A TIRANIA DO TEMPO

Salmo 34.1. “Bendirei o Senhor o tempo todo! Os meus lábios sempre o louvarão.”

Somente quando Deus ocupa o centro do nosso tempo e não apenas as margens da nossa agenda, o louvor deixa de ser um dever cumprido às pressas e se torna o ritmo natural de uma vida redimida no sangue de Cristo.

O deus do ativismo frenético

Há um tipo de escravidão que não usa correntes visíveis, ela se disfarça de responsabilidade, de compromisso, de eficiência. A tirania do tempo, é talvez a forma mais aceita e celebrada de servidão na cultura contemporânea Trocamos a liberdade pela agenda, entregamos nossa alma ao calendário e chamamos isso de produtividade. Nunca estamos plenamente presentes em lugar algum, porque há sempre um compromisso seguinte pulsando como um alarme silencioso dentro do peito.

C.S. Lewis em sua importante obra – Cristianismo Puro e Simples, nos advertiu que toda virtude sólida depende de hábitos intencionalmente cultivados. Quando o tempo nos governa, nossa reação instintiva diante da vida deixa de ser misericórdia e passa a ser cálculo, deixa de ser presença e passa a ser performance. É aí exatamente que o Salmo 34 nos encontra, não com uma lista de dicas de gestão do tempo, mas com uma declaração que soa quase como escândalo diante da nossa agenda lotada: “Bendirei o Senhor o tempo todo.”

O tempo todo

Davi escreveu o Salmo 34 numa das situações mais humilhantes de sua vida. Fugindo de Saul, ele se refugiou na cidade filisteia de Gate, um território inimigo, lá ele é reconhecido como o guerreiro que havia matado seus milhares e então fingiu-se de louco diante do rei Aquis para escapar com vida. O homem segundo o coração de Deus, o ungido de Israel, o futuro rei, babando na barba e arranhando as portas como um demente. E foi precisamente dali, do fundo da humilhação que nasceu este salmo de louvor.

O “tempo todo” do versículo 1 não é uma hipérbole poética nem um ideal inalcançável. No hebraico, a expressão carrega o peso de uma resolução existencial: em todo tempo, em toda circunstância, sob qualquer condição. Davi não esperou que a vida melhorasse para louvar, ele louvou a Deus dentro da crise, porque havia descoberto algo que a crise não podia tocar, que Deus é soberano sobre o tempo, sobre os reis e sobre as humilhações.

Devorados pelo tempo

Os gregos personificavam o tempo na figura de Cronos, o líder dos Titãs que, assombrado pela própria ruína, devorava os próprios filhos assim que nasciam. Essa divindade devoradora não fazia distinção entre deuses e escravos, filósofos e ignorantes; tudo era tragado e consumido pelo ritmo implacável dos dias, meses e anos. Olhando para a cultura contemporânea, não é difícil perceber que seguimos acorrentados pelo espirito de Cronos. Apenas usamos nomes diferentes, agora chamamos: agenda, produtividade, prazo, notificação. A vidas das pessoas continua sendo devorada com a mesma eficiência de sempre.

Vivemos correndo de um lado para o outro, o presente escapa entre nossos dedos enquanto verificamos a última de uma enxurrada de notificações. Nunca temos a sensação de estarmos plenamente presentes em lugar algum. Há sempre uma preocupação em espera, uma meta não cumprida, uma exigência que justifique nossa existência.

O maior prejuízo dessa escravidão, porém, não é a improdutividade mas o distanciamento de Deus. Quando o tempo nos governa, Deus vai sendo empurrado para o fim da fila de nossas prioridades: estamos ocupados demais, com compromissos demais, separando uma fatia para nós mesmos pois afinal precisamos curtir a vida, queremos entregar os fragmentos que sobram de uma agenda esgotada.

Estamos doentes sem nos darmos conta, de que quanto mais nos afastamos d’Ele, menos sentimos vontade de buscá-Lo, um círculo vicioso que se fecha silenciosamente, sem que percebamos o empobrecimento da alma.

Enxergando a vida como presente de Deus

Paulo escreveu que Cristo veio na “plenitude dos tempos” (Gl 4.4): o Deus eterno entrou no tempo para redimi-lo por dentro. Jesus interrompia suas jornadas para tocar leprosos, parava diante de multidões para chorar com irmãs enlutadas, deixava crianças chegarem perto quando os discípulos, preocupados com a agenda do Reino, tentavam afastá-las. Na cruz, o próprio tempo foi redimido e com ele, a possibilidade de que cada momento vivido sob a soberania de Deus seja um momento pleno de significado eterno.

O crente vive o tempo favorável da graça, o “agora” que é sempre um presente de Deus, ele vê o presente como dom, o passado como prova da fidelidade divina e o futuro como território já conquistado pela ressurreição de Cristo.

Louvar o Senhor “o tempo todo” é, portanto, um ato de resistência espiritual, é afirmar, com os lábios e com a vida, que a agenda não é soberana sobre as nossas vidas mas Deus é. A santificação do tempo começa na oração que organiza o dia não pela eficiência, mas pela presença; não pelo que precisa ser entregue, mas por Quem precisa ser encontrado. Como disse Jonathan Edwards, a alma que encontra sua satisfação suprema em Deus descobre que cada momento da vida, por mais ordinário que pareça, pode ser transfigurado pela glória d’Aquele que habita a eternidade.

E agora, como viveremos? Antes de abrir o e-mail, abra a Palavra. Antes de organizar a agenda, ore. Permita que as “interrupções” sejam recebidas como providências, pois, como Lewis nos lembra, o que chamamos de interrupção é precisamente a nossa vida verdadeira, a vida que Deus nos dá dia a dia. A vida disciplinada é aquela ordenada pela presença de Deus, onde o louvor deixa de ser um item da lista e passa a ser o ar que a alma respira.

Oremos. “Bendirei o Senhor o tempo todo! Os meus lábios sempre o louvarão. A minha alma se gloriará no Senhor. Busquei o Senhor, e ele me respondeu; livrou-me de todos os meus temores” (Sl 34.1-2.4). Senhor, que o louvor seja o ritmo do nosso tempo e não apenas o resíduo das nossas horas. Ensina-nos a habitar o presente como dom, a recordar o passado como prova da tua fidelidade e a enfrentar o futuro sob a sombra da cruz gloriosa. Amém.

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

UL TIMAS POSTAGENS

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