DISCIPULADO – Da contemplação à transformação

O verdadeiro discipulado começa na contemplação de Cristo, conduzindo à transformação pelo Espírito e ao seguimento segundo os termos dele.

Texto Bíblico Principal: 2 Coríntios 3.18.

Textos Complementares: 2 Coríntios 4.3-6; Colossenses 1.15; Hebreus 1.3; Colossenses 3.1-4,10; 1 João 3.2; Marcos 2.14.

O verdadeiro discipulado começa contemplando a glória de Cristo; pela ação do Espírito, essa contemplação conduz à transformação progressiva do discípulo à imagem de Cristo e o prepara para segui-lo segundo os termos estabelecidos por ele.

INTRODUÇÃO

Existe uma pergunta que raramente fazemos a nós mesmos, mas que, silenciosamente, determina tudo o que nos tornamos: O que ocupa, hoje, o centro da nossa atenção? Não estamos falando apenas daquilo que pensamos algumas vezes ao dia, mas daquilo que realmente fascina o coração, daquilo para onde os olhos se voltam quando ninguém está observando. Porque é justamente ali, naquilo que contemplamos com maior constância, que a nossa vida começa a ser moldada.

Foi essa mesma percepção que levou Agostinho de Hipona a confessar, já maduro na fé, olhando para trás em sua própria vida: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova!” (Confissões, X.27). Ele não estava dizendo apenas que demorou a conhecer uma doutrina; estava reconhecendo que demorou a contemplar aquilo que, desde sempre, era digno de toda a sua atenção.

Talvez você já tenha notado isso em pessoas ao seu redor, alguém que dedica sua atenção diária ao sucesso profissional acaba, com o tempo, pensando, falando e decidindo como alguém que só enxerga o mundo através dessa lente. Alguém que se rende à aparência acaba enxergando cada espelho como um tribunal. Mas o que seria contemplação? Contemplação é o ato de observar e admirar algo, portanto aquilo que contemplamos nos molda.

Aqui está o problema que precisamos enfrentar com honestidade: muitas igrejas têm investido enorme energia em fazer as pessoas agirem como cristãs, sem primeiro conduzi-las a contemplar aquele que é o próprio conteúdo da fé cristã. Programas se multiplicam, atividades se acumulam, calendários ficam lotados, e, ainda assim, algo essencial pode estar faltando. É possível ter uma igreja cheia de pessoas ocupadas e, ao mesmo tempo, vazia de pessoas fascinadas por Cristo. E, quando isso acontece, tentamos corrigir comportamento sem tocar naquilo que realmente produz mudança duradoura: o objeto do nosso olhar.

Por essa razão, a pergunta que deveria abrir todo processo de discipulado não é “o que preciso fazer para mudar?”, mas outra, bem mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais profunda: “para quem estou olhando, quem estou admirando?”.

CONTEXTO BÍBLICO E TEOLÓGICO

Para compreendermos com profundidade 2 Coríntios 3.18, é necessário situá-lo dentro do argumento mais amplo que Paulo desenvolve em 2 Coríntios 3. O apóstolo estava enfrentando, em Corinto, a influência de mestres que valorizavam Moisés e a antiga aliança como padrão de legitimidade religiosa, quase como se a lei mosaica fosse superior ao evangelho que Paulo pregava. A resposta do apóstolo, contudo, não foi construída sobre depreciar Moisés, mas sobre mostrar que aquilo que Moisés experimentou de forma parcial, velada e temporária, todo cristão agora experimenta de maneira plena, aberta e permanente.

O capítulo relembra a cena de Êxodo 34, quando Moisés descia do monte com o rosto refletindo o brilho da presença de Deus, um brilho tão intenso que ele precisava cobrir o rosto com um véu diante do povo. Aquele véu, explica Paulo, não era apenas um recurso protetor contra uma luz ofuscante; ele também simbolizava algo mais profundo: a incapacidade de Israel de contemplar continuamente a glória de Deus, e a natureza passageira daquela aliança. Com o tempo, esse mesmo véu passou a representar a incompreensão espiritual de todo aquele que lê as Escrituras sem se voltar para o Senhor.

É exatamente nesse ponto que Paulo introduz uma verdade capaz de transformar a maneira como entendemos a vida cristã: “quando algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado” (3.16). A conversão, portanto, não é apenas o início de uma nova religião; é a remoção definitiva daquilo que nos impedia de olhar diretamente para a glória de Deus. E o versículo seguinte esclarece quem torna isso possível: “o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (3.17). É essa liberdade concedida pelo Espírito que abre caminho para a declaração culminante do capítulo, o versículo 18, no qual convergem todos os temas que Paulo vinha desenvolvendo: rosto, glória, Senhor e Espírito se encontram em uma única frase, formando a síntese mais bela de toda a argumentação.

Precisamos, então, estabelecer algo com clareza antes de avançarmos: não contemplamos uma ideia vaga e abstrata sobre Deus. Contemplamos a glória de Deus revelada especificamente em Cristo. Como o próprio apóstolo esclarecerá poucos versículos adiante, é “na face de Jesus Cristo” que resplandece “a glória de Deus” (4.6). Cristo é a imagem do Deus invisível (Cl 1.15), o resplendor da glória divina e a expressão exata de sua natureza (Hb 1.3). Não existe, portanto, contemplação cristã que não seja, no fundo, contemplação de Cristo.

João Calvino abre suas Institutas da Religião Cristã exatamente com essa mesma constatação: segundo ele, ninguém pode olhar para si mesmo sem voltar os olhos para Deus (Institutas, Livro I, Capítulo I). Contemplar a Cristo é o que nos revela, ao mesmo tempo, quem Deus é e quem fomos criados para ser.

1. CONTEMPLAMOS A GLÓRIA DE CRISTO

Antes de falar sobre transformação, Paulo apresenta primeiro o objeto da contemplação: “a glória do Senhor”. Essa ordem não é acidental, o discipulado bíblico começa com o olhar direcionado para Cristo, e não com um conjunto de tarefas a cumprir. Antes de perguntarmos o que devemos fazer, precisamos perguntar para quem estamos olhando, porque toda a vida cristã nasce dessa direção do olhar.

Observe, com atenção, como o versículo se abre: “todos nós”. Não se trata de um privilégio reservado a um mediador solitário, como acontecia com Moisés no Sinai. Na antiga aliança, apenas um homem subia ao monte e via, de forma parcial e temporária, algo da glória divina; o restante do povo permanecia à distância, incapaz de suportar aquele brilho. Agora, sob a nova aliança, toda a igreja, sem distinção de origem, mérito ou posição, tem acesso direto e permanente a essa mesma glória. Isso significa que a contemplação de Cristo não é uma experiência reservada a poucos cristãos espiritualmente avançados, mas o chamado dirigido a cada um que confessa o nome do Senhor.

Em seguida, o texto acrescenta: “com o rosto desvendado”. Enquanto Moisés cobria o rosto diante do povo, e enquanto Israel permanecia com um véu sobre o coração ao ler as Escrituras, o cristão está livre para contemplar sem obstáculos aquilo que antes permanecia oculto. Essa liberdade não nasce de mérito próprio, mas da obra do Espírito que remove o véu no momento da conversão. É por isso que muitos livros valiosos sobre discipulado insistem em afirmar que tudo começa com o conhecimento de Deus e com a revelação de sua beleza na pessoa de Jesus; se o discipulado começar em qualquer outro lugar, poderá até produzir algumas coisas boas, mas terá perdido de vista o fundamento sobre o qual toda a vida cristã deveria ser edificada.

Chegamos, então, ao coração deste primeiro ponto: “contemplando, como por espelho, a glória do Senhor”. O verbo grego utilizado por Paulo é raro e denso, e comentaristas discutem se ele deveria ser traduzido como “contemplar” ou como “refletir”. Ainda que a discussão acadêmica seja legítima, o sentido geral permanece claro: o crente está diante da glória de Cristo, olhando fixamente para ela, e essa glória, ao mesmo tempo, é espelhada, irradiada de volta através daquele que a contempla. Não se trata de um olhar passageiro ou distraído, mas de uma atenção contínua, sustentada, que ocupa o centro da existência.

É exatamente aqui que muitas propostas de discipulado tropeçam. Tentamos convencer as pessoas a se tornarem semelhantes a Cristo simplesmente ordenando que sejam melhores, mais disciplinadas, mais obedientes, sem antes conduzi-las a contemplar aquele que deveria ser o objeto de sua admiração. Ora, ninguém se apaixona por ordem. Alguém se apaixona por aquilo que vê como belo, verdadeiro e digno de ser desejado. Jonathan Edwards captou essa mesma dinâmica ao afirmar que, quando a mente é iluminada para ver a excelência divina das coisas espirituais, ela é naturalmente “inclinada e determinada a amá-las” (Tratado sobre as Afeições Religiosas). Por isso, antes de cobrarmos comportamento, precisamos perguntar: O que essa pessoa está, de fato, contemplando? O que ocupa sua atenção, sua admiração, sua fascinação? Porque, quando Cristo não é contemplado, o sucesso, o reconhecimento ou o prazer passam a ocupar esse lugar central; mas, quando Cristo é verdadeiramente contemplado, a transformação substitui o sucesso como objetivo supremo da vida.

Essa contemplação, porém, nunca é morna. R. C. Sproul observa que a visão da glória divina é, ao mesmo tempo, “a coisa mais terrível e a mais bela” que um ser humano pode experimentar (A Santidade de Deus). Não se trata de curiosidade religiosa, mas de reverência fascinada e é exatamente essa nova maneira de ver que C. S. Lewis descreveu ao afirmar que crê no cristianismo porque, “por meio dele”, passa a ver tudo o mais (Cristianismo Puro e Simples). Contemplar Cristo, portanto, não é acrescentar mais uma informação à vida do discípulo; é ganhar a lente pela qual toda a existência passa a ser compreendida.

2. SOMOS TRANSFORMADOS À IMAGEM DE CRISTO

Paulo não encerra sua frase apenas dizendo que contemplamos. Ele avança e declara: “somos transformados”. A contemplação cristã, portanto, não é um fim em si mesma, como se bastasse observar a glória de Cristo e permanecer inalterado. Ela possui uma finalidade clara, e essa finalidade é a transformação progressiva daquele que contempla.

O verbo original para “somos transformados” está no tempo presente e na voz passiva. Essa observação gramatical, longe de ser um detalhe técnico sem importância, revela algo essencial sobre a natureza da santificação cristã. O tempo presente indica que essa transformação não é um evento único e definitivo, mas um processo contínuo, que se desenrola dia após dia na vida do discípulo. E a voz passiva indica que o crente não é o agente principal dessa mudança; ele é, aquele que a recebe. Não somos nós que nos transformamos por conta própria; somos transformados pelo Cristo.

A frase seguinte confirma essa mesma direção: “de glória em glória”. Essa expressão comunica um caráter progressivo, uma jornada que avança gradualmente, sem esgotar-se em um único momento de decisão. A vida cristã não é uma linha reta que termina assim que alguém confessa a fé em Cristo; é antes um caminho contínuo de aprofundamento, no qual o discípulo é conduzido, aos poucos, a refletir cada vez mais a glória daquele que contempla.

O alvo dessa transformação é declarado com igual clareza: “na sua própria imagem”. Não se trata de um aperfeiçoamento genérico de caráter, nem de uma coleção de virtudes desconectadas de qualquer modelo específico. O alvo é a conformidade a Cristo, a mesma imagem que Colossenses descreve como a imagem do Deus invisível e que Hebreus apresenta como o resplendor exato da glória divina. Ser transformado à imagem de Cristo significa, portanto, ser progressivamente reconfigurado segundo o padrão daquele que contemplamos, de tal forma que nossos pensamentos, afetos e decisões passem a refletir cada vez mais quem ele é.

E, por fim, o versículo indica quem realiza essa obra: “como pelo Senhor, o Espírito”. Toda a agência dessa transformação pertence ao Espírito Santo. Não se trata de autossantificação, como se bastasse força de vontade para nos tornarmos semelhantes a Cristo e também não se trata de passividade espiritual, como se o discípulo não tivesse qualquer responsabilidade no processo. A responsabilidade do discípulo está justamente em manter o olhar fixo naquilo que deve contemplar, enquanto o Espírito realiza, silenciosa e continuamente, a obra de transformação interior.

John Piper resume essa lógica numa frase que não devemos esquecer: “Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele” (Uma Paixão por Jesus). A obediência que nasce da contemplação não é fardo cumprido por obrigação, mas satisfação que, aos poucos, transborda em transformação real.

Diante disso, é necessário substituir uma pergunta inadequada por outra, muito mais profunda. Em vez de perguntarmos “como posso parecer mais cristão?”, deveríamos perguntar: “como Cristo está sendo formado em mim?”. A primeira pergunta olha para a aparência exterior; a segunda olha para a raiz de onde nasce toda mudança verdadeira. E, se a transformação nos conduz à imagem de Cristo, uma nova pergunta se impõe diante de nós: qual é a relação entre essa contemplação transformadora e o desejo concreto de imitar aquele que contemplamos?

3. CONTEMPLAR CRISTO NOS LEVA A IMITÁ-LO E A SEGUI-LO SEGUNDO OS SEUS TERMOS

Ninguém contempla algo verdadeiramente belo permanecendo indiferente a isso. Quando os olhos se voltam continuamente para Cristo, algo mais profundo do que simples admiração intelectual começa a acontecer: nasce fascinação, e a fascinação, por sua vez, conduz naturalmente à imitação. O discipulado começa com a admiração por Cristo e se transforma, progressivamente, na imitação diária daquele que admiramos. Não se trata de copiar gestos externos, mas de deixar que aquilo que contemplamos determine aquilo que desejamos e, por consequência, aquilo em que nos tornamos.

Essa dinâmica não é exclusividade da vida espiritual; ela pertence à própria natureza dos nossos desejos. Raramente desejamos algo de forma completamente isolada; quase sempre existe, por trás de cada desejo, um modelo que admiramos e que, sem que percebamos, molda aquilo que passamos a querer para nós mesmos. É por isso que os filhos imitam os pais mesmo sem que estes lhes deem qualquer ordem explícita, e é por isso que aquele que admira um mestre acaba, cedo ou tarde, reproduzindo seus valores. Se essa dinâmica é verdadeira em relação aos modelos humanos, quanto mais deveria sê-lo em relação a Cristo, o único modelo que jamais nos decepciona e o único digno de moldar completamente aquilo que nos tornamos.

Martyn Lloyd-Jones alertava precisamente contra o risco de transformar essa verdade em moralismo, lembrando que “a imitação é o resultado, não o método” (Estudos no Sermão do Monte). Ou seja, não nos tornamos semelhantes a Cristo tentando copiar seus gestos de fora para dentro, mas permanecendo unidos a ele até que sua vida, de dentro para fora, comece a transbordar através de nós.

Contudo, é preciso avançar com cuidado neste ponto, porque aqui reside uma das confusões mais perigosas do discipulado contemporâneo. Contemplar Cristo não significa admirá-lo à distância, como quem aprecia uma obra de arte sem qualquer compromisso pessoal. O Cristo que contemplamos nas Escrituras é, ao mesmo tempo, aquele que chama. Ele não se apresenta apenas como objeto de admiração, mas como Senhor que nos convoca a ser seguido. Em Marcos 2.14, lemos o relato simples e definitivo do chamado de Levi: Jesus, ao passar, viu o publicano sentado na coletoria e lhe disse apenas duas palavras: “Segue-me”. E o texto acrescenta, sem qualquer explicação adicional, que Levi “se levantou e o seguiu”.

Dietrich Bonhoeffer, ao refletir sobre essa cena, observa que a resposta imediata de Levi não pode ser explicada por meio de justificativas psicológicas comuns; ela só encontra sentido em uma única realidade: a autoridade do próprio Jesus Cristo. É ele quem chama, e por isso o discípulo o segue. Não existe, segundo Bonhoeffer, um caminho alternativo para a fé além da obediência a esse chamado; o conteúdo do discipulado, à primeira vista, parece surpreendentemente simples: “Segue-me”. Contudo, essa simplicidade esconde uma exigência radical, porque seguir Cristo significa deixar para trás a existência anterior, não em busca de algo especial ou de um programa de vida cuidadosamente calculado, mas simplesmente por causa daquele que chama.

Essa observação nos conduz a uma advertência decisiva. Bonhoeffer distingue, em suas páginas mais conhecidas, entre aquilo que chamou de “graça barata” e “graça preciosa”. A graça barata é aquela que se recebe sem qualquer compromisso de vida transformada, uma espécie de perdão automático que não exige seguimento nem renúncia; ela justifica o pecado em vez de justificar o pecador. A graça preciosa, ao contrário, é aquela que custou a vida do Filho de Deus e que, precisamente por isso, chama o crente ao discipulado. Não podemos, portanto, contemplar a cruz de Cristo e, ao mesmo tempo, recusar o chamado que ela representa. Bonhoeffer resume essa advertência numa frase que se tornou célebre: “graça barata é a inimiga mortal da nossa igreja” (Discipulado). Contemplar Cristo crucificado é reconhecer que a graça que recebemos não é barata, e que ela nos convoca a uma vida inteiramente entregue.

Tomás de Kempis, séculos antes, já havia expressado essa mesma lógica com palavras simples e diretas: quem busca a Jesus em todas as coisas, encontra a Jesus; quem busca apenas a si mesmo, também se encontra, mas para a própria ruína. Essa é a grande advertência que atravessa toda a tradição cristã sobre a imitação de Cristo: não existe discipulado autêntico quando o discípulo insiste em seguir Jesus apenas segundo seus próprios termos, retendo apenas aquilo que lhe agrada e descartando o restante. O verdadeiro seguimento aceita que Cristo determina as condições do chamado, e não o contrário.

Por isso, a pergunta prática que deveria acompanhar cada um de nós, ao longo da semana, é simples de formular, mas profunda em suas implicações: estou seguindo o Cristo revelado nas Escrituras, ou tenho seguido, sem perceber, um Cristo fabricado segundo minhas próprias preferências? Como escreveu Abraham Kuyper, não existe um único centímetro do universo sobre o qual Cristo não clame: “Isso é meu!” (Calvinismo). Seguir Cristo, portanto, não é aderir a uma religião reservada aos domingos, mas reconhecer seu senhorio sobre a totalidade da existência.

CONCLUSÃO

Talvez você tenha chegado a esta lição pensando em discipulado como uma lista de tarefas ainda não cumpridas, ou como uma medida de quanto você ainda precisa se esforçar para agradar a Deus. Antes de perguntar o que ainda falta fazer, pergunte para onde os seus olhos têm se voltado ao longo dos dias. Porque, no final das contas, aquilo que contemplamos com maior constância é exatamente aquilo em que nos tornamos.

Que a nossa igreja, então, deixe de medir discipulado apenas por atividades e números, e volte a medir discipulado pela pergunta mais simples e mais decisiva de todas: estamos, de fato, contemplando a glória de Cristo? Porque somente aquele que contempla é transformado; e somente aquele que é transformado consegue, verdadeiramente, seguir.

PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO

  1. O que significa “contemplar a glória do Senhor” em 2 Coríntios 3.18, e por que essa contemplação está diretamente relacionada ao rosto desvendado dos crentes da nova aliança?
  2. Por que Jesus é o centro da contemplação cristã, e não apenas mais um exemplo moral entre outros?
  3. Qual é a diferença entre admirar Jesus à distância e efetivamente imitá-lo no cotidiano?
  4. Como podemos avaliar, com honestidade, se estamos seguindo o Cristo revelado nas Escrituras ou uma versão de Cristo moldada segundo nossas próprias preferências?

DÚVIDAS FREQUENTES

Contemplar significa ficar passivo e não fazer nada? Não é essa a conclusão que o texto sustenta. Em 2 Coríntios 3.18, a contemplação está intimamente ligada à transformação; ela não é uma pausa da vida cristã, mas o próprio motor que a movimenta. Práticas como a leitura da Palavra, a oração e a vida em comunidade são ferramentas que favorecem essa contemplação contínua, mas o centro permanece sempre a contemplação da glória de Cristo e a transformação à sua imagem.

Se é Deus quem transforma, qual é a responsabilidade do discípulo? O texto atribui a agência da transformação ao Espírito, mas isso não anula a responsabilidade humana. Ao discípulo cabe manter o olhar voltado para Cristo, buscá-lo nas Escrituras, na oração e na comunhão da igreja, e responder ao seu chamado com obediência. Dependência da graça e responsabilidade no seguimento caminham sempre juntas; nunca uma substitui a outra.

Contemplar Jesus é apenas estudar sobre ele? Não. Tomás de Kempis já alertava, séculos atrás, que o conhecimento meramente intelectual, desligado de uma vida moldada por Cristo, pouco vale. Contemplar é mais do que acumular informação; é permitir que aquilo que conhecemos sobre Cristo penetre o coração e reconfigure nossos afetos e nossas escolhas diárias.

Se contemplamos Cristo, a transformação acontece automaticamente? É preciso ter cuidado para não transformar esse texto em uma fórmula mecânica. 2 Coríntios 3.18 afirma que somos transformados pela ação do Senhor, o Espírito; a contemplação é o contexto em que essa obra acontece, mas ela permanece, do início ao fim, uma obra divina, progressiva e muitas vezes silenciosa, que se revela plenamente apenas com o tempo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Análise exegética de 2 Coríntios 3.18, com apoio em Hernandes Dias Lopes, Werner de Boor, Simon Kistemaker e Colin Kruse.
  • MADUREIRA, Jonas. O custo do discipulado: a doutrina da imitação de Cristo. São José dos Campos, SP: Fiel, 2019.
  • BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado (O Custo do Discipulado). São Paulo: Mundo Cristão, 2016.
  • KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. Portugal: Paulus.
  • Discipulado começa com a contemplação (material de apoio sobre a contemplação como fundamento do discipulado bíblico).
  • AGOSTINHO DE HIPONA. Confissões. São Paulo: Paulus, 2015.
  • CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
  • EDWARDS, Jonathan. Tratado sobre as Afeições Religiosas. São Paulo: Fiel, 2015.
  • LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
  • SPROUL, R. C. A Santidade de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.
  • PIPER, John. Uma Paixão por Jesus. São Paulo: Shedd, 2013.
  • LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão da Montanha. São Paulo: PES, 2010.
  • KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.

Somente Cristo! Pr. Reginaldo Soares.

UL TIMAS POSTAGENS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *