Há um detalhe em Edimburgo que costuma surpreender quem visita a cidade pela primeira vez. À sombra da Catedral de Saint Giles, onde outrora existiu um cemitério, hoje existe um estacionamento. Não há túmulo ornamentado, nem lápide, nem qualquer sinal que indique que ali repousa um dos homens que mais profundamente marcaram a história espiritual da Escócia. O que existe é a vaga de número 23, sobre ela, quase sempre, o carro de alguém que nem imagina o que repousa abaixo do asfalto. Foi ali, a poucos metros da igreja que ele tanto amou, que John Knox pediu para ser sepultado. E foi exatamente ali que o tempo, com sua indiferença silenciosa, cobriu de asfalto aquilo que um dia foi reverenciado.



Há algo profundamente simbólico nesse contraste. O homem que devolveu à Escócia a Palavra de Deus em sua própria língua, que enfrentou rainhas sem baixar os olhos e que viu nascer, sob sua liderança, uma igreja nacional inteira, teve seu lugar de descanso reduzido a uma vaga de estacionamento. E, como veremos mais adiante, esse mesmo destino de esquecimento parece rondar hoje a igreja que ele ajudou a erguer. Mas antes de chegarmos a essa reflexão, é preciso voltar ao início, ao homem por trás do nome.
As origens de um homem simples
John Knox nasceu entre 1513 e 1515, perto de Haddington, na região de East Lothian, não muito distante de Edimburgo. Quase nada se sabe com certeza sobre seus primeiros anos, sua mãe se chamava Sinclair, nome que ele próprio usaria como disfarce em tempos de perigo e que seu pai, William, pertencia a uma família modesta, sem títulos nem prestígio, provavelmente dedicada à lavoura. Não havia ali nenhum sinal de grandeza. Nenhuma promessa visível de que aquele menino, criado sem riqueza e sem recomendações, viria a ser lembrado como o principal arquiteto da Reforma na Escócia.
E é justamente aqui que a história de Knox começa a nos ensinar algo importante. Deus não escolhe os homens que o mundo escolheria. Ele não busca primeiro talento, nem berço, nem influência. Ele vai ao encontro desse jovem escocês de origem humilde, formado em teologia e ordenado padre por volta dos vinte e cinco anos.
A Escócia daquele tempo, como o restante da Europa, tinha diante de si uma igreja corrompida. Bispos mantinham filhos fora do casamento sem qualquer constrangimento. Padres, em muitos lugares, sequer conheciam as Escrituras, chegava-se a acreditar que o Novo Testamento fosse uma obra recente de Martinho Lutero. A adoração havia se transformado numa sucessão de imagens, relíquias e cerimônias que pouco ou nada tinham a ver com o Evangelho. Foi nesse terreno seco e endurecido que Deus começou a preparar a semente que germinaria em John Knox.
O encontro que mudou tudo
Ainda jovem, Knox tornou-se tutor dos filhos de famílias nobres simpáticas ao protestantismo, e foi nesse contexto que se aproximou de George Wishart, um pregador corajoso que percorria a Escócia anunciando o Evangelho puro, sem os aparatos da igreja romana. Knox chegou a acompanhá-lo como uma espécie de guarda-costas, protegendo-o dos muitos perigos que rondavam quem ousava pregar a verdade naqueles dias. Foi ali, na convivência com Wishart, que algo começou a se transformar dentro dele. Não sabemos os detalhes exatos de sua conversão, tal como também pouco sabemos sobre a de Calvino. Mas sabemos que, a partir daquele contato, Knox nunca mais foi o mesmo.
Em 1546, Wishart foi preso por ordem do cardeal David Beaton e queimado vivo por heresia. A notícia se espalhou pela Escócia como um choque profundo, e o povo, revoltado, passou a nutrir forte aversão ao cardeal e a todo o clero que ele representava. Meses depois, um grupo de jovens protestantes invadiu o castelo de St. Andrews e assassinou Beaton. Knox não participou do ato, mas o interpretou como juízo justo de Deus sobre um homem que havia perseguido tantos inocentes. Pouco depois, ele próprio se juntou aos que ocupavam o castelo, refugiando-se ali com seus alunos.
Foi nesse castelo, em 1547, que aconteceu o momento decisivo da vida de Knox. Ele não desejava pregar. Sua inclinação era para o silêncio do estudo, não para os riscos do púlpito. Quando os reformadores do castelo o pressionaram a assumir o ministério da pregação, ele resistiu, chorou, recuou. Só depois de muita insistência aceitou pregar um único sermão em St. Andrews. E aquele sermão bastou. Amigos e adversários compreenderam, naquele instante, que haviam encontrado o grande porta-voz da Reforma escocesa. A partir dali, Knox já não pertencia mais a si mesmo. Ele se considerava chamado por Deus, e essa certeza, nascida contra sua própria vontade se tornaria o alicerce de tudo o que viria a seguir.
Escravo nas galés francesas
A alegria, porém, durou pouco. Ainda em 1547, o castelo de St. Andrews foi cercado e bombardeado por navios franceses enviados em apoio à coroa escocesa. Depois de resistir quanto pôde, a guarnição capitulou. Knox e seus companheiros foram capturados e condenados a remar nas galés francesas como escravos. Ali permaneceu por dezenove longos meses, acorrentado a um remo, suportando um tratamento cruel que deixaria marcas permanentes em sua saúde. Foi um tempo de sofrimento intenso, mas também, como tantas vezes acontece na providência de Deus, um tempo de formação silenciosa. Os anos de aflição não quebraram Knox. Eles o temperaram.
Libertado em 1549, graças à intervenção inglesa, Knox partiu para a Inglaterra, onde encontrou um ambiente disposto a ouvi-lo. Pastoreou uma congregação em Berwick e depois em Newcastle, e ali se firmou como pregador de rara autoridade. Tornou-se um dos capelães do jovem rei Eduardo VI, chegando a pregar diante da corte. Foi também nesse período que conheceu Marjorie Bowes, mulher que mais tarde se tornaria sua esposa.
Quando Eduardo VI morreu, em 1553, e sua meia-irmã Maria Tudor assumiu o trono, iniciou-se uma perseguição sangrenta contra os protestantes ingleses, perseguição que lhe renderia, da parte de Knox, o apelido pouco gentil de “Jezabel idólatra”. Knox precisou fugir novamente, desta vez para o continente europeu.
Os anos com Calvino
Foi em Genebra, sob a orientação de João Calvino, que Knox encontrou aquilo que descreveria como a escola mais perfeita de Cristo desde os dias dos apóstolos. Ali aprendeu, de maneira mais profunda, a centralidade absoluta de Cristo na pregação, os princípios bíblicos do governo da igreja e a exigência de que toda a adoração fosse regulada exclusivamente pela Palavra de Deus, e não pela imaginação humana. Esses anos de formação não fizeram dele uma simples cópia de Calvino. Knox permaneceu um pensador independente, capaz de discordar do próprio mestre sempre que sua leitura das Escrituras assim o exigisse. Mas foi ali, junto ao Lago Léman, que ele recebeu as ferramentas teológicas com as quais reformaria seu próprio país.
Nesse período, casou-se com Marjorie e pastoreou, em Genebra, uma congregação de refugiados ingleses. Escreveu também obras de forte tom profético, entre elas um tratado contra o governo de rainhas que, sem que ele imaginasse, acabaria por lhe custar a simpatia da futura rainha Elizabeth da Inglaterra. Mas seu coração, mesmo exilado, nunca deixou de voltar-se para a Escócia. Em 1557, um grupo de nobres escoceses protestantes firmou um pacto, comprometendo vida e bens para estabelecer a Palavra de Deus em seu país. E, no ano seguinte, o convite tão esperado finalmente chegou: era hora de voltar para casa.
O retorno e a hora decisiva
Knox voltou definitivamente à Escócia em 1559. Ali passaria os treze anos seguintes mergulhado, de corpo e alma, na obra que definiria o restante de sua vida. Pregava sem medo contra a missa, que considerava idolatria. Escrevia, organizava, aconselhava. E orava, dizem que orava com tanta intensidade pela sua nação que chegou a exclamar, num gemido que atravessaria os séculos: “Ó Deus, dá-me a Escócia, ou eu morro!” Era o clamor de um homem que via seu povo preso havia gerações a uma religião vazia de Cristo e que não conseguia se conformar com aquela realidade.
Em agosto de 1560, o Parlamento escocês rompeu formalmente com Roma e adotou a fé reformada como religião oficial da nação. Em poucos dias, Knox e outros quatro companheiros redigiram a Confissão Escocesa, de orientação claramente calvinista, prontamente aprovada pelos parlamentares. Ainda naquele ano, reuniu-se a primeira Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana da Escócia, embora ainda contasse com apenas seis pastores e trinta e seis presbíteros presentes. Era pouco, comparado ao tamanho da tarefa, mas era o suficiente para uma nação inteira começar a mudar de direção.
No ano seguinte, a jovem rainha Maria Stuart retornou à Escócia decidida a restaurar o catolicismo. Insistia em celebrar a missa em sua capela privada, e Knox, do púlpito, denunciava aquilo sem qualquer hesitação. Os confrontos entre os dois se tornaram célebres. Diz-se que a rainha chorava de raiva diante das palavras do pregador, e que temia mais suas orações do que exércitos inteiros de soldados ingleses. Não era exagero de linguagem. Havia, de fato, algo naquele homem, em sua firmeza, em sua vida de oração, em sua absoluta convicção de que respondia primeiro a Deus e só depois aos homens.
Uma nação transformada
O que aconteceu na Escócia sob a liderança de Knox foi uma reforma ampla da nação. O latim, incompreensível ao povo comum, deu lugar ao inglês nos cultos. A Bíblia foi traduzida e colocada nas mãos das pessoas simples, de modo que qualquer família pudesse, pela primeira vez, ler as próprias Escrituras. Os salmos passaram a ser cantados pela congregação, não apenas recitados por sacerdotes distantes. E ao lado de cada igreja, por determinação do próprio Knox, deveria existir uma escola. Assim nasceu, naquela pequena nação do norte da Europa, um dos sistemas educacionais mais avançados de seu tempo, erguido sobre o alicerce da fé reformada.
Knox também deixou à Escócia uma forma de governo eclesiástico que rejeitava a ideia de bispos nomeados pela coroa e defendia, em seu lugar, uma igreja conduzida por presbíteros eleitos pela própria comunidade de fé. Era uma proposta ousada para os padrões da época, porque retirava dos reis o controle direto sobre a igreja e o devolvia, sob a autoridade última das Escrituras, ao próprio povo de Deus. Esse modelo, aprendido por Knox em Genebra e amadurecido no calor da luta escocesa, ficaria conhecido como presbiterianismo, e sua trajetória não se encerraria dentro das fronteiras daquela pequena nação.
Uma herança que chegou até nós
Com o passar das gerações, milhares de escoceses cruzaram o Atlântico em busca de nova vida na América do Norte, e levaram consigo, junto às malas e às memórias da terra natal, o mesmo jeito de crer e de organizar a igreja que haviam recebido de Knox. Fundaram congregações, ergueram seminários, formaram pastores. E foi justamente dentro dessa tradição, nutrida a milhares de quilômetros de distância da Escócia, que nasceu um jovem chamado Ashbel Green Simonton. Formado nesse ambiente presbiteriano de raiz escocesa, Simonton embarcou como missionário rumo ao Brasil, e em 1859 fundou, no Rio de Janeiro, a primeira igreja presbiteriana em solo brasileiro.
Não é exagero, portanto, dizer que cada igreja presbiteriana brasileira de hoje carrega, em sua própria estrutura de governo, em seu apreço pelo ensino bíblico e em sua forma de tomar decisões em conselho, a digital daquele sacerdote escocês que um dia chorou antes de subir a um púlpito em St. Andrews. A distância entre Knox e nós não é tão grande quanto o tempo faz parecer. Somos, de fato, herdeiros diretos daquile movimento que ele começou.
Knox faleceu em 24 de novembro de 1572. Nos seus últimos momentos, já debilitado por anos de perseguição e trabalho incessante, pediu à esposa que lesse para ele o capítulo quinze de Primeira Coríntios. Mais tarde, ao entardecer, fez seu último pedido: “Leia onde lancei minha primeira âncora.” Ela leu João 17, o texto que, ao que se supõe, havia acompanhado sua própria conversão, tantos anos antes. Naquela mesma noite, ele partiu. No funeral, uma multidão tomou as ruas de Edimburgo, e junto ao túmulo alguém pronunciou a frase que se tornaria sua epitáfio mais lembrado: “Aqui jaz alguém que nunca temeu o rosto do homem.”
Uma igreja que hoje encolhe
A igreja que John Knox fundou com tanto sacrifício, que moldou a alma de uma nação inteira e que se espalhou por continentes até chegar, através de Simonton, ao coração do Brasil, atravessa hoje, em seu berço escocês, uma crise silenciosa de proporções profundas. A Church of Scotland, herdeira direta daquela igreja erguida em 1560, perdeu mais da metade de seus membros desde o ano 2000. Contava com cerca de 1,3 milhão de fiéis na década de 1950; hoje reúne pouco mais de 270 mil. A queda tem sido constante, algo próximo de 35% a cada dez anos e a idade média de quem ainda frequenta os cultos já ultrapassa os 62 anos.
Os números contam apenas parte da história. Por trás deles está um relatório que reconhece, com honestidade rara, que aquilo não é culpa de uma pessoa ou de um grupo específico, mas o resultado de uma tendência que, ano após ano, ninguém conseguiu reverter. As congregações minguam quase todas ao mesmo tempo. Os ministros se aposentam, e não há jovens suficientes se apresentando para ocupar seus lugares. Prevê-se que, nos próximos anos, cerca de trinta por cento dos templos precisem ser vendidos, simplesmente porque não há mais recursos, nem pessoas, para sustentá-los.
Há algo profundamente inquietante nessa constatação. A estrutura permanece. As confissões de fé continuam escritas, os presbitérios continuam se reunindo, a doutrina continua correta no papel. E, ainda assim, a igreja esvazia. É como se todo o edifício doutrinário erguido por Knox tivesse sobrevivido ao tempo, mas algo essencial, algo que pulsava no coração daquele movimento original, tivesse se apagado silenciosamente ao longo das gerações.
A verdade que Knox nunca deixou de repetir
Knox jamais atribuiu a força de seu ministério à própria capacidade, à eloquência de seus sermões ou à solidez de suas formulações teológicas, embora tivesse tudo isso em abundância. Sua convicção mais profunda, aquela que ele repetiu até o fim da vida, era outra: que Deus concede o Seu Espírito Santo a homens simples, em grande abundância. Não a estruturas. Não a documentos, por mais bem escritos que fossem. Não a instituições, por mais sólidas que parecessem. A homens e mulheres que, em relação viva e pessoal com Cristo, se deixam usar por Ele.
É exatamente isso que parece ter se perdido, aos poucos, na trajetória que vai do avivamento de 1559 até os relatórios de encolhimento de hoje, a mesma trajetória que, por outro caminho, também nos trouxe a fé que hoje professamos. A estrutura sobreviveu. A doutrina permanece preservada. Mas a relação viva com Cristo, aquela que fazia Knox chorar de convicção antes de subir a um púlpito, aquela que o levava a passar noites em oração até fazer uma rainha temer mais suas súplicas do que exércitos inteiros, essa relação parece ter esfriado, geração após geração, até restar apenas o edifício. E um edifício sem vida interior, por mais bonito que seja, um dia se torna exatamente aquilo que se tornou o túmulo de Knox: um espaço vazio, coberto de asfalto, sobre o qual as pessoas estacionam sem perceber o que ali um dia existiu.
Essa é, talvez, a lição mais dura e mais necessária que a vida de John Knox ainda tem para nos ensinar. Nenhuma igreja sobrevive apenas de sua própria história, por mais gloriosa que tenha sido. Nenhuma denominação se sustenta unicamente pela correção de suas confissões de fé, se essas confissões deixarem de ser vividas em relação real com Aquele a quem apontam. A Reforma que Knox liderou nasceu da ação de Deus sobre homens e mulheres que haviam sido tocados pessoalmente pelo Evangelho, e que por isso não conseguiam mais viver como antes. Quando essa experiência viva se transforma apenas em herança institucional, a igreja pode continuar existindo por décadas, até por séculos mas já não é mais, em sua essência mais profunda, o corpo pulsante que Cristo edifica.
Talvez seja este, então, o convite que a própria vida de Knox nos deixa, quatro séculos e meio depois de seu último suspiro: que cada geração de crentes precise, de novo, encontrar aquele mesmo fogo que ardeu nele desde o dia em que ouviu pregar George Wishart. Não basta herdar a estrutura de nossos pais na fé. É preciso, também, herdar ou melhor, é preciso buscar de novo, pessoalmente, diante de Deus, aquilo que verdadeiramente sustentou aquele homem simples de Haddington: uma âncora lançada, como ele mesmo disse em seus últimos momentos, em Cristo e somente Nele. Porque é essa âncora, e não os documentos nem os prédios, que continua a sustentar qualquer igreja que ainda deseje, de fato, permanecer viva.
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
UL TIMAS POSTAGENS

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!





Deixe um comentário