DE PADRE A PASTOR – José Manuel da Conceição

Nesse momento em que a Igreja Presbiteriana do Brasil comemora 167 anos de história, é comum sermos remetidos ao leggado missionário norte-americano Ashbel Green Simonton, mas eu gostaria de trazer a você a trajetória de um outro personagem de grande importância para essaa denominação.
Há histórias que começam de um jeito e terminam de outro completamente diferente, sem que o personagem principal tenha planejado assim. A de José Manuel da Conceição é uma delas. Nasceu para ser padre, foi criado para ser padre, ordenou-se padre e, ainda assim, morreu como o primeiro pastor evangélico nascido em solo brasileiro, sozinho, à beira de uma estrada, na madrugada de um Natal. Entre esses dois pontos, há uma vida inteira de leitura, de dúvida, de coragem e de um amor pela Palavra de Deus que nenhuma transferência episcopal (ato pelo qual o Papa move um bispo de uma diocese ou arquidiocese para outra) conseguiu apagar.
Para compreender o alcance dessa trajetória, é preciso lembrar o Brasil em que ela se desenrolou. Nas primeiras décadas do século XIX, o país ainda vivia sob o regime do padroado, pelo qual a Igreja Católica Romana era a única reconhecida oficialmente, sustentada pelo Estado e protegida por ele. Foi somente a partir de 1810, com a chegada gradual de imigrantes protestantes — ingleses, alemães, suíços que o solo brasileiro começou, lentamente, a conhecer outra forma de viver a fé cristã. Não havia missionários entre esses primeiros imigrantes; havia apenas famílias que traziam consigo seus costumes, suas Bíblias e seu modo silencioso de guardar o domingo. Foi exatamente nesse ambiente, décadas mais tarde, que um menino de Sorocaba cresceria e, sem saber, começaria a trilhar o caminho que o levaria da sacristia romana ao púlpito presbiteriano.
Um menino criado à sombra de um padre

José Manuel da Conceição nasceu em São Paulo, em 11 de março de 1822, filho de Manoel da Costa Santos, um português que trabalhava como pedreiro, e de Cândida Flora de Oliveira Mascarenhas, brasileira, neta de açorianos. Aos dois anos de idade, mudou-se com a família para Sorocaba, e foi ali, na casa do tio-avô, o padre José Francisco de Mendonça, que o menino cresceu. A mãe morreu cedo; o pai viajava com frequência a trabalho. Sobrou ao pequeno José Manuel a figura do tio-avô sacerdote, homem instruído, enérgico, de convicções firmes, como referência mais próxima de autoridade, de afeto e de fé. Não é difícil perceber, olhando para trás, que o caminho do sacerdócio já estava, de certo modo, traçado antes mesmo que o menino pudesse escolhê-lo.
A infância religiosa de Conceição foi marcada por um catolicismo popular, mais ritual do que reflexivo, e por um catecismo de origem jansenista, que já carregava em si certas afinidades distantes com o pensamento protestante, ainda que ninguém, naquele momento, pudesse suspeitar aonde isso conduziria. O próprio Conceição, anos depois, recordaria com honestidade essa fase de sua vida: “Fui muito devoto até os 16 anos. Depois que a religião começou a influir no meu coração, comecei a sofrer de melancolia pelo retrospecto que fazia sobre a minha vida passada.” Há, nessa frase simples, um indício precioso de algo que acompanharia Conceição por toda a existência: a incapacidade de viver a fé de modo superficial. Onde outros se contentavam com o cumprimento externo dos ritos, ele sentia o peso da consciência.
A Bíblia que ninguém esperava que ele lesse
O verdadeiro ponto de inflexão, contudo, não veio de um debate teológico nem de uma crise pública, mas de um livro. Aos dezoito anos, Conceição começou a ler a Bíblia por conta própria, prática incomum entre os fiéis católicos daquele tempo, mas que o jovem seminarista abraçou com naturalidade, movido talvez pela mesma sede de compreender que o acompanharia como estudante de latim, retórica e teologia. O resultado foi imediato e desconcertante. Ainda nos primeiros capítulos do Gênesis, ele percebeu algo que não conseguiria mais desfazer:
“Apenas tinha lido os três primeiros capítulos do Gênesis quando notei que a prática e doutrina da Igreja Romana faziam oposição direta e irreconciliável com a Palavra de Deus.”
José Manuel da Conceição
Vale notar que esse desconforto inicial não nasceu de um encontro com missionários nem de uma leitura de controvérsia protestante. Nasceu do texto bíblico lido sem intermediação, comparado, na sua simplicidade, às práticas que Conceição via ao seu redor. Foi essa pequena semente, silenciosa, quase imperceptível para quem o observava de fora que, ao longo de duas décadas, cresceria até se tornar impossível de conter.
Enquanto isso, a vida seguia seu curso ordinário. Conceição estudou em São Paulo, destacou-se entre os colegas de teologia, tornou-se amigo de Joaquim de Monte Carmelo, que mais tarde escreveria sua biografia. Em 1844 foi ordenado diácono; em 1845, presbítero da Igreja Católica Romana, com apenas vinte e três anos. O jovem padre parecia ter diante de si uma carreira eclesiástica sólida. Ninguém, àquela altura, imaginava que a mesma Bíblia que ele lia com devoção seria também o instrumento de sua ruptura.
Ipanema, os alemães e o silêncio dos domingos
Um dos episódios mais reveladores da formação espiritual de Conceição aconteceu ainda antes de sua ordenação, na Fábrica de Ferro de Ipanema, próxima a Sorocaba, onde viviam famílias de imigrantes protestantes — ingleses e alemães, entre eles a família Godwin. Foi ali que o jovem seminarista teve seu primeiro contato real, não com doutrinas escritas em livros, mas com pessoas que viviam sua fé de um jeito que o impressionou profundamente. Ele mesmo descreveria essa experiência com uma ternura que atravessa os anos: “Senti-me tocado profundamente ao ver o silêncio que no domingo reinava por toda parte. Era uma família inglesa. Admitido na sociedade da mesma, vi que todos se empregavam na leitura da Bíblia e de outros livros espirituais.”
Foi também em Ipanema que Conceição travou amizade com o médico dinamarquês João Henrique Teodoro Langaard, com quem trocaria aulas — alemão por português — e por meio de quem teria acesso a uma biblioteca repleta de literatura protestante, história da Igreja e clássicos europeus. Não era ainda o momento da conversão. Mas a semente lançada nos capítulos iniciais do Gênesis encontrava, agora, um solo cada vez mais fértil.
Houve, nesse mesmo período, um episódio pequeno, quase anedótico, mas que Conceição jamais esqueceu. Seu professor de desenho, o pintor francês Carlos Léon Bailot, atravessou certa vez a igreja sem tirar o boné diante do altar. O jovem seminarista, ainda fervorosamente devoto, quase chegou a agredi-lo por aquilo que considerava um desrespeito imperdoável. A resposta do francês, contudo, permaneceria gravada em sua memória por décadas: “Menino, aprende em tua Bíblia a distinguir a alegoria da religião. O fim da Bíblia é ensinar-nos a amar a Deus sobre tudo e depois amarmo-nos uns aos outros como bons irmãos, filhos de um só Pai que está no céu.” Não era ainda um sermão protestante. Era, talvez, a primeira vez que alguém sugeriu a Conceição que o essencial do Evangelho poderia estar em outro lugar que não nas formas exteriores da religião.
O “padre protestante” que ninguém conseguia acomodar
Ordenado padre em 1845, Conceição foi enviado para Limeira e, dali, começou uma sequência de transferências que se estenderia por quase vinte anos: Piracicaba, Monte-Mor, Taubaté, Ubatuba, Santa Bárbara, Sorocaba, e finalmente Brotas, em 1860. A cada nova paróquia, o mesmo padrão se repetia. Conceição pregava com uma ênfase incomum na leitura das Escrituras, incentivava seus paroquianos a lerem a Bíblia por si mesmos, evitava o rigor formal dos ritos — e, invariavelmente, despertava o desconforto da hierarquia romana. Não tardou para que ganhasse, entre o clero e até da parte do próprio bispo, o apelido que o acompanharia pelo resto da vida: “padre protestante”.
Ele próprio reconheceria, com uma sinceridade que beira a confissão, o quanto essa tensão interior já não podia mais ser disfarçada: “A leitura da Bíblia e minhas relações com os protestantes fizeram logo de mim um mal candidato e mais tarde péssimo padre romano.” Vale observar que essa frase não é a de um homem orgulhoso de sua dissidência, mas a de alguém que via, com clareza dolorosa, a distância crescente entre aquilo que professava publicamente e aquilo em que já não conseguia mais crer.
As transferências constantes, que o bispado impunha na esperança de conter os efeitos de sua pregação, tiveram, ironicamente, o efeito oposto ao pretendido. Sem que ninguém percebesse naquele momento, o próprio episcopado estava traçando, cidade após cidade, o mapa por onde a futura Reforma evangélica brasileira haveria de caminhar. Foram justamente essas paróquias — Sorocaba, Taubaté, Ubatuba, Limeira, Brotas — que, poucos anos mais tarde, Conceição voltaria a visitar, agora como pregador protestante, encontrando ali um terreno já preparado por sua própria passagem anterior.
A angústia que nenhuma confissão resolvia
Por dentro, contudo, a situação era bem mais grave do que qualquer transferência episcopal poderia resolver. Conceição vivia dividido entre as obrigações do cargo que ocupava e as convicções que a leitura da Bíblia e da história da Reforma haviam despertado nele. Buscou na confissão auricular um caminho de paz, como lhe ensinara toda a sua formação — e não encontrou.
“Lembrava-me da confissão; mas a confissão, pondo Deus a par dos santos e dos padres, deixava-me sem saber quem era o que me perdoava (…) Não era, pois, com tais incertezas e dúvidas que minha alma podia ser curada, e a moléstia era grave.”
José Manuel da Conceição
Essa angústia, longe de ser um detalhe biográfico secundário, é o coração de toda a sua trajetória. Conceição não rompeu com Roma por conveniência, nem por influência estrangeira imposta de fora. Rompeu porque, depois de anos tentando conciliar sua consciência com sua prática sacerdotal, chegou à conclusão de que essa conciliação era simplesmente impossível. No primeiro semestre de 1863, já sem forças para continuar exercendo funções que sua alma não sustentava mais, expôs a situação ao bispo D. Sebastião Pinto do Rego, que lhe ofereceu uma saída intermediária: o cargo de vigário da vara, sem obrigações sacramentais. Conceição aceitou, comprou um pequeno sítio às margens do rio Corumbataí, perto de Rio Claro, e ali se recolheu — sem saber, ainda, que o encontro decisivo de sua vida estava prestes a acontecer.
Dois cavaleiros à beira do Corumbataí
Foi no final de 1863 que o missionário presbiteriano Alexander Latimer Blackford, ouvindo falar de um estranho padre com ideias protestantes que vivia isolado perto de Rio Claro, decidiu procurá-lo. Conceição recordaria esse encontro anos depois com uma linguagem quase poética, reveladora de quanto aquele momento significou para ele:
“Contemplava um dia em minha janela o gado que pastava (…) Aproximavam-se da minha humilde habitação dois cavaleiros (…) Rápida foi a nossa entrevista. Assim convém às mensagens do Senhor. Os corações se compreenderam, as mãos se deram mútua e fraternalmente.”
José Manuel da Conceição
Depois desse primeiro contato, seguiu-se uma correspondência assídua entre os dois, até que, em maio de 1864, Conceição viajou a São Paulo para se encontrar novamente com Blackford. Foi ali que conheceu Elizabeth, esposa do missionário, que — sem rodeios, como registram os relatos da época — o convidou diretamente a se tornar protestante. A proposta o surpreendeu, mas não o afastou. Ao contrário: nos dias seguintes, em longas conversas com Blackford e, depois, com Ashbel Green Simonton, primeiro missionário presbiteriano a chegar ao Brasil, Conceição encontrou finalmente palavras para aquilo que já vivia por dentro havia anos. Voltou para casa decidido: estudaria as doutrinas evangélicas e romperia, de uma vez, com o romanismo.
A carta ao bispo e o batismo em São Paulo
Em 28 de setembro de 1864, Conceição entregou ao bispo D. Sebastião Pinto do Rego sua renúncia definitiva ao sacerdócio romano. A carta que lhe dirigiu resume, com uma dignidade que nenhuma amargura consegue turvar, o espírito de toda a sua decisão: “Renunciar a uma religião que me inspirou os melhores atos de minha vida é passo tão sério que apenas uma convicção inamovível — a fé, me decidiu a tomá-lo (…) Separando-me dessa igreja eu poderei remover os obstáculos a uma vida mais conforme com Jesus Cristo.” Não há, nessas palavras, nenhum desejo de escândalo. Há apenas a serenidade de quem, depois de uma longa luta interior, finalmente encontrou paz em uma decisão que sabia custosa.
Poucas semanas depois, em 23 de outubro de 1864, Conceição fez sua pública profissão de fé e foi batizado pelo próprio Blackford, em São Paulo. A cerimônia, simples e sem grandes recursos, ficou registrada na memória de Conceição como um dos momentos mais solenes de sua vida: “Ao som do harmônio e de vozes humanas que cantavam hinos, eu fui conduzido a uma fonte de águas puras (…) Levaram-me e me cobriram de bênçãos. Este foi para mim um momento solene.” Tinha, então, quarenta e dois anos. Passara vinte deles como sacerdote católico. Passaria os próximos oito como pastor evangélico — e seriam, sem dúvida, os mais intensos de toda a sua existência.
O primeiro pastor nascido no Brasil
Pouco mais de um ano depois, em 16 de dezembro de 1865, os missionários Simonton, Blackford e Francis Schneider organizaram, em São Paulo, o Presbitério do Rio de Janeiro, composto por três igrejas: a do Rio de Janeiro, a de São Paulo e a de Brotas — esta última fruto direto do trabalho evangelístico que o próprio Conceição já vinha realizando entre antigos paroquianos e familiares. Nesse mesmo dia, José Manuel da Conceição foi examinado quanto à sua vocação ministerial. No domingo seguinte, 17 de dezembro, pregou o sermão de prova sobre Lucas 4.18-19 — texto que anuncia a boa nova aos pobres e a liberdade aos cativos, escolha que dificilmente poderia ser mais adequada à sua própria trajetória — e, à tarde, foi ordenado pastor. Tornava-se, assim, o primeiro ministro evangélico nascido em terras brasileiras. Até hoje, essa data é celebrada como o Dia do Pastor Presbiteriano.
De casa em casa, de estrada em estrada
O que se seguiu à ordenação foi um dos capítulos mais extraordinários da história do protestantismo brasileiro. Conceição não aceitou paróquia fixa. Preferiu tornar-se evangelista itinerante, percorrendo a pé, na maior parte das vezes, o interior de São Paulo, o sul de Minas Gerais e trechos do Vale do Paraíba — muitas vezes revisitando as mesmas cidades onde outrora fora pároco: Sorocaba, Taubaté, Ubatuba, Limeira, Campinas, Bragança, Atibaia. Pregava em casas simples, ajoelhava-se sobre um lenço colorido estendido no chão de terra batida, lia a Bíblia em voz alta para famílias que muitas vezes jamais tinham ouvido as Escrituras em português corrente, e seguia adiante.
Em apenas quatro meses, entre março e junho de 1866, percorreu uma distância equivalente à que separa Inverness de Londres — pregando, ensinando e, graças aos conhecimentos de medicina que adquirira com o Dr. Langaard, também curando. Não era incomum que, ao pernoitar em alguma casa humilde, retribuísse a hospitalidade cuidando de algum doente da família, ou simplesmente varrendo o chão e lavando roupa. Essa disposição de servir, unida à sua origem brasileira — o que o tornava, aos olhos do povo simples, muito mais acessível do que os missionários estrangeiros —, explicaria em boa parte por que sua pregação encontrava tanta ressonância. Um jovem estudante que viria a se tornar pastor, Antônio Pedro, escreveria à época: “O nome do padre José Manoel está espalhado pelo universo; não há lugar onde se passe que não falem em seu nome.”
Esse trabalho incansável, contudo, tinha um custo. A saúde de Conceição, já frágil desde os tempos de padre, começou a se deteriorar sob o peso das longas caminhadas, das noites ao relento e das privações constantes. E, à medida que sua pregação avançava, também cresciam as perseguições.
A excomunhão e a resposta que não recuou
Em 23 de abril de 1867, o jornal Correio Paulistano publicou a sentença de excomunhão decretada contra Conceição pela hierarquia católica. A reação da Igreja Romana, no entanto, longe de silenciá-lo, deu-lhe a ocasião para redigir um dos textos mais lúcidos de toda a sua produção: sua Resposta à sentença, publicada logo em seguida, na qual expôs com clareza os fundamentos bíblicos de sua nova fé. Nela, resumiu em poucas linhas aquilo que passara duas décadas para compreender:
“Não há reforma possível que não comece por reafirmar: que Cristo crucificado uma só vez no Calvário é a única e suficiente expiação pelo pecado (…) que a essência de uma vida cristã está na reabilitação do homem interior, e não há força capaz de efetuar tal transformação, exceto o Espírito de Deus.”
José Manuel da Conceição
Às pressões da hierarquia romana para que reconsiderasse sua posição — cartas de dignitários, investidas de antigos amigos, processos eclesiásticos —, Conceição respondeu sempre da mesma forma: com um “não possumus” que já não era o do papa, mas o do Evangelho que ele havia encontrado nas Escrituras. As perseguições, aliás, ultrapassavam muito o campo das palavras. Há relatos de fazendeiros que o expulsaram a chicotadas, de multidões que o apedrejaram em Campanha, deixando-o praticamente por morto à beira da estrada. Conceição seguia adiante mesmo assim, como se cada nova hostilidade apenas confirmasse a seriedade da missão que abraçara.
Um intervalo americano e a solidão dos últimos anos
Preocupados com sua saúde cada vez mais debilitada, os missionários o convenceram, em 1867, a viajar aos Estados Unidos. Ali passaria quase um ano, pregando por oito meses nas igrejas de fala portuguesa de Springfield e Jacksonville, em Illinois, e dedicando parte de seu tempo à revisão de uma tradução do Novo Testamento para o português. Regressou ao Brasil em 1868 e retomou de imediato as viagens evangelísticas — mas algo, sutilmente, havia mudado. O trabalho da jovem igreja presbiteriana começava a se voltar para a consolidação de centros já estabelecidos, e não mais para o desbravamento febril que caracterizara os primeiros anos. O extenso relatório que Conceição apresentou ao Presbitério em 1869 foi recebido, segundo relatos da época, “com certo desinteresse”.
A partir daquele momento, Conceição voltou a ser, como fora antes de conhecer Blackford, um homem essencialmente solitário. Não teve mais companheiros de estrada; não voltou a comparecer ao Presbitério nem a apresentar relatórios. Continuou pregando, sozinho, por Minas Gerais, pelo litoral paulista, pelo Vale do Paraíba — mas agora carregando também, segundo registros de quem o conheceu, períodos de profunda melancolia, aquilo que um de seus biógrafos chamaria mais tarde de seu “espinho na carne”. Seu método de vida permaneceu, até o fim, de uma simplicidade quase franciscana: alimentava-se do essencial, vestia-se com o que lhe davam, dormia onde o acolhiam, e usava as horas de descanso para traduzir artigos, escrever sermões e anotar, com letra cuidadosa, tudo o que observava nas terras por onde passava.
Uma noite de Natal na estrada da Pavuna
O desfecho dessa longa peregrinação chegou de um jeito que nenhum de seus companheiros teria desejado para ele. Na semana do Natal de 1873, a caminho do Rio de Janeiro, onde Blackford lhe havia alugado uma casa para que finalmente descansasse, Conceição precisou pernoitar em uma estação de trem, perto de Piraí. Vestido pobremente, descalço, foi confundido por um policial com um vagabundo e preso por vadiagem. Passou três dias detido, até que sua identidade fosse confirmada. Ao ser libertado, já sem dinheiro para completar a viagem de trem, seguiu a pé — e, na tarde do dia 24 de dezembro, caiu desfalecido à beira da estrada da Pavuna.
Foi socorrido por um soldado e levado à enfermaria militar do Campinho, onde recebeu cuidados de um oficial que, tempos depois, se converteria ao evangelho por causa daquele encontro: o major Augusto Fausto de Souza. Trocaram-lhe as roupas, deram-lhe um caldo quente. Conceição, já debilitado, respondia apenas com monossílabos. Antes de fechar os olhos pela última vez, fez um único pedido, simples e definitivo: que o deixassem “só com Deus”. Na madrugada de 25 de dezembro de 1873, enquanto os sinos da vizinhança anunciavam a missa do galo, José Manuel da Conceição morreu.
Não me envergonho
Foi sepultado, a princípio, como indigente, no cemitério da matriz de Irajá — até que um jovem candidato ao ministério, enviado por Blackford em busca de notícias, chegou a tempo de garantir que o antigo padre, agora pastor, recebesse um enterro condigno. Três anos depois, seus restos foram transferidos para o Cemitério dos Protestantes de São Paulo, onde repousam ao lado do túmulo de Ashbel Simonton, o missionário que primeiro lhe estendera a mão. Sua lápide traz duas referências bíblicas que resumem, com mais precisão do que qualquer biografia, o sentido de toda a sua trajetória: “Não me envergonho do Evangelho de Cristo” e “Me alegro nos sofrimentos por seu corpo, que é a igreja.”
Conceição viveu vinte anos como sacerdote católico e apenas oito como pastor evangélico. E, no entanto, foram esses oito anos finais — de itinerância exaustiva, de perseguições, de solidão crescente e de uma saúde que jamais se recuperou — que definiram o lugar que ocupa até hoje na memória do protestantismo brasileiro. Ele mesmo, refletindo sobre o propósito que dava sentido a tudo aquilo, deixou registradas palavras que bem poderiam servir de síntese para sua vida inteira:
“O bem-estar de minha pátria, a moralização da sociedade, cuja felicidade só o evangelho pode assegurar, e a salvação eterna dos homens são os fins que tenho em vista. Estou nas mãos de Deus, e à disposição de todos a quem possa servir no evangelho de Jesus Cristo.”
José Manuel da Conceição
“O bem-estar de minha pátria, a moralização da sociedade, cuja felicidade só o evangelho pode assegurar, e a salvação eterna dos homens são os fins que tenho em vista. Estou nas mãos de Deus, e à disposição de todos a quem possa servir no evangelho de Jesus Cristo.”
Não foi um teólogo de gabinete, nem um administrador de estruturas eclesiásticas. Foi, antes de tudo, um homem que a leitura simples da Bíblia transformou por dentro — e que, uma vez transformado, não soube mais viver de outro jeito senão levando essa mesma leitura, casa após casa, estrada após estrada, a quem quisesse ouvi-la. Essa é, no fundo, a marca que José Manuel da Conceição deixou: a prova viva de que a Palavra de Deus, quando lida com sinceridade, tem o poder de reescrever inteiramente o destino de uma vida — e, por meio dela, o destino de um povo inteiro.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!






