removem a pedra de tropeço, civilizam exigências radicais. Mas evangelho domesticado não é evangelho, é fraude. Paul Washer adverte que igrejas cheias de convertidos a um evangelho sem escândalo estão cheias de inconversos. O verdadeiro evangelho não precisa de nossa defesa; precisa de nossa proclamação inalterada. Não nos envergonhamos dele porque sabemos: somente mensagem ofensiva ao orgulho humano possui poder para destruir esse orgulho e salvar pecadores. Você prega evangelho que o mundo aplaude ou evangelho que crucificou Cristo?

E agora, como viveremos?

Examine sua pregação e testemunho: você proclama evangelho que poderia ser igualmente aceito por budistas, muçulmanos ou humanistas seculares? Evangelho verdadeiro é mutuamente exclusivo a todas as outras cosmovisões. Compartilhe o evangelho esta semana sem omitir pecado, ira divina, inferno, arrependimento e senhorio de Cristo. Observe reações. Se ninguém se ofender, você não pregou o evangelho apostólico, pregou terapia motivacional com verniz religioso. Paulo declarou em Gálatas 1.10: “Procuro agradar a homens? Se agradasse a homens, não seria servo de Cristo.” Jonathan Edwards pregou que “a primeira obra de Deus na conversão é destruir completamente o fundamento sobre o qual o pecador construiu suas esperanças.” (Jonathan Edwards, Religious Affections, Banner of Truth, 1986, 400 páginas). Você está confortável com essa destruição?

Oremos

Deus da verdade absoluta, confesso que tenho vergonha do Teu evangelho. Temo ofender homens mais do que temo desonrar-Te. Perdoa-me por suavizar arestas, remover pedras de tropeço, domesticar exigências radicais. Concede-me coragem para proclamar Cristo crucificado, escândalo para judeus, loucura para gentios, mas poder de Deus para salvação. Que eu não busque honra terrena nem aprovação cultural, mas apenas Tua glória. Liberta-me do medo do homem. Ensina-me que evangelho que não ofende o orgulho humano não pode salvar pecadores. Que minha boca declare sem vergonha: Cristo é “o” caminho, não “um” caminho. Todas as outras religiões são falsas, toda autonomia é rebelião, toda justiça própria é trapo imundo. Faze-me arauto fiel, não diplomata covarde. Em nome de Jesus, o escândalo vivo, amém.

Perguntas para Reflexão

1. Quando foi a última vez que meu evangelho ofendeu alguém? Se nunca ofende, será que é o evangelho?

2. Tenho modificado elementos do evangelho (pecado, inferno, exclusividade de Cristo) para torná-lo mais palatável?

3. Qual temo mais: desagradar homens ou desonrar a Cristo com evangelho adulterado?

4. Consigo articular por que o evangelho é necessariamente ofensivo ao relativismo, pluralismo e humanismo?

5. Estou disposto a sofrer consequências sociais e profissionais por proclamar evangelho inalterado?

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

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