ALEXANDER BLACKFORD – Cunhado, Sucessor e Líder

Por trás de todo pioneiro que a história registra com destaque existe quase sempre um círculo de pessoas cuja fidelidade discreta sustentou, viabilizou e, muitas vezes, salvou a obra que um único nome costuma carregar. A vida de Alexander Latimer Blackford é talvez o exemplo mais eloquente dessa verdade dentro da história do presbiterianismo brasileiro. Cunhado, colaborador e, por fim, sucessor de Ashbel Green Simonton, dedicou trinta anos de sua existência à implantação da fé reformada no Brasil sem jamais buscar para si o primeiro lugar. Chegou ao país em 1860, viu nascer a primeira igreja, viu morrer o amigo que a fundara ao seu lado e continuou firme no posto até 1890, quando finalmente entregou a Deus o trabalho que ajudara a erguer desde os alicerces. Sua trajetória, menos conhecida do que a de Simonton, é a história de uma fidelidade que não precisou de pressa para ser duradoura.
Origens em Ohio
Alexander L. Blackford nasceu em 6 de janeiro de 1829, em Martins Ferry, no condado de Jefferson, no leste do estado de Ohio, filho de pais cristãos profundamente devotos. Segundo a tradição preservada por sua própria família, descendia em linha direta do bispo inglês Hugh Latimer, reformador e mártir queimado em 1555, origem que explicaria o nome do meio que carregou por toda a vida. Passou a infância na zona rural de fronteira, frequentando durante os invernos as escolas da vizinhança, até que, já rapaz, matriculou-se no Washington College, no sudoeste da Pensilvânia, onde se formou em 1856.
Foi ali, ainda estudante, que sentiu o chamado para o sagrado ministério. Ingressou no Western Theological Seminary, em Allegheny, nos arredores de Pittsburgh, concluindo os estudos teológicos em 1859. Licenciou-se ao ministério em 21 de abril de 1858 e foi ordenado em 20 de abril de 1859 pelo Presbitério de Washington. Ainda durante o seminário, movido pelas necessidades do trabalho missionário no estrangeiro, apresentou-se à Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana, sediada em Nova York, e recebeu a designação para servir no campo brasileiro, dedicando o restante daquele ano ao estudo particular da língua portuguesa, de modo a chegar já preparado ao seu novo posto.
Um encontro que se tornaria família
Foi também naquele ano decisivo que Blackford conheceu o jovem Ashbel Green Simonton, que já se preparava para embarcar rumo ao Brasil. Do encontro entre os dois nasceu um convite: que Blackford visitasse a família Simonton em Harrisburg, na Pensilvânia e foi ali que conheceu Elizabeth Wiggins Simonton, irmã mais velha de Ashbel, chamada carinhosamente pelos seus de “Lille”. Elizabeth havia nascido em 4 de setembro de 1822, em West Hanover, no condado de Dauphin, também na Pensilvânia, descendente de uma família de imigrantes escoceses-irlandeses estabelecida nos Estados Unidos desde o século dezoito. Era a quarta filha de William Simonton e Martha Snodgrass Simonton. Educada no Seminário Feminino de Newark, em Delaware, vivera ali uma experiência de conversão marcante durante um avivamento espiritual, filiando-se, ainda jovem, à Igreja Presbiteriana de Derry.

Enquanto Simonton seguia sozinho rumo ao Rio de Janeiro, desembarcando em 12 de agosto de 1859, Blackford ainda precisaria de tempo para organizar sua própria partida e, agora, também a sua vida familiar. O casamento entre Alexander e Elizabeth realizou-se em 8 de março de 1860, às vésperas da viagem. Vinte dias depois, em 28 de março, o casal embarcou, e, após uma travessia marítima tumultuada de quase três meses, chegou ao Rio de Janeiro em 25 de julho de 1860, quase um ano depois da chegada solitária de Simonton, que os aguardava na então capital do Império, e poucos meses depois de finalmente conseguir dirigir, em português, o seu primeiro culto na nova terra. O laço familiar que uniria os dois missionários desde então não era apenas afetivo, tornou-se, ao longo dos anos, o eixo silencioso em torno do qual girou grande parte da história presbiteriana no Brasil.
Os primeiros anos ao lado do cunhado
Nos tempos iniciais, Blackford cooperou de perto com Simonton no Rio de Janeiro, chegando a trabalhar por algum tempo como secretário da Legação Americana na cidade e, em 1861, também como encarregado de negócios interino. Entre novembro de 1861 e janeiro de 1862, empreendeu uma extensa viagem de reconhecimento e distribuição de Bíblias pela província de Minas Gerais, visitando Juiz de Fora, Barbacena e São João Del Rei. Ao concluir esse périplo, escreveu ao periódico missionário The Foreign Missionary ponderações cautelosas sobre a conveniência de um trabalho permanente naquela região, defendendo que a distribuição da Palavra escrita deveria preceder qualquer esforço mais estruturado, convicção que no fundo, resumia bem o método paciente que marcaria toda a sua vida missionária, sempre mais atento à fundação que sustentará o que ainda está por vir do que ao efeito imediato.
Foi por causa dessa viagem que Blackford deixou de participar da organização da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, ocorrida pouco antes de seu retorno, em 12 de janeiro de 1862, o dia em que dois membros foram recebidos pela primeira vez numa comunidade presbiteriana brasileira. Coube-lhe, porém, uma responsabilidade ainda maior poucos meses depois: em março daquele ano, Simonton recebeu notícia de que sua mãe, Martha, estava gravemente enferma, e embarcou para os Estados Unidos, onde permaneceria por mais de um ano. Foi nessa viagem que conheceu a jovem Helen Murdoch, com quem se casou em março de 1863, retornando ao Brasil com a esposa em maio daquele mesmo ano.

Enquanto isso, coube a Blackford substituir o cunhado à frente da igreja carioca durante os quatrocentos e setenta dias de sua ausência. Em 15 de maio de 1863, foi eleito pastor efetivo daquela congregação, sendo Simonton e o recém-chegado reverendo Francis Joseph Christopher Schneider eleitos copastores, ato que permitiu entre outras coisas, o registro oficial dos ministros protestantes junto ao governo imperial, viabilizando finalmente a celebração legal de casamentos de acatólicos. Schneider, alemão de nascimento que emigrara para os Estados Unidos, havia chegado ao Rio de Janeiro em 7 de dezembro de 1861, tornando-se o primeiro obreiro presbiteriano a residir e trabalhar no interior da província de São Paulo, entre os imigrantes alemães de Rio Claro, além de mais tarde lecionar ao lado de Simonton no seminário que este viria a fundar.
O ano de 1864 trouxe a Simonton a maior alegria e a maior dor de sua vida quase simultaneamente: em 19 de junho nasceu sua filha, batizada também com o nome de Helen, mas nove dias depois do parto sua esposa faleceu de complicações. Foi então que Elizabeth e Alexander Blackford, o casal que Deus colocara ao lado do jovem viúvo, assumiram o cuidado definitivo da pequena Helen, levando-a consigo para São Paulo, um gesto de família que, mais do que qualquer sermão, revela o espírito que animava aquele grupo de missionários.
A mudança para São Paulo
Blackford percebera, desde cedo, a importância estratégica da capital paulista para a expansão do trabalho presbiteriano. Visitara a cidade já em setembro de 1861, sem encontrar residência disponível, mas insistiu na ideia junto à Junta de Nova York, que terminou por aceitar a ocupação simultânea dos dois pontos, Rio e São Paulo. Finalmente, em 9 de outubro de 1863, o casal Blackford fixou residência na capital paulista, enquanto Simonton permanecia no Rio, e assim, quase do zero, deu início a um trabalho que o veria crescer, sofrer e, poucos anos depois, sepultar quem lhe era mais querido.
Ali encontraram dois obreiros leigos vindos da Igreja Evangélica Fluminense, do reverendo Robert R. Kalley: o comerciante inglês William Dreaton Pitt e o colportor português Manuel Pereira da Cunha Bastos, da Sociedade Bíblica Americana. No dia 18 daquele mês, um domingo, Blackford iniciou seu trabalho celebrando um culto em inglês no salão de leitura dos ingleses, à Rua da Constituição, hoje Florêncio de Abreu. Por cerca de um ano, esses cultos em inglês se revezaram entre a casa de William Pitt, o escritório de Robert Sharp e Filhos, a residência de Daniel W. Fox, superintendente da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, e a própria casa do pastor, reunindo entre cinco e quarenta pessoas.
No mesmo mês, Blackford viajou a Rio Claro, onde o reverendo Schneider já estivera trabalhando por algum tempo. Foi nessa viagem que teve o primeiro contato com um padre de inclinações reformadas que morava nas proximidades: José Manuel da Conceição, encontro que um ano depois, culminaria no batismo do próprio ex-sacerdote, celebrado por Blackford em 23 de outubro de 1864, no Rio de Janeiro.
De volta a São Paulo, em 29 de novembro de 1863, teve início o primeiro culto em português, na residência de William Pitt, à Rua da Boa Vista, transferido depois novamente para a Rua da Constituição. Pitt, que se tornaria grande colaborador de Blackford e viria mais tarde a ser ordenado ao ministério, ajudou a sustentar aquele pequeno núcleo que, aos poucos, ganhava vida própria. A primeira celebração da Ceia do Senhor em português ocorreu em 29 de maio de 1864, e a segunda em 8 de janeiro de 1865. Em dezembro de 1864, Blackford transferiu sua residência para um sobrado no início da Rua Nova de São José, atual Líbero Badaró, junto ao Largo de São Bento, endereço que passou a abrigar os cultos dominicais, as reuniões de quarta-feira e a escola dominical daquela jovem congregação.

As primeiras igrejas do interior
Em fevereiro de 1865, Blackford fez sua primeira visita à vila de Brotas, no interior da província, onde encontrou o terreno já preparado pela atuação do ex-padre Conceição. Pouco depois, em 5 de março de 1865, organizou formalmente a Igreja Presbiteriana de São Paulo, recebendo por profissão de fé os seis primeiros membros: Antônio Bandeira Trajano, Miguel Gonçalves Torres, Manoel Fernandes Lopes Braga, José Maria Barbosa da Silva, sua esposa Ana Luíza Barbosa da Silva e sua enteada Olímpia Maria da Silva. Na mesma ocasião, celebrou-se pela terceira vez a Ceia do Senhor, com dezoito comungantes reunidos.
No final daquele ano, Blackford passou cerca de vinte dias em Brotas na companhia do próprio Conceição, pregando e ensinando na vila e nos sítios vizinhos. Em 13 de novembro de 1865, com Conceição presente, organizou ali a terceira comunidade presbiteriana do Brasil, na residência de Antônio Francisco de Gouvêa, reunindo também as famílias de seus irmãos, Joaquim José de Gouvêa e Severino José de Gouvêa, este último, pai do futuro reverendo Herculano de Gouvêa. Antônio Francisco de Gouvêa, homem que por mais de cinquenta anos prestaria serviços à comunidade com um preparado próprio, eficaz no tratamento de picadas de cobra, seria mais tarde sepultado, como tantos outros dessa história, no Cemitério dos Protestantes em São Paulo. Naquele dia de organização, Blackford recebeu por profissão de fé e batismo onze pessoas da família Gouvêa, ministrando ali a Ceia pela primeira vez.
O moderador do primeiro presbitério
Com três igrejas já organizadas: Rio de Janeiro, São Paulo e Brotas, tornou-se possível, em 16 de dezembro de 1865, um sábado à tarde, a criação do Presbitério do Rio de Janeiro, primeiro concílio da futura Igreja Presbiteriana do Brasil. O lugar escolhido não foi indiferente: tratava-se da própria residência de Blackford, aquele casarão colonial da Rua de São José, junto ao Largo de São Bento, endereço que já era ponto de encontro e de culto da jovem congregação paulista. Coube a Simonton propor a criação do concílio; coube a Blackford, porém, presidi-lo. Eleito moderador logo naquela primeira sessão, sendo depois reconduzido por mais três vezes consecutivas, conduziu a oração de instalação e declarou formalmente constituído o presbitério.
No dia seguinte, 17 de dezembro, foi ele quem fez as perguntas constitucionais a José Manoel da Conceição, que se tornaria naquela mesma tarde o primeiro pastor evangélico brasileiro, fruto direto e simbólico de tudo o que Blackford vinha semeando havia cinco anos. Impôs as mãos sobre o candidato ajoelhado, enquanto Simonton pronunciava a saudação fraternal baseada nas palavras de Paulo aos coríntios. Era uma cena de significado duplo: ali se ordenava o primeiro pastor nacional, e ali também se confirmava a liderança discreta e constante daquele que, sem alarde, vinha sustentando o trabalho desde os primeiros anos.
A confiança que os colegas depositavam em Blackford não foi passageira. Reeleito moderador na segunda reunião do presbitério, em julho de 1866, quando examinou e ajudou a ordenar o jovem evangelista George Whitehill Chamberlain, voltou a ocupar o mesmo posto na terceira reunião, em julho de 1867, e seria reconduzido novamente em 1868 e em 1884. Ao longo de quase duas décadas, foi ele quem, reunião após reunião, deu à jovem igreja presbiteriana a estabilidade de uma liderança que não se deixava abalar pelas circunstâncias.
Os anos de itinerância paulista
Blackford visitou ainda muitos outros pontos do interior de São Paulo, entre eles o Vale do Paraíba, Sorocaba e Bragança. Nesta última, pregou três vezes em janeiro de 1866, encontrando boa acolhida, embora tenha sido impedido de continuar pelo delegado local. Voltou a Bragança em 25 de maio, encontrando ali o próprio Conceição, que já iniciara em fevereiro suas viagens missionárias pelo interior; juntos, pregaram por cinco dias a auditórios de cem a duzentos ouvintes. Em 25 de março daquele ano, Blackford recebeu em São Paulo um segundo grupo de oito novos membros, entre os quais os portugueses Modesto Perestrello de Barros Carvalhosa e seu primo Pedro Perestrello da Câmara, jovens que, tocados pelo exemplo de Conceição, encontrariam em Blackford o mentor que os conduziria ao ministério presbiteriano.
Os últimos dias de Simonton
Nenhum episódio, porém, revela com tanta clareza o caráter de Blackford quanto os dias finais da vida de seu cunhado. No fim de novembro de 1867, Simonton viajou a São Paulo, já adoentado, buscando tanto rever a pequena Helen que a própria Elizabeth vinha criando desde a morte da mãe, quanto encontrar no clima paulista algum alívio para o mal que o consumia. Hospedou-se, como sempre fazia nessas visitas, na casa do cunhado, junto ao Largo de São Bento.
Foi ali que a doença se agravou, e foi ali que Blackford acompanhou, dia após dia, o declínio do amigo com quem dividira quase uma década de labuta, com a irmã Elizabeth ao lado do irmão até o fim. No domingo, véspera da morte, leu um salmo junto ao leito de Simonton, enquanto um crente negro, membro da igreja, orava ao lado. Na madrugada seguinte, segunda-feira, 9 de dezembro de 1867, Simonton expirou, vitimado pela febre amarela. Coube a Blackford redigir o certificado que confirmava sua condição de pastor evangélico, documento que até hoje se conserva nos registros do Cemitério dos Protestantes em São Paulo. Coube a ele, também, presidir o sepultamento, realizado no mesmo dia, com a presença de crentes locais e de amigos brasileiros, ingleses e americanos.
Não é difícil imaginar o peso daquela perda. Blackford não apenas enterrava um cunhado; despedia-se do homem que, ao seu lado, lançara as primeiras pedras de tudo o que ainda estava por vir. E, no entanto, longe de recuar diante da dor, permaneceu. Regressou ao Rio de Janeiro, onde passaria a liderar a igreja-mãe por quase dez anos, enquanto São Paulo era entregue ao cuidado do reverendo George Whitehill Chamberlain, que chegara ao Brasil ainda leigo em 1862, acompanhara Simonton nos dias mais amargos após a morte de sua primeira esposa, fora ordenado em julho de 1866 e enviado a estudar teologia em Princeton, retornando ao final de 1868 já casado com Mary Ann Annesley. O casal Chamberlain fundaria, em 1870, a modesta Escola Americana, semente do que hoje é a Universidade Mackenzie e Chamberlain permaneceria dedicado à evangelização do Brasil por mais de quarenta anos, até falecer na Bahia em 1902. A pequena Helen, por sua vez, continuou sendo criada por Elizabeth. Talvez seja essa a marca mais silenciosa e mais bela da trajetória de Blackford: a capacidade de transformar o luto em perseverança, sem que a tristeza se convertesse em desânimo.
Consolidação no Rio de Janeiro
Sob a liderança de Blackford, a congregação carioca expandiu-se consideravelmente nos anos seguintes. Depois de sediar-se provisoriamente no Campo de Santana, a igreja adquiriu, em dezembro de 1870, o imóvel da Travessa da Barreira, atual Rua Silva Jardim, junto ao Morro de Santo Antônio, incorporando-se legalmente em outubro de 1872, junto com Schneider, como Sociedade Presbitério do Rio de Janeiro, ato que regularizou definitivamente o patrimônio da igreja. Em 29 de março de 1874, foi finalmente inaugurado naquele endereço o primeiro templo presbiteriano construído no Brasil.
Ao longo desses anos, Blackford organizou ainda as igrejas de Lorena, Sorocaba, Petrópolis e Campos, além de lecionar, entre 1867 e 1870, no chamado Seminário Primitivo, o primeiro seminário protestante da América Latina, responsável pela formação dos primeiros pastores presbiterianos nacionais: os já mencionados Antônio Bandeira Trajano, Miguel Gonçalves Torres e Modesto Perestrello de Barros Carvalhosa, aos quais se somou, após a morte de Simonton, Antônio Pedro de Cerqueira Leite. Foi também editor do jornal Imprensa Evangélica, o primeiro periódico protestante da América Latina, fundado por Simonton em 5 de novembro de 1864, espaço em que, segundo relatos da época, a erudição e a elegância de dicção de Simonton encontravam contraponto na energia e na tenacidade de Blackford.
Um apelo que atravessou o país
Entre 1877 e 1880, já desligado temporariamente da Junta de Nova York, Blackford trabalhou como agente da Sociedade Bíblica Americana, percorrendo a cavalo milhares de quilômetros pelo interior do Brasil. Somente em 1877, visitou as províncias de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina, percorrendo quase cinco mil quilômetros, pregando em muitas cidades e distribuindo 2.360 exemplares das Escrituras. No ano seguinte, sua atuação se estendeu às províncias do Norte: em 11 de agosto de 1878, participou da organização da Igreja Presbiteriana de Recife ao lado do reverendo John Rockwell Smith, e chegou a viajar até o Pará, prestando ainda serviços de socorro às vítimas da grande seca que então assolava o Ceará. Sob sua coordenação, dezoito colportores percorreram, somente naquele ano, mais de dezessete mil milhas, visitando 274 cidades e vilas e oferecendo a Palavra a mais de trinta e cinco mil pessoas. Em 1879, ele e alguns colegas, entre eles o próprio reverendo Modesto Carvalhosa e o doutor José Manoel Garcia, professor do Colégio Pedro II, produziram uma versão brasileira do Novo Testamento a partir do original grego.
Foi também nesse período, em 1877, que Blackford publicou o livreto “Esboço da Missão no Brasil”, relatando à igreja norte-americana o trabalho realizado até então e concluindo com um apelo veemente: que o Brasil precisava e podia ser evangelizado dentro de dez anos, caso a Igreja se dispusesse a responder ao chamado providencial que, segundo ele, o Senhor já havia preparado.
A perda de Elizabeth
Ao longo desses anos de intensa atividade missionária, a saúde de Elizabeth já se mostrava fragilizada por uma enfermidade nervosa, agravada pelo clima do país que ela, mesmo assim, insistia em chamar de “meu povo”. Viajou algumas vezes aos Estados Unidos em busca de tratamento, retornando sempre que possível ao Brasil, tamanho era seu apego ao trabalho e à terra que escolhera como sua. Em abril de 1878, partiu em sua última viagem aos Estados Unidos, levando consigo a sobrinha Helen, já uma adolescente. Elizabeth Simonton Blackford faleceu em 23 de março de 1879, em Campinas, vítima de febre tifoide, durante uma passagem do casal pelo interior paulista. Foi sepultada ao lado do irmão Ashbel no Cemitério dos Protestantes de São Paulo, desejo que manifestara em vida; sua lápide traz a inscrição de Timóteo: “Sei em quem tenho crido”. Colegas como o próprio reverendo Modesto Carvalhosa lamentaram sua partida, e ficou registrado, entre os que a conheceram, o testemunho de que ela amava o povo brasileiro com toda a ternura do seu coração.
Um novo lar e a década na Bahia
Dois anos depois, em 24 de março de 1881, Blackford casou-se novamente, com Nannie Thornwell Gaston, filha do médico e presbítero norte-americano James McFadden Gaston, que havia residido em Campinas e escrito sobre suas experiências no país.
A partir de 1880, Blackford restabeleceu suas relações com a Junta de Nova York e dedicou uma década inteira ao trabalho missionário na Bahia, radicando-se em Salvador. Dali empreendeu inúmeras viagens de propaganda evangélica pelo litoral e pelo interior nordestino, tornando-se o primeiro missionário presbiteriano a pregar em Sergipe e organizando, em 28 de dezembro de 1884, a Igreja de Laranjeiras. Naquele mesmo ano, foi reeleito moderador do Presbitério do Rio de Janeiro. Em 1885, seu antigo colégio, o Washington College, conferiu-lhe o grau honorário de Doutor em Divindade, reconhecimento tardio, mas justo, de décadas de trabalho ininterrupto.
O primeiro moderador do Sínodo
O ponto culminante de sua longa trajetória viria em 1888. No dia 6 de setembro daquele ano, reuniram-se no Rio de Janeiro os três presbitérios então existentes: Rio de Janeiro, Campinas e Oeste de Minas, e Pernambuco, para constituir o Sínodo da Igreja Presbiteriana no Brasil, marco da autonomia eclesiástica em relação às igrejas-mães norte-americanas. Sendo o mais antigo dos missionários presentes, coube a Blackford ler o ato constitutivo que oficializava a nova organização. Em seguida, foi eleito o primeiro moderador do Sínodo. O jovem que, quase trinta anos antes, desembarcara como reforço de um colega mais impetuoso, tornava-se agora o líder reconhecido de uma igreja que já contava com vinte e sete ministros, sessenta e uma igrejas e congregações, e quase três mil membros comungantes.
Nesse mesmo ano de plenitude, porém, uma nova dor visitou a família: um dos filhos do casal, Joseph Simonton, nascido em 1886, faleceu ainda no primeiro ano de vida, sendo sepultado no Cemitério dos Ingleses.
A última viagem
Em abril de 1890, já em gozo de férias após trinta anos de trabalho ininterrupto no Brasil, Blackford viajou com a esposa e os três filhos pequenos para Atlanta, nos Estados Unidos, onde residia seu sogro. Pretendia, depois do descanso, participar da reunião da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana, marcada para Saratoga, em Nova York. Poucas semanas depois de chegar, em 27 de abril, foi acometido por uma grave enfermidade que os médicos não conseguiram debelar. Morreu apenas quatro dias depois, em 14 de maio de 1890, sendo sepultado no cemitério de Westview, em Atlanta, encerrando ali três décadas ininterruptas de trabalho no Brasil.
Registros da época preservam a cena de seus últimos momentos: mesmo em delírio febril, seu pensamento voltava-se insistentemente para o povo que amara na Bahia e em todo o Brasil. Passou o último dia cantando hinos, orando e repetindo passagens das Escrituras, tudo na língua portuguesa. As atas da missão resumiram esse instante com palavras que se tornaram, com o tempo, quase um epitáfio: que ele cantou hinos na língua dos brasileiros, o povo que amara entranhadamente, louvando seu Rei e Pai, a quem servira com firmeza e constância. Nannie sobreviveria ao marido por dez anos, falecendo em Atlanta em 28 de janeiro de 1900.
O legado de um colaborador fiel
Blackford deixou, ao longo da vida, uma produção escrita significativa: sermões publicados no Púlpito Evangélico, os tratados “A Simpatia de Jesus” e “O Batismo Cristão”, e o livreto “Sketch of the Brazil Mission”, narrando os primeiros dezessete anos da obra presbiteriana no país. Foi ainda compilador de “Cânticos Sagrados”, coletânea que por algum tempo serviu de hinário aos presbiterianos brasileiros, e tradutor de hinos como “Sempre de ti, Senhor” e “Ao céu eu vou”. Preservou, através de suas cartas ao periódico The Foreign Missionary, um registro histórico precioso dos primeiros anos da missão, hoje referência indispensável para quem estuda as origens do protestantismo no Brasil.
Quem o conheceu descreveu-o como homem de temperamento forte, exigente consigo mesmo e com os colegas, um obreiro nem sempre fácil de acompanhar em suas convicções, mas cuja sinceridade e dedicação à causa do evangelho ninguém jamais colocou em dúvida. É significativo que, ao refletir sobre os primórdios da obra presbiteriana no Brasil, historiadores da denominação tenham recorrido à imagem dos colaboradores do apóstolo Paulo, Barnabé, Silas, Timóteo, Marcos, Lucas, Priscila e Áquila, Febe, e tantos outros cristãos anônimos cujos nomes a história não registrou, para descrever o papel de figuras como Blackford, o reverendo Schneider, o reverendo Chamberlain, o missionário português Emanuel N. Pires, ou ainda colaboradores nacionais como o taquígrafo e poeta Antônio dos Santos Neves, recebido por profissão de fé pelo próprio Blackford enquanto Simonton estava ausente nos Estados Unidos. Como o apóstolo dos gentios, também Simonton pouco teria conseguido sozinho; e, como aquele círculo de auxiliares fiéis, foi sobretudo o cunhado Blackford quem lhe deu sustento, direção e continuidade, mesmo depois de sua morte prematura.
Uma fidelidade que constrói
A história de Blackford ensina algo que a pressa do nosso tempo facilmente esquece: nem todo alicerce é lançado com estrondo. Enquanto Simonton escrevia, pregava, organizava jornais e formava seminaristas com o ardor típico da juventude, Blackford ia, viagem após viagem, reunião após reunião, sustentando estruturas, presidindo concílios, assinando documentos, acompanhando enfermos, criando sobrinhas órfãs, distribuindo Escrituras pelas estradas do interior. Não foi ele quem lançou o primeiro jornal evangélico do Brasil, nem quem fundou o primeiro seminário; foi ele, porém, quem manteve tudo isso de pé quando o fundador já não estava mais presente para fazê-lo, e quem levou a obra muito além das fronteiras que Simonton chegara a conhecer.
Passados mais de cento e trinta anos, o nome de Alexander Latimer Blackford permanece indissociável da própria história da Igreja Presbiteriana do Brasil. Não como o rosto mais lembrado, mas como aquele que, silenciosamente, tornou possível grande parte do que se lembra. Sua vida ensina que a obra de Deus raramente se sustenta sobre um único nome; sustenta-se sobre famílias inteiras, cunhados que se tornam irmãos, esposas que aprendem a chamar um povo estrangeiro de seu, filhos adotados no meio da dor, e amigos que, quando a hora da partida finalmente chega, ainda encontram forças para cantar, na língua do povo que amaram, os hinos que resumem toda uma vida de fidelidade.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
UL TIMAS POSTAGENS

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!






