Provérbios 2.1-5. “Meu filho, se você aceitar as minhas palavras e guardar no seu coração os meus mandamentos; se você der ouvidos à sabedoria e inclinar o seu coração ao entendimento; sim, se você pedir inteligência e gritar por entendimento; se buscar a sabedoria como a prata e a procurar como se procuram tesouros escondidos, então você entenderá o temor do Senhor e achará o conhecimento de Deus.” — Provérbios 2.1-5
O verdadeiro conhecimento de Deus não é fruto do acaso nem da devoção superficial, mas da busca deliberada, humilde e apaixonada das Escrituras.
Marcela, cristã e teologa
Roma, ano 410, os exércitos visigodos de Alarico invadem a cidade eterna – Roma, pilhando casas, incendiando propriedades e espalhando o terror entre seus habitantes. Quando os guerreiros chegam à residência desta mulher de família ilustre, descendente de cônsules e prefeitos, encontram apenas pobreza. Não há o que saquear pois a riqueza que um dia existira havia sido voluntariamente renunciada. Os soldados, enfurecidos, espancam Marcela que morrerá algum tempo depois, em decorrência dos ferimentos.
Ela foi uma nobre romana, viúva aos dezessete anos, herdeira de uma das famílias mais influentes do Império, mas é lembrada como uma das mentes teológicas mais notáveis do século IV. Abriu mão da riqueza, do status, de um possível segundo casamento, para transformar sua própria casa num seminário dedicado ao estudo das Escrituras.
A necessidade de sermos sábios em Deus
O livro de Provérbios foi escrito para formar não apenas pessoas inteligentes, mas pessoas sábias e a diferença entre inteligência e sabedoria, no pensamento hebraico, é fundamental. A sabedoria bíblica é a arte de viver em harmonia com a realidade que Deus criou e governa. Por isso, o sábio de Israel dirige-se ao filho com uma série de condicionais que constroem uma progressão deliberada: se você aceitar… se você der ouvidos… se você buscar… Cada “se” carrega grande peso, pois é um chamado à ação intencional, intensa e persistente de andar com Deus.
Para os primeiros ouvintes desse texto, a imagem de buscar sabedoria como quem busca prata e tesouros escondidos era poderosa. Escavar a terra em busca de metais preciosos exigia esforço, determinação e paciência. O sábio estava dizendo que o conhecimento de Deus demanda ao menos o mesmo empenho que o homem dedica ao que considera valioso. A promessa, contudo, transcende qualquer tesouro material: “então você entenderá o temor do Senhor e achará o conhecimento de Deus.”
Sede de Deus
A história de Marcela começa no lugar onde muitas histórias humanas também começam: na perda. Viúva aos dezessete anos, ela se encontrou diante de uma encruzilhada comum à condição humana. Poderia reconstruir sua vida segundo os padrões esperados, um novo casamento, a preservação da riqueza familiar, o prestígio social que seu sobrenome garantia e inguém a teria culpado por isso.
Mas Marcela havia descoberto algo que o mundo não oferecia: a insuficiência de tudo que não é Deus, essa descoberta move as almas dos que o buscam intensamente. O filósofo cristão Agostinho de Hipona, contemporâneo de Marcela, expressou com precisão o que ela deve ter sentido: “Fizeste-nos para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti.” A inquietação de Marcela era essa imensa sede de Deus que encontrou seu caminho até a fonte.
O maior de todos os empreendimentos
A alma humana precisa de direção, caso contrário está perdida, vagando em todas as direções sem nunca encontrar o caminho. A direção somente vem ao contemplarmos a face gloriosa de Jesus. É imperativo compreender que o conhecimento de Deus não é automático porque estamos em uma igreja, muito menos natural, o natural é seguirmos para longe de Deus. Portanto é necessário buscá-lo, inclinar o coração, abrir os ouvidos, dobrar os joelhos, escavar as Escrituras como quem escava em busca de tesouros.
Marcela entendeu isso de maneira visceral. Ela transformou sua casa numa escola das Escrituras porque havia compreendido que o maior empreendimento humano é conhecer a Deus. Ela recebia monges e clérigos, abria as portas para debates teológicos, e sua curiosidade intelectual, segundo os relatos históricos, era simplesmente insaciável.
O apóstolo Paulo, escrevendo aos cristãos de Colossos, declarou que em Cristo “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses 2.3). A expressão ressoa com a linguagem de Provérbios 2. O tesouro escondido que o sábio exorta o filho a buscar encontra sua revelação definitiva na pessoa de Jesus Cristo. Buscar a sabedoria das Escrituras é, em última instância, buscar a Cristo, a Palavra encarnada, a sabedoria de Deus manifesta em carne humana.
Crescimento acompanhado de piedade
Marcela jamais separou o estudo das Escrituras da devoção a Cristo. Quando Jerônimo, o grande erudito que traduziria a Bíblia para o latim na famosa Vulgata, hospedou-se em sua casa e tornou-se seu companheiro de estudo bíblico, Marcela não se contentava com respostas superficiais. Ela contra-argumentava, exigia aprofundamento, questionava explicações insatisfatórias.
Havia, porém, uma marca especial na postura de Marcela que a tornava ainda mais notável: sua humildade radical. Mesmo quando chegava a conclusões teológicas sólidas, mesmo quando respondia com precisão a perguntas difíceis dirigidas a ela por ministros da igreja, após a partida de Jerônimo para Jerusalém, foi ela quem passou a ser consultada, Marcela sempre atribuía o mérito ao que havia aprendido como aluna. Dizia que ensinava o que lhe havia sido ensinado. Havia nela uma grandeza que só a graça produz: a capacidade de ser erudita sem ser orgulhosa.
Uma mulher com sede de Deus
A vida de Marcela guardou os mandamentos do Senhor no coração. Deu ouvidos à sabedoria. Buscou o entendimento com a intensidade de quem escava atrás de tesouros escondidos: ela encontrou o conhecimento de Deus e nesse conhecimento encontrou a orientação, a coragem e a identidade que nenhuma riqueza romana poderia proporcionar.
Quando os guerreiros visigodos invadiram sua casa e não encontraram ouro, o que encontraram, sem saber, foi uma mulher que havia depositado seu tesouro em outro lugar. R.C. Sproul observou com precisão que “a santidade começa com uma visão correta de Deus.”
Jerônimo, ao falar sobre ela depois de sua morte, declarou que louvava nela o desprezo pela riqueza e pela fama, junto com sua grande humildade. Em suas palavras havia a reverência de quem reconhece que aquela mulher havia encontrado o que poucos têm coragem de buscar com toda a alma. Esse caminho está aberto para qualquer um que tenha coragem de percorrê-lo: com humildade, com rigor, com persistência e com o coração inclinado ao entendimento.
E agora, como viveremos? A história de Marcela é admirável e acima de tudo desafiadora, pois nos pergunta, o que fazemos com a Palavra de Deus. Abrimos as Escrituras com a determinação de quem está sedento por Deus ou as folheamos distraidamente, esperando que algo toque o coração como que por acidente?
Marcela vivia num tempo sem Bíblias impressas, sem recursos digitais, sem acesso fácil ao texto sagrado e ainda assim, buscou com tudo que tinha. Nós vivemos num tempo de abundância bíblica sem precedentes. A pergunta que sua vida nos faz é direta: o que fazemos com o que temos?
Oremos.“Quanto amo a tua lei! É a minha meditação o dia todo. Os teus mandamentos me fazem mais sábio do que os meus inimigos, porque estão sempre comigo. Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres, porque as tuas admonições são a minha meditação. Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais do que o mel à minha boca. Da tua palavra aprendo o que fazer; por isso, odeio todo caminho falso. A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho.” — Salmo 119.97-99, 103-105. Senhor, que nossos corações sejam ávidos por conhecer a ti por meio das tuas Escrituras. Amém.
Perguntas para Reflexão. Marcela abriu mão de riqueza, status e conforto para aprofundar seu conhecimento das Escrituras. O que, na sua vida, compete com o tempo e a energia que você dedica ao estudo da Palavra de Deus?
Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.
UL TIMAS POSTAGENS

Meu chamado para o ministério pastoral veio em 1994, sendo encaminhado ao conselho da Igreja Presbiteriana (IPB) em Queimados e em seguida ao Presbitério de Queimados (PRQM). Iniciei meus estudos no ano seguinte, concluindo-os em 1999. A ordenação para o ministério pastoral veio em 25 de junho de 2000, quando assumi pastoreio na IPB Inconfidência (2000-2003) e da IPB Austin (2002-2003). Desde de 2004 tenho servido como pastor na Igreja Presbiteriana em Engenheiro Pedreira (IPEP), onde sigo conduzido esse amado rebanho pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Sou casado há 22 anos com Alexsandra, minha querida esposa, sou pai de Lisandra e Samantha, preciosas bênçãos de Deus em nossas vidas. Me formei no Seminário Teológico Presbiteriano Ashbel Green Simonton, no Rio de Janeiro, e consegui posteriormente a validação acadêmica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pela bondade de nosso Senhor, seguimos compartilhando fé, amor e buscando a cada dia crescimento espiritual. Somente Cristo!
